domingo, 20 de maio de 2012

O Louco, o Idiota, o sonâmbulo e as eleições

Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Cesar Maia

Gabriel Tarde (1843-1904) é o pai da microssociologia e da micropolítica. Suas ideias anteciparam em 100 anos a lógica da formação de opinião pública na sociedade (eletrônica) da informação. Ele ensina que a opinião pública é um processo construído por fluxos de opinamento individuais, na base, que se fortalecem nos contatos de cada um com alguém que, para este, a opinião é importante.

Os meios de comunicação, políticos, intelectuais, artistas, líderes locais, propaganda, etc., distribuem informações. As pessoas acolhem uma e outra e as testam com a opinião de quem respeitam. Uma vez coincidente com sua opinião, ele/a firma convicção e repassa boca a boca. Como a informação distribuída é geral, quando muitas pessoas priorizam, testam e repassam, muitos fluxos de opinamento ocorrem ao mesmo tempo, em pontos distintos. São esses fluxos que, em um prazo - maior ou menor -, podem formar opinião.

A TV introduziu um elemento acelerador nesse processo. Ela não forma opinião, pois seu foco é a audiência, que é opinião formada. Mas quando repete um mesmo fato – como na cobertura de escândalos ou grandes crimes - ela acelera estes fluxos e, portanto, acelera a formação de opinião. A TV é um acelerador. A formação de opinião depende dos fluxos na base da sociedade.

Gabriel Tarde destaca três personagens-símbolo: “o Louco, o Idiota e o Sonâmbulo”. O “Louco” é a pessoa que inicia ou estimula um fluxo de opinião. O “Sonâmbulo” é aquele que simplesmente repassa um fluxo recebido. O “Idiota” é quem interrompe um fluxo que chega a ele. Quando uma informação inicia seu fluxo, seus prazos são variáveis e inclusive pode desaparecer antes de formar opinião pública. Uma pesquisa de opinião pode destacar um fluxo que desaparecerá em breve ou um fluxo de baixa intensidade hoje, que poderá ser de alta intensidade amanhã.

Um candidato com baixo índice em pesquisas promove uma blitz para aparecer nos meios de comunicação. E se frustra quando a pesquisa não mudou sua intenção de voto. Deveria conter sua ansiedade e pensar que a informação distribuída e – mesmo que chegue na prioridade de muitas pessoas - o tempo para que o fluxo vá se transformando em opinião, nunca é instantâneo. Ele deve pensar menos em tempo e espaço que ocupou na imprensa e mais na informação que pode ativar e intensificar fluxos de opinamento.

Na pré-campanha, a proporção de “Idiotas” tardianos, ou seja, aqueles que não dão nenhuma importância à eleição vindoura é muito grande. A dos “Loucos” depende de seu alcance de influência direta. E a dos “Sonâmbulos” é muito pequena. Quando começa a campanha e, em especial quando a TV entra, a proporção de “Idiotas” e “Sonâmbulos” se inverte. Mas, assim mesmo, a intensidade do fluxo dependerá da informação que o candidato conseguirá distribuir.

Numa pesquisa em eleição com reeleição, o nome do governante-candidato na pré-campanha faz memória a uma proporção bem maior de “Sonâmbulos”, pois aquele está presente na mídia. No caso, os “Sonâmbulos” ainda se misturam com os “Idiotas”. Mas o ambiente de fluxos eleitorais ainda não está ativado pela presença majoritária de “Idiotas” em relação ao processo político. Quando a campanha começa e há a inversão entre “Idiotas e Sonâmbulos”, e os “Loucos” de apoio a uma candidatura crescem, só aí então se poderá avaliar a força efetiva de cada candidato.

Mas tudo isso se pode antecipar em pesquisas que priorizem os cenários futuros e busquem identificar os “Loucos” potenciais e de que forma se entrará no crescimento dos “Sonâmbulos”, despertando interesse para que repassem as informações que cheguem a eles a favor do candidato.

A Internet – ainda sem a força da TV - é também um acelerador onde a proporção de “Loucos” que a frequenta é muito maior que na TV.

Cesar Maia é Economista. Publicado no Ex-blog de 15 de Maio de 2012.

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