segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

Visão e fé de um leigo

Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net

Por José Carlos Leite Filho


Sou militar do Exército e nele vivenciei a arte da guerra durante mais de cinquenta anos, aprendendo, labutando e pelejando, mas não seria capaz de decidir sozinho a palpitante questão da compra dos caças da Aeronáutica por falta de conhecimentos técnicos específicos indispensáveis à relevante questão.

Sou um cidadão politizado e sei que no trato da coisa pública há princípios e normas legais que norteiam as aquisições em geral, evitando-se favorecimentos e assegurando-se a lisura e a transparência dos atos essenciais à moralidade administrativa, ressalvados os casos de sigilo imprescindível à segurança da sociedade e do Estado.

Sei também da existência constitucional de um Conselho de Defesa Nacional, como órgão de consulta do presidente da República nos assuntos relacionados com a soberania nacional e a defesa do Estado democrático, do qual fazem parte, dentre outros, os Comandantes da Marinha, do Exército e da Aeronáutica.

Pouco sei de negócios internacionais, mas jamais poderei imaginá-los afastados dos princípios de legalidade, impessoalidade, moralidade e publicidade.

Não consigo entender, embora possa imaginar, como um criterioso relatório técnico elaborado por profissionais da Força Aérea visando escolher, em processo de licitação internacional, o modelo de avião de caça mais adequado às missões de defesa e garantia da soberania nacional que lhe são específicas possa irritar autoridades do governo, em especial, segundo noticiado, o próprio presidente da República.

Sei muito bem da enorme distância que separa os militares, em face dos valores morais sempre por eles cultivados, de qualquer tipo de negócio que se afaste dos mandamentos éticos e que busque satisfazer interesses pessoais ou conveniências políticas.

Tenho dificuldades em compreender como a inadiável e milionária aquisição em causa possa vir a ser efetuada por uma “decisão política” do presidente sem levar em conta as análises e conclusões técnicas militares!

Por tudo isso, vejo como é verdadeiro o aforismo que diz que “o homem quanto mais sabe mais sabe que nada sabe”, mas consola-me a crença de que “Deus é brasileiro” e é nele que mantenho a fé...

José Carlos Leite Filho é General de Exército da Reserva. Artigo originalmente publicado no “O Jornal de Hoje”, de 22/01/10 – Natal-RN.

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