domingo, 6 de março de 2011

Dessincronização Política de Dilma

Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Cesar Maia

A costumeira boa vontade de todos, nos primeiros meses de qualquer governo, inibe a percepção dos problemas. E o problema maior é, como se esperava, o problema político. Num regime presidencialista vertical como o brasileiro, é muito difícil que a inexperiência operacional-política do(a) presidente(a), seja substituída por assessoria, por mais bem escolhida que seja.

Em pouco tempo já se pode ver que este é e será o ponto nevrálgico do governo Dilma. E são muitas as evidências. Sem estabelecer ordem de prioridade ou cronológica, se pode listar algumas. O anúncio do corte de despesas foi atabalhoado. Primeiro, um número mágico: R$ 50 bilhões. Depois o detalhamento empurrado desse número, que só confirmou que o primeiro anúncio foi apenas para os "especialistas" verem.

A ministra do planejamento lembrou que o corte no programa Minha Casa era..., virtual. Os cortes incluíam a proibição de novas contratações. Mas o líder do governo no Senado pediu a aprovação de uma lei autorizando contratar quase um milhar de novos servidores. Em seguida, o Banco Central aumenta os juros em 0,5 ponto: um custo adicional para o governo de R$ 10 bilhões num ano. E uma expansão do bolsa-família de uns R$ 3 bilhões. E mais R$ 55 bilhões para o BNDES.

A votação do salário mínimo foi precedida de uma coreografia com as centrais sindicais, e sucedida por um juvenil puxão de orelhas no PDT, que passa como recado aos demais, que em breve devolverão o recado. O PMDB -bem comportado- sinalizou, a contrariu-sensu, mau comportamento no futuro, enquanto aguarda a dança de cargos. As escolhas do candidato do PT a presidente da Câmara e do presidente da comissão de constituição e justiça, sublinharam que o PT -e não o PDT- é que tem a certeza de autonomia em relação ao Planalto.

O caso Emir Sader é outro exemplo. Estimulado por ter sido o 'promoter' do encontro de Dilma com artistas e intelectuais na campanha e por uma esquerda do PT que respira um ar de "agora sim estamos no poder", resolveu mudar o escopo da instituição para a qual foi designado e ao mesmo tempo ironizar a sua ministra. Certamente são estímulos que vieram de seu grupo, pois o combativo sociólogo bolivariano não é maluco.

Imediatamente após o anúncio do pífio crescimento industrial ano a ano -janeiro e janeiro- de 2,5%, o IBGE anuncia com pompas e circunstâncias o crescimento do PIB em 2010, fato cansado de ser conhecido como um efeito reativo da recessão de 2009 e semeado com transgênicos no ano eleitoral de 2010. É verdade que, no meio de um parágrafo, o IBGE, para não ficar mal com os técnicos, lembrou que o tamanho do PIB em 2010 é a simples extrapolação da tendência acumulada dos 15 anos anteriores.

E as tabelas divulgadas – comicamente - mostram o Brasil logo atrás da China e da Índia, o que seria muito diferente se tomados os 2 últimos anos, ou mesmo os últimos 4 anos e pior, os últimos 8 anos. E nas tabelas apresentadas já consta o quadro de desaquecimento, com um crescimento do PIB, no último trimestre de 2010, de 5%, ano a ano, o que aponta para um crescimento de 3,5% em 2011.

A serviço da memória de Lula, esse anúncio foi um desastre para Dilma. Em breve, com os problemas herdados e um nano crescimento, o povo dirá: com Lula era melhor. Mas a assessoria da presidente(a), que sabe ler pesquisas e conhece os fatos, preocupada com a imagem da chefe, a fez desfilar pela Copa de 2014, pelo contato popular, anunciando o aumento do bolsa-família, pela TV. E nesta a imagem mais simbólica de todas que permite reproduzir um adágio popular: "não se faz omelete sem quebrar os ovos".

Cesar Maia, Economista, foi Prefeito da Cidade do Rio de Janeiro.

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