terça-feira, 5 de abril de 2011

Santos e Demônios

Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Arlindo Montenegro

Em qualquer agrupamento humano, nacionalidade, credo, idioma, história estão presentes os santos e os demônios, os bondosos e os cruéis. Considerando a estrutura atômica que transporta a essencia espiritual, pode-se dizer que cada homem carrega em si as energias construtivas que mobilizam para a santidade e as destrutivas para o demonismo. Bondade ou crueldade em sementes.

Nos arquivos da memória de cada pesssoa os registros de juizos apaixonados, exageros, generalizações, argumentação radical, incongruencias. Acertos e erros. Ninguém é depositário de todas as verdades, nem capaz de avaliar a carga implícita de intenções do outro. Apenas é possível cotejar fatos e comportamentos para fazer escolhas coerentes. Mesmo assim, o que é lícito e plausível num momento, é inconcebível mais adiante, noutro ambiente cultural.

Imaginando este planeta e seus habitantes num grande mural, que nem aqueles do Picasso ou do Portinari, poderíamos conceber uma colcha colorida representando as crenças dos vermelhos, amarelos, verdes, azuis, um resumo histórico onde cada um, colocando sua pincelada, quer destacá-la como única, cobrir com suas tintas as outras intrepretações, valores, religiões, formas de organização, etc.

Quem tem razão? Qual o critério para definir o bem comum? Conheci experiências que pareciam caminhar para o ideal, em tempos remotos, em pequenas vilas interioranas, onde individualidades profissionais, como células, interagiam umas com as outras de modo humano e racional.

A auto-regulamentação daquelas organizações sociais extintas estava fundada na crença e na prática da religiosidade. A ninguém faltava os principais produtos e serviços, muitos vezes pagos com outros produtos ou serviços quando a moeda era escassa. Havia tranquilidade de cada familia em sua privacidade e quem possuia mais alimentava quem tinha menos.

Pequenas unidades autônomas, células de um universo maior escalonado, mas livres, independentes de normas invasoras, comportamentos ditados de longe por gente nunca vista, gente que nunca havia plantado uma semente, ordenhado uma vaca ou cabra, nem acreditava que se pudesse dormir com as portas sem trancas.

Os delitos aconteciam raramente e os responsáveis pagavam de imediato. Delitos não são excelência desta ou daquela cor, crença ou nacionalidade. O terrorismo disseminado nos nossos dias desvia a atenção da gente do verdadeiro problema que é moral. Desvia a caracterização da responsabilidade, mascarada pela propaganda.

Como a moralidade tem cordão umbilical com alguma religião, os que mantêm o poder e querem perpetuar-se investem contra religiões, etnias e outros temas irrelevantes justificando a condução invasiva do estado sobre a vida privada. Pobreza, fome, doenças e ausência de ética e respeito, produto de decisões contrárias ao bem comum, ficam em segundo plano.

As cores do nosso painel imaginário estão borradas e as tintas não resistem aos pixamentos. Podem ser vistos grandes espaços descascados e não preenchidos nesta tela mental. Outros corrompidos e descaracterizados pela poluição decorrente das guerras, descartes do consumismo e desprezo à natureza.

Nas academias onde deveriam estar as mais ativas e aguçadas mentes, escolhidas entre as melhores para formular leis, para ensinar, para dirigir e formular os projetos estratégicos locais, regionais e nacionais, a condição moral e material está prejudicada e a seleção privilegia temas ideológicos, cotas raciais e outras, em detrimento do mérito.

Numa grande área central do nosso painel, o planeta aparece desfigurado e coberto por brilhantes ogivas, helicopteros, caças, navios, submarinos, tanques dotados de armas estranhas, tudo detacado por uma inscrição em vermelho "defesa". Em contraste, aparecem também armas apodrecendo em áreas verdes sob a inscrição "área preservada". Homens e animais não figuram. Alguns símbolos sim: Monsanto, GM, Stadard Oil, ITT, IBM, McDonald's, Coca Cola...

Arlindo Montenegro é Apicultor.

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