domingo, 6 de março de 2011

O Samba do Diabo Doido

Artigo no Alerta Total – http://www.alertatotal.net/


Por Jorge Serrão

A inflação está de volta? Tomara que não. Mas parece que sim. Extalinácio deixou realmente o governo, para virar apenas um mero palestrante milionário? Tomara que sim. Mas parece que não. Na dúvida em responder às duas questões, uma coisa parece certa. A subida dos preços, o aumento do endividamento da sociedade e a conta a pagar da gastança eleitoreira são heranças malditas deixadas pelo presidente que ainda não desencarnou para sua sucessora.

Os defensores da tese do quanto pior melhor podem até fizer biquinho. Mas não dá para torcer que Dilma seja pior que Lula na Presidência. Aparentemente, por enquanto, o estilo dela é menos exibicionista. Só aparece e fala na boa, em situações propagandisticamente bem preparadas. Nem carnaval ela quis pular explicitamente, refugiando-se na Barreira do Inferno. Lugar perfeito para governante brasileiro viver na folia.

Antes que o Diabo nos carregue para cair na folia, falemos da infernal inflação. No Brasil, ela é muito engraçada. Como falar em desvalorização da moeda, se o governo jura que o Real está forte? Melhor não responder para não estragar nossa permanente ilusão carnavalesca. E os preços das coisas, porque sobem se o governo também jura que a economia permanece estável? Também é aconselhável deixar a questão pra lá...

Na verdade, inflação é um problema cultural. O governo colabora para o caos. Gasta mal e muito. Impôs aos brasileiros um modelo econômico perverso. O consumo está liberado. Mas a grana para comprar as coisas, em sua maioria, não vem do trabalho produtivo. Mas do crédito nada fácil a juros altos. Ou das migalhas de programas de renda mínima – como os bolsas-famílias e derivados.

O consumo se sustenta se não houver problemas conjunturais. Mas eles acontecem. Quem pegou dinheiro emprestado já tem dificuldades para pagar. Especialistas já advertem que a inadimplência deve crescer 8% este ano. O economista-chefe da insuspeita Serasa Experian – empresa transnacional que sabe de absolutamente tudo sobre a vida alheia dos consumidores – descreve o problema: “Os juros estão subindo, as prestações ficando caras e os prazos mais reduzidos”.

Junto com o previsível calote, surge outro problemão. Os reajustes de preços. Aí a porca torce o rabo, porque a culpa é de todo mundo. Do governo, porque ele, com os impostos e juros altos, colabora para a alta do custo de vida. Da indústria e do comércio, porque transferem, para a sociedade, sem muitos pudores, os aumentos impostos pelo despudor estatal. De todos, porque aceitamos que isto ocorra, sem pressões em contrário.

Enquanto temos uma inflaçãozinha, tudo parece bem. Até agora, na numerologia oficial, estamos dentro da “meta de inflação” que o governo combina com os sócios banqueiros. A inflação medida pelo IPCA nos últimos 12 meses já chega aos perigosos 6,01% - pertinho do limite de 6,5%. Se o índice oficial já está assim, imagina o índice real, no dia-a-dia dos reles mortais, que assistem a tudo subir de preço, sem o menor critério. Apenas porque alguém disse: “Olha, temos inflação...”

A coisa está feíssima. Algo terrível acontece. Tiririca virou símbolo educacional. A comportada Sandy – que não bebe cerveja - agora é o paradigma da Devassa. Só falta o Moreira Franco deixar de ser governista, os banqueiros emprestarem dinheiro a juro zero para quem deseja produzir, o Lula começar a ler um livro por dia e o Macaco José Simão parar de fazer piada. Na hora que isto acontecer, o mundo acabou.

Antes que o cataclisma final sobrevenha, me jogo nos braços das mulatas do Olimpo. Como não posso brincar na Barreira do Inferno, busco a salvação na Igreja do Carnaval. Que Deus me ajude a pular bastante. E o Samba me seja leve!

Jorge Serrão é Jornalista, Radialista, Publicitário e Professor. Editor-chefe do blog e podcast Alerta Total: www.alertatotal.net. Especialista em Política, Economia, Administração Pública e Assuntos Estratégicos.


© Jorge Serrão. Edição do Blog Alerta Total de 06 de Março de 2011.

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