domingo, 2 de maio de 2010

Valores em conflito

Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net

Por Arlindo Montenegro

Logo ali, a uma legua de beiço da cidade, tenho um amigo chamado Zé Roberto. Desde os 15 anos, trabalhou feito um jegue, que sendo órfão sempre encontrava uma alma "caridosa", que o acolhia em troca de serviços braçais, plantando, colhendo, cuidando de galinhas, porcos e cães e deixando tudo limpinho, para a chegada do patrão e convidados todo fim de semana.

Aí o trabalho dobrava: era lavar carro cheio de lama, abastecer o fogão de lenha, colher as verduras na horta, ajudar a limpar toda área da churrasqueira, a cozinha, alimentar os cachorros, passear com os visitantes pelas trilhas do mato, gelar as cervejas, assar as carnes... gostava mesmo era de levar as moças na cachoeira, que elas ficavam quase nuinhas, dando gosto de ver a água espumenta lavando os corpos lisinhos, brilhantes.

Zé só foi à escola naqueles quatro anos em que viveu com a vó e era obrigado, senão o pau comia. Depois ficou só no mundo, fazendo um trabalhinho aqui e acolá, sorrindo sempre, respeitoso sempre e rezando sempre prá encontrar um caminho honesto e livre de adversidades. As gorjetas e o pouco dinheiro que recebia pelos "bicos", ia juntando numa caderneta de poupança que o pai tinha deixado prá ele mexer somente depois dos 18 anos.

Roupa êle ganhava, quase nova, dos moços que visitavam o sitio, tudo de griffe - tenis, camiseta, boné, bermuda. Chegou o dia dos 18 anos e um amigo o orientou para fazer a identidade, a carteira de trabalho e os papéis que lhe conferiam cidadania. Apenas comentou "quanta coisa prá provar que sou gente, quanto trabalho pra ter carteira assinada!" É assim mesmo Zé, disse o amigo, agora você vai pagar ao governo prá trabalhar. Arranjou um sócio prá vida inteira.

E agora Zé? Vou ver quanto juntei, que nem sei. Se der vou comprar um terreno e fazer uma casa pra casar e ter um filho, batizar e fazer ele estudar prá viver melhor que eu viví até agora. Dito e feito. Dez anos juntando de pouquinho em pouquinho na conta que o pai deixou, pegou o saldo da poupança e pergungou ao amigo: "este tanto dá prá um terreno?" Depende Zé, onde é o terreno que você quer?

Comprou. Quatro mil e poucos metros num loteamento afastado, cheio de mato. O contrato de compra e venda falava de guias e sarjetas, posteamento e água encanada a cargo da prefeitura. Zé podia desmatar 30% da área, estava no contrato. Mas só cortou uns páus, para usar como postes e cercar o terreno com arame farpado. Tipo dizendo: aqui tem dono! Estava feliz, rindo atôa.

Passou a escritura, pagou as taxas e começou a pagar uns tijolos e uns sacos de cimento para construir uma casinha. Logo veio o trator da prefeitura, limpando a estrada e sem dó nem piedade, enterrou a cerca. Pois foi reclamar. Ficaram de verificar e o que chegou foi uma multa do meio ambiente, porque ele tinha cortado árvores sem permissão. Pediram uma grana por fora para regularizar. Ele se negou. Pagou a multa pesada do meio ambiente, parcelada.

Zé não sabe nada a respeito do PNDH. Não entende que o projeto coletivista odeia gente como êle. Não sabe o que estão tramando por toda a América do Sul. Já ouviu falar das invasões de terra do mst acha errado porque sabe dar valor ao trabalho e tem sua propria historia de conquista de um pedacinho de chão. Sabe que dos políticos não pode esperar nada, porque já sentiu na pele como agem.

O amigo o motivou a frequentar um curso supletivo e agora esta colecionando artigos técnicos sobre criação de peixes, sobre formação de viveiros de plantas e elaboração de adubos orgânicos. Mas na escola, os professores faltam mais que ensinam. E tudo isto me faz pensar em centenas de pessoas humildes que conhecí pela vida, ocupadas em cumprir as tarefas de cada dia num país em que os mais ilustrados e os grandes proprietários, tradicionalmente, utilizam força de trabalho sem ao menos assinar uma carteira de trabalho.

São os homens descartáveis, mantidos na ignorância e arrebanhados por militantes inescrupulosos para uma agitação política conveniente que os mantém no cabresto da espera. Quando se libertam ou conseguem seu pedaço de chão, passam a ser inimigos do movimento. Os valores políticos são incompatíveis com os valores do trabalho honesto, da persistência e da humildade.

Cada prefeitura conta oficialmente com toda uma estrutura burocratica, suficiente para apoiar e fomentar o trabalho de gente como Zé, secretarias, casas da lavoura, escolas, ginásios que raramente cumprem com a finalidade do serviço público. Ou faltam profissionais competentes, ou os profissionais são amigos do rei e cobram por serviços que deveriam ser gratuitos, como uma visita técnica, uma análise de terra, a distribuição de sementes, a indicação de mercados.

Onde o poder público funciona, floresce o bem estar. Isto existe em uns poucos municípios, principalmente no sul, onde se instalaram colônias européias. Ali, os fatores sociológicos esperam um estudo apurado para medir cientificamente o peso da união familiar, o peso da religiosidade, o peso do respeito humano, o peso da tradição, o peso da integração cultural.

Tudo quanto vai na contra mão do credo coletivista. Tudo quanto impede a execução das leis propostas pelo PNDH que já começou a expulsar, limitar e punir quem trabalha a terra a produz em módulos agrícolas familiares há gerações. É um princípio humano natural, que as leis anticonstitucionais ainda não contestadas, tentam inverter.

Não obstante as leis paridas nos laboratórios do ambientalismo e dos "direitos dos mano", não obstante a escola socialista que doutrina para a ignorância coletivista, não obstante a cooptação de comunistas infiltrados nas religiões, não obstante a propaganda massiva do estado, ainda existem pessoas puras como Ze, ainda existem filhos que herdam valores dos pais, ainda existe uma vontade de superação.

As falhas estão nos traços históricos que desfiguram a formação da nação brasileira, hoje dividida em grupos antgônicos, liderados pelo mst, pelo Conselho Indigenista Missionário, pelo Ibama, por ongs estrangeiras que recebem dezenas de milhões de financiamento dos cofres púlicos, todos obedientes ao discurso do frei Boff que substitui a veneração a Deus, pelo culto a Gaia.

Arlindo Montenegro é Apicultor.

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