sábado, 12 de março de 2011

Propaganda Política de Governo e Hegemonia Cultural

Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Beatriz Sarlo

A nova propaganda política do governo argentino -"Nunca Menos" desdobra duas palavras que marcaram os últimos 25 anos: "Nunca Mais". "Nunca Menos" afirma que esse seria um governo que não retrocede em suas políticas sociais e de direitos humanos. Com a conjunção "nunca mais" e "nunca menos", o kirchnerismo alcançou uma fórmula sintética e de grande impacto. Tenho a sensação que vai além da hegemonia política, mas introduz uma trama onde se entrecruzam política, cultura, costumes, tradições e estilos.

A hegemonia cultural não é sempre uma marca autoritária. Isso vale a pena aclarar, porque muitas vezes se confunde. "Nunca Menos" produz identificação por dois caminhos. Por um lado, expressa em termos sentimentais, uma mensagem política (http://www.youtube.com/watch?v=G9l5XAFlSkI). Que os recursos sejam predominantemente afetivos, sintoniza perfeitamente com um clima de época, onde todas as questões têm um processamento 'subjetivo'. Em segundo lugar, um ritmo do momento. Aliás, já é inconcebível uma canção partidária que não se ajuste ao vocabulário da música pop, e da balada romântica.

Na crise do Estado do Bem Estar, há uma crise de organização da vida cotidiana, uma crise cultural das classes populares: com o Estado do Bem Estar as instituições que sustentavam o dia a dia, ficavam por baixo. A hegemonia sempre implica algum tipo de organização material e simbólica. Hoje os programas sociais pautam o mundo dos pobres. Mas, agora, o kirchenirismo percebe que isso não basta.

Os governos necessitam produzir um bem que escasseia nas sociedades atuais. Necessitam produzir convencimento nos governados. Não se trata de saber se o governo foi até onde a canção "Nunca Menos" afirma. Trata-se de que todos acreditem que foi até aí. Esse convencimento vai muito além dos elementos materiais, e é um objeto frágil e raro: é uma crença. A hegemonia cultural se sustenta em crenças, que inclusive podem contradizer os dados objetivos, ainda que não podem fazê-lo de forma permanente. Durante um tempo se poderá pensar "nunca menos" como um programa social, mas não por um prazo ilimitado.

Gramsci - em seus Cadernos do Cárcer e- escrevia que a hegemonia cultural, essa crença indispensável e misteriosa, devia apoiar-se nos centros decisivos da economia. Naturalmente, não estava pensando nos subsídios (bolsas) sociais.

Beatriz Sarlo é ensaísta, crítica literária e cultural argentina. Originalmente publicado no La Nacion de 4 de Março de 2010.

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