domingo, 15 de agosto de 2010

Sair da Crise?

Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net

Por Adriano Benayon

No artigo publicado em junho de 2010, “O Brasil e o Colapso Mundial”, apontei que o Brasil deixou, desde a crise de 2007/2008, de ter saldos positivos nas transações correntes com o exterior e que, no 1º trimestre de 2010, o déficit dessa conta atingiu recorde: mais de US$ 12 bilhões.

Agora dispomos dos dados para todo o 1º semestre, período em que esse déficit atingiu US$ 23,8 bilhões. Só não aumentou mais, porque em maio entraram em cena as exportações ligadas à safra agrícola. Mas em junho o ritmo de crescimento do déficit acelerou-se novamente.

A balança comercial teve saldo positivo de 7,9 bilhões. As transferências unilaterais (remessas de trabalhadores brasileiros no exterior), também tiveram superávit de US$ 1,51 bilhões.

Isso significa que o déficit de “rendas e serviços” foi de nada menos que U$ 33,21 bilhões. Nesta conta predomina o peso das “rendas”, com U$ 19,4 bilhões, quantia da qual estão deduzidos os rendimentos de capitais brasileiros no exterior.

Portanto, o capital estrangeiro prossegue remetendo vultosos lucros ao exterior, não obstante o Brasil vir tendo medíocre crescimento econômico, valendo, ademais, notar que os rendimentos líquidos oficiais das transnacionais não incluem os serviços superfaturados e fictícios, nem o subfaturamento de exportações e o superfaturamento de importações.

O próprio comércio de mercadorias, i.e., a balança comercial, confirma estar o Brasil afundando no em subdesenvolvimento. De fato, quando se trata de bens de maior conteúdo tecnológico, em vez de superávit, cresce o déficit, como se dá com os eletroeletrônicos, em que, nos seis primeiros meses de 2010, as exportações foram de US$ 3,64 bilhões e as importações, US$ 15,76 bilhões.

O balanço de pagamentos está sendo falsamente equilibrado com ingressos líquidos de investimentos estrangeiros, diretos - de longo e curto prazo - além de empréstimos e financiamentos. Trocando em miúdos, enquanto cresce a perda de recursos correntes para o exterior, o capital estrangeiro eleva a base sobre a qual novas perdas serão geradas.

Continua, portanto, elevada e ascendente a saída de recursos do Brasil, resultante de ser o mercado brasileiro controlado por empresas transnacionais, subsidiadas por múltiplas benesses proporcionadas pelas leis e regulamentos do País, sob o comando de interesses imperiais forâneos.

Aumenta, desse modo, a já excessiva ocupação dos mercados de bens e serviços, via investimento direto estrangeiro, e a exploração dos mercados financeiros por parte do capital estrangeiro de curto prazo.

Pode-se estimar uma provável crise externa do Brasil, ainda este ano, já que a depressão mundial está cada vez mais enraizada, e a derrocada financeira se apresenta iminente. A primeira implica queda nas receitas de exportação, e a segunda, saída de capitais para cobrir rombos nos EUA, Europa e Japão.

“Investindo” com o nosso dinheiro

Predomina cada vez mais na economia brasileira o capital das empresas e bancos transnacionais. A implantação destas no Brasil foi grandemente favorecida por subsídios governamentais. Além disso, a política econômica prejudicou, pelo menos comparativamente, as firmas de capital nacional.

Desse modo, as transnacionais foram estendendo e aprofundando seu controle sobre os mercados, bastando-lhes aproveitar os subsídios e investir os ganhos obtidos no Brasil. Nos últimos decênios vêm, ademais, recebendo vultosos empréstimos do BNDES, o banco federal de desenvolvimento, a juros favorecidos.

Assim, para explorar os mercados, em condições de oligopólio, nem precisam, nem nunca precisaram, fazer ingressar no País quantidade significativa de dólares.

Moeda falsa

Para as aplicações especulativas, o capital estrangeiro tampouco tem qualquer dificuldade, pois os dólares são emitidos a rodo, não havendo garantia alguma de que os aqui convertidos em reais não passem de falsos ativos monetários criados em computadores de agências de bancos em paraísos fiscais.

Além disso, a emissão de dólares nos EUA não guarda relação com alguma coisa de real valor, pois o FED e o Tesouro dos EUA têm despejado nos bancos trilhões de dólares, na casa dos dois dígitos, com a finalidade de cobrir os rombos resultantes das jogadas dos próprios banqueiros.

Assim, é muito fácil para os praticantes do “carry-trade” obter os dólares para convertê-los em reais e auferir ganhos aproveitando o absurdo diferencial entre as altas taxas de juros aqui praticadas e as baixas taxas, quando não negativas, prevalecentes no exterior. Além disso, os ganhos da apreciação da taxa de câmbio do real.

Poder mundial

A oligarquia financeira anglo-americana concentra o poder econômico e exerce o poder político real, encoberto pela fachada dos “governos constituídos” dos países centrais, de seus associados, satélites e áreas periféricas exploradas.

Essa oligarquia sabe quais são as fontes do poder. A primeira delas é a criação de moeda, controlando os bancos, que o fazem por meio do crédito, e dominando os bancos centrais, que emitem moeda diretamente, sejam eles privados, como nos EUA, sejam públicos, como no Brasil.

A primeira fonte do poder, a oligarquia a quer monopolizada e sem limites. Por isso restringe o uso da segunda fonte: os metais estratégicos e os preciosos, boicotando, por ex., o uso do ouro como reserva de valor.

Mas monopoliza esses metais, cujas minas detém em todo o Mundo, e acumula estoques. Impede, ademais, que a emissão de moeda em papel e escritural seja limitada por uma proporção com o ouro ou outro ativo real.

Os controladores dos mercados financeiros geram oferta falsa do ouro, manipulam seu preço para baixo e tolhem sua procura, deixando as pessoas sem opção segura de onde pôr as economias, e reféns das moedas emitidas ao bel prazer da oligarquia e fadadas a brutal desvalorização.

A terceira fonte do poder é a energia. Não admira que a oligarquia anglo-americana controle a comercialização do petróleo, desde a época das sete irmãs - hoje apenas quatro, duas norte-americanas e duas britânicas. Não admira tampouco que o petróleo e outros combustíveis fósseis continuem sendo as principais matérias energéticas, não obstante os terríveis danos que causam à saúde e ao meio-ambiente.

A quarta fonte do poder são as forças armadas. Estas asseguram, por ex., o suprimento de petróleo e que este seja vendido em troca de dólares. Desse modo o poder militar se combina com o da energia e o da moeda.

A quinta fonte é a indústria das ilusões, abrangendo os meios de comunicação e universidades de elite, pertencentes a fundações da oligarquia ou por ela estipendiadas. A função dessa indústria é fazer aceitar os absurdos como se fossem naturais e justos, coadjuvadas pelos negócios da drogas e da anticultura, que embotam os espíritos.

Crise e depressão

Enquanto isso, aguarda-se nova crise no quadro do colapso econômico mundial, caracterizado, de um lado, pela depressão da economia real com desemprego altíssimo e crescente, e de outro lado, por explosões: a) empréstimos impagáveis; b) dos títulos, inclusive derivativos, com alto valor nominal e quase sem valor de mercado, em parte já empurrados para os governos; c) a dos títulos da dívida pública dos EUA, de países europeus e do Japão; d) os reflexos disso tudo nas economias periféricas, como a brasileira.

Tudo isso é problema nosso. É dos povos e de verdadeiras lideranças que os queiram conduzir à libertação. Os concentradores do poder não vêem problema algum nas crises que criam. Ao contrário, elas lhes servem para prosseguir concentrando mais poder e retirando de um número cada vez maior de pessoas os meios que as ajudariam a reagir.

Adriano Benayon é Doutor em Economia. Autor de “Globalização versus Desenvolvimento”, editora Escrituras. abenayon@brturbo.com.br

Um comentário:

Anônimo disse...

Brilhante comentário.
Por que a elite intelectual
brasileira não acorda
para essa realidade?