domingo, 30 de maio de 2010

Lavagens Muito Além do Sul da Fronteira


Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net

Por Jorge Serrão


O cineasta Oliver Stone, de 62 anos, estará em São Paulo nesta segunda-feira, em viagem relâmpago. Vem divulgar seu documentário "South of the Border" ("Ao Sul da Fronteira", EUA, 2009, 102 min, distribuído pela Europa Filmes). Com estreia marcada para 5 de junho nos cinemas tupiniquins, o filme celebra avanço da esquerda na região. Por ironia, Chavez é um dos mais festejados pelo quase “road movie” feito por um dos mais famosos cineastas dos EUA – país que mais ataca o venezuelano e que agora lhe prepara mais uma cama de gato.

Os norte-americanos resolveram dar um troco a Chavez. Tudo porque o venezuelano ordenou que sua “Polícia Investigativa” invadisse, no dia 18 de maio, quatro corretoras de Caracas. Banvalor Casa de Bolsa, Positiva Sociedad de Corretaje de Títulos de Valores C.A., Premier Sociedad de Corretaje de Títulos de Valores C.A. e Italbursátil Casa de Bolsa foram acusadas, junto com outras 31 corretoras, de operações ilícitas de câmbio e lavagem de dinheiro. Em resposta, os EUA resolveram acelerar uma investigação idêntica contra Chávez e seus ilustres assessores – em operações de compra e venda de petróleo aos EUA.

A estória tem tudo para virar o roteiro de um filme de terror econômico. A Águia manda avisar que a investigação tem tudo para prejudicar um ilustre consultor brasileiro. O assessor brasileiro do presidente bolivariano é um dos principais articuladores das operações de lavagem de dinheiro, nas quais acaba bem remunerado com polpudas comissões por resultado de aplicações financeiras. Quem será ele? Mistério... OS EUA só indicam que a intervenção chavista nas corretoras venezuelanas parecem servir para “queimar arquivos” dos negócios escusos. Fala-se até em dinheiro sujo financiando narcotráfico e o comércio ilegal de armas para ações “revolucionárias”.

Um fato escandaloso vai muito além das fronteiras esquerdistas do Sul, onde reinam os membros do Foro de São Paulo. O mercado paralelo de dólar na Venezuela é um convite às falcatruas. A atual cotação da moeda norte-americana no mercado negro venezuelano é de até 12 bolívares por dólar. O Banco Central da Venezuela mantem duas taxas de câmbio oficiais entre o bolívar e o dólar dos EUA.

Para as mercadorias que o governo Chávez considera de primeira necessidade, o que inclui alimentos e medicamentos, o dólar custa 2,6 bolívares. Mas adquirir para os supérfluos, o dólar custa 4,3 bolívares. Como os exportadores não conseguem facilidades de acesso ao dólar, apelam para o mercado paralelo e ao câmbio negro. A Justiça norte-americana está de olho nesta ida e vinda de dólares, por caminhos escusos, entre os EUA e a Venezuela, que acaba financiando atividades criminosas.

O cerco à lavagem transnacional de dinheiro se aperta. O Parlamento de Mônaco aplica, desde segunda-feira passada, uma nova lei contra a lavagem de dinheiro, a corrupção e o financiamento ao terrorismo. A regra aumenta o rigor das medidas de controle a seguradoras, contadores, notários e comerciantes de objetos de grande valor, assim como advogados e consultores que executam tais operações financeiras nada ortodoxas. O rigor em Mônaco também pode ser seletivo contra “consultores” brasileiros. O recado da Águia está dado...

A nova ação da Águia contra Chavez coincide com o lançamento global do documentário de Stone. Com jeitinho obra de encomenda, bem financiada pelos interessados, o filme registra a viagem do diretor Stone por cinco países da América Latina. O cineasta interage com cinco presidentes esquerdistas da região: Hugo Chavez (Venezuela), Rafael Correa (Equador), Fernando Lugo (Paraguai), Evo Morales (Cocalívia), Cristina Kirchner (Campos dos Goytacazes); Raúl Castro (Cuba Libre), e Lula da Silva (de onde mesmo?).

Os roteiristas Tariq Ali e Mark Weisbrot usam o filme para criticar a campanha midíatica dos meios jornalísticos norte-americanos contra os processos de mudanças na América Latina - especificamente na Venezuela, a partir de 1998, com a primeira eleição de Hugo Chavez. Historiador e escritor anglo-paquistanês, Tareq Ali, reclama que “os meios de comunicação dos Estados Unidos e Europa atuam contra a América do Sul e todos os seus presidentes. Então decidimos fazer um filme que desafie todas essas campanhas. A idéia é mostrar ao público norte-americano, quem são esses presidentes para que possa decidir e formar sua própria opinião”. Mais propaganda que isto, impossível.

Hugo Chavez, em várias manifestações, é só elogios ao cineasta ianque: “Oliver compreendeu muito bem que na América Latina se está forjando uma revolução. Seu documentário é um tributo à América Latina, que está lutando para unir-se e forjar seu próprio destino”. Foi o que ele proclamou no Festival de Veneza do ano passado sobre o "South of the Border" – filme produzido por José Ibáñez (ex-judoca cubano), Fernando Sulichin (argentino), além dos norte-americanos Oliver Stone e Robert S. Wilson.

Stone é famoso por seus filmes “Platoon” (1986) e “Nascido em 4 de julho” (1989), JFK, Wall Street e W (sobre a vida do ex-presidente dos EUA, George W. Bush). Já rodou vários filmes sobre a realidade da América Latina, como “Comandante” (2003), sobre Fidel Castro, e “Salvador” (1986), sobre o conflito na América Central. Oliver Stone lançou em Cannes, este ano, sua nova versão de “Wall Street - Money Never Sleeps”, com Michael Douglas e Carey Mulligan.

Um trailer do "South of the Border", que tem cara de “documentário-propaganda-ideológica” pode ser visto em:

http://cinema.cineclick.uol.com.br/trailers/carregar/filme/ao-sul-da-fronteira/id/4379

Certamente, o filme não falará das sujeiras e lavagens de grana e outros crimes que vão muito além do Sul da Fronteira. Mas fica o consolo de esperar se vai mesmo sobrar alguma pipoca para faminta Águia devorar na truculenta geopolítica real – que nem sempre é retratada devidamente nas telas cinematográficas.
Leia também o artigo de Arlindo Montenegro: Jogadas Decisivas

Jorge Serrão é Jornalista, Radialista, Publicitário e Professor. Editor-chefe do blog e podcast Alerta Total: www.alertatotal.net. Especialista em Política, Economia, Administração Pública e Assuntos Estratégicos.

© Jorge Serrão. Edição do Blog Alerta Total de 30 de Maio de 2010.

4 comentários:

Ronald disse...

Sr. Serrão,
O blog está sensacional, parece que agora temos vários posts aos domingos e, todos diga-se de passagem, muito pertinentes e instigadores de reflexões posteriores.
O Alerta faz parte do meu menu diário na blogosfera. Absolutamente necessário.
Parabéns
Ronald

Montenegro disse...

"Faça amor, não faça a guerra" do comunista Marcuse, levou a juventude ao Woodstock inaugurando a disseminação da cultura das drogas (denunciada em Red Cacaine)e ao desenvolvimento do mondo cane. E assim que, deliberadamente, cineastas como Stone, Godard e outros, utilizando a linguagem construtivista dos Tavistock,contribuem para a nova ordem mundial.

tio disse...

"Acidente aéreo na Polônia matou presidente, primeira dama e a cúpula do governo polonês.
Meus sentimentos ao povo da Polônia, mas...

... que puta inveja!..."

Esperança disse...

Já q assunto surgiu:
Acidente com Presidente da Polônia: Acidente ou Assassinato?
http://www.anovaordemmundial.com/2010/05/acidente-com-presidente-da-polonia.html