sábado, 28 de agosto de 2010

Acordos faustianos

Artigo no Alerta Total – www.alertotal.net

Por Thomas Korontai

O genial poeta alemão Johann Wolfgang von Goethe descreveu em “Fausto, Uma Tragédia” o que ocorre quando o Dr. Fausto, vende sua alma para o Diabo (Mefisto). Entediado, apesar do grande conhecimento já adquirido, a personagem central quer mais e o resultado são tragédias até com pessoas que não tinham muito a ver com isso.

A analogia serve para demonstrar o que está ocorrendo no Brasil. Pode-se promover a venda de princípios seja por pressão ou por busca de melhores posições, tanto de poder, quanto de dinheiro. E nesse diapasão observa-se uma fila crescente de vendedores de suas almas para os piores princípios. Mais objetivamente, pergunta-se como alguém pode negociar com antigos desafetos quando se trata de política?

E não se tratava de desafeto em nível pessoal, mas ideológico. Ideologias podem ser muitas, mas quando algumas poucas pregam o fim da liberdade, o controle da imprensa, o controle das empresas, o controle das propriedades, das rendas, da vida privada, em troca de benesses, não se pode dizer que aceitá-las foi uma simples mudança de conceito, de pontos de vista.

Grande parte da classe empresarial, em especial os grandes grupos econômicos – claro, com honrosas exceções – está aderindo a tais ideologias, mesmo que disfarçadas sob “questões de Estado em uma nova conjuntura mundial”, esperando ter maiores reservas de mercado – sim, fechando o Brasil – para justificar um novo período de “substituição das importações de desenvolvimento de tecnologias”.

Ora, no início dos anos 90, ainda sob essa política restritiva que vinha desde os anos 70, o Brasil ainda tinha plataformas industriais automotivas dos anos 60, utilizava computadores jurássicos, fabricados por grandes empresas protegidas pela Lei da Informática, e franqueava a pirataria de tecnologias e medicamentos, por não dar proteção à propriedade intelectual. O atraso foi impressionante.

O Estado Brasileiro centralizado e regulamentado excessivamente durante os anos do Regime Militar ficou pronto para ser tomado por qualquer grupo que tivesse os meios políticos para tal. Foi o que ocorreu. Agora, ficou fácil, com tudo dominado, incluindo a maior parte dos Três Poderes – do Legislativo ao Judiciário – comprar almas incautas, as mesmas que permitiram que tudo isso ocorresse, baseada nos seus próprios interesses de curto prazo. É a tragédia faustiana em curso no Brasil.

As pesquisas apontam o que muitos acreditam ser irreal. Mas os institutos de opinião pública podem ter se transformado em institutos de opinião publicada. Alguma exceção? Talvez aquelas pesquisas que cidadãos descomprometidos e com mais relacionamentos sociais possam ter mais precisão. A internet, de certa forma, demonstra isso.

Fausto tem andado por diversos lugares, e a mídia, em parte dependente da concessão do Estado – que se tornou joguete nas mãos de governantes – e em outra parte financiada pelo mesmo, com gordas verbas publicitárias, sabe trabalhar a linguagem de tal forma que se mantenha “imparcial”. Só os que têm real conhecimento da História e da dialética percebem o que ocorre.

Até os candidatos? Salvo alguma estratégia com táticas bombásticas reservadas para algum momento certo, ninguém compreende o que está acontecendo com a “campanha” presidencial, tendo, a “oposição” tantos elementos para destruir a candidatura situacionista – dos mensalões às FARCs, dos assassinatos de prefeitos e desafetos como Yves Hublet (o da bengalada em José Dirceu), preso de surpresa, “adoecido” no cárcere em Brasília e cremado sem autorização familiar – a imprensa está calada – até as ameaças de perda de partes do território brasileiro,com ameaças de “autonomia” da região da Raposa do Sol, em Roraima. Certamente, muito mais elementos poderiam desfilar pelas câmeras na propaganda obrigatória, mas os candidatos também estão calados.

A fatura está perdida? Talvez. O Brasil, entretanto, tem ainda algumas “bandas morais” ilesas por princípios em diversas instituições, de gente que não fez acordos com Mefisto travestido de paz e amor, e ao Povo basta apenas tomar conhecimento do que realmente se passa. Apenas demonstrar os fatos e a alternativa. E esta é a federalista, localista, autonomista local, descentralista, não importa o nome que se dê.

Identificada a causa – o centralismo crônico – e a solução pela via das autonomias locais, é bem possível que País experimente uma revolução cultural tão importante quando as poucas que teve ao logo de sua História. Mantendo e valorizando os melhores princípios de sempre, negando o papel de Fausto. Mefisto terá que procurar então, outra freguesia...

Thomas Korontai é presidente do Partido Federalista (em formação – www.federalista.org.br)

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