quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

A rapa no tacho no almoço com a estrelas


Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Paulo Ricardo da Rocha Paiva

Que não se duvide, deve ter iniciado com coquetel. Os “estrelados”, aqueles que observam o desfile do armamento obsoleto nas formaturas de seus grandes comandos, entre um gole e outro de champanhe, comentando sobre quantos iriam morrer no próximo conflito que nos espreita face às amazônias verde e azul.

Os que não marcham mais, aqueles que foram escrachados na saída do Clube Militar/Rio de Janeiro no dia 29 de março último, ah, esses ficaram de fora. Lamentável, a politicalha não os convidaria, pois eles não saberiam mastigar a verdade do que pode redundar o descaso para com os “filhos de Esparta”, em disputa que se delineia pela posse de nossos invejáveis ecúmenos.

Eis que os convidados se dirigiram para suas mesas, as estrelas refulgindo, mas o sobrecenho daqueles amadurecidos profissionais das armas estava carregado. A corroê-los o desaparelhamento, a nossa incapacidade operacional. Ainda outro dia, “especialista” do setor, com ares de “Alice no País das Maravilhas”, comentou na televisão sobre as últimas inovações da nossa indústria de material bélico.

Que beleza, mecanismos de alta tecnologia, tudo de grande utilidade, porém, não têm dúvida, sem condições de equipar as unidades em curto prazo e que, no momento presente, não vão representar nada para fazer frente, quiçá dissuadir, às reais ameaças que nos preocupam, sobremodo e particularmente, em face à região norte e ao pré- al.

Quando dialogaram sobre o que se mostra para o público na TV, com certeza, ponderaram sobre o que realmente nos faz falta, hoje, agora, para pelo menos esboçarmos alguma reação contra uma expedição guerreira/ecológica, em nome da comunidade internacional, patrocinada por grandes predadores militares.

Indignados, sussuraram quanto: aos caças novos para a FAB, que continuam sendo uma miragem apocalíptica; aos submarinos, que são previstos para o dia de São Nunca; à demora do fuzil novo, que precisa substituir o “bacamarte” do lote de 1965; â carência de mísseis portáteis, ainda insuficientes para as unidades de selva sustentarem o combate com os helicópteros e as lanchas artilhadas do inimigo; às minas e explosivos, acionados à distância por controle remoto, que ainda não foram armazenados em quantidade, impedindo a instrução de forças subterrâneas e de sustentação (combatentes civis) no seu manejo; à estupidez da subserviência dos políticos, que impuseram aos militares o inominável adestramento na “estratégia de resistência”.

Que se diga: somente com a guerra na selva não vamos vencer! Será que a "presidenta" estaria sendo alertada na “mesa da santa ceia” por quem de direito? Ah! Mas e se fosse dito para ela que a estratégia da resistência, a pior para a defesa da Amazônia, precisa ser complementada pela guerrilha urbana a ser desencadeada, sim, mas pelos civis?

A "presidenta", com certeza, se engasgaria entre uma garfada e outra. E se  lhe segredassem ao pé do ouvido, logo depois do brinde, que fosse, para não azedá-lo, que as tropas de uma “coalizão”, quando ocuparem as capitais amazonenses, deverão ser enfrentadas pela população em complemento à guerra na selva, esta sim a ser desencadeada pelo Exército?

Parece que estou vendo o momento da sobremesa. Entre um docinho e outro, não houve como fugir: à boca pequena a calda adocicada se misturou ao fel do vil achincalhe a que estão sendo submetidos os militares, particularmente os do Exército. Uma campanha canalha de desmoralização constante, covarde, tiranicamente pusilânime, que vem ganhando corpo desde a posse de sua excelência.

No contexto da difamação, entre outros, o intempestivo “comandamento” dado pela OEA, concretizando a aposição de uma placa, no mínimo anômala, na Academia Militar das Agulhas Negras (AMAN), que ofende e menospreza para sempre a competência profissional dos oficiais que ministram a instrução militar naquele instituto marcial, isto sem falar no auto-respeito que, a esta altura dos acontecimentos, já foi para o espaço.

Por fim, não posso deixar de imaginar o "papo do cafezinho", aquele sorver amargo, servido com a cobertura insossa do acordo sem cabimento e mais do que suspeito, que a Companhia do Desenvolvimento dos Vales do São Francisco e do Parnaíba (CODEFASF) ajustou, nada mais nada menos do que com o Corpo de Engenharia do Exército dos EUA.

Uma  abertura de guarda sem precedentes, que concedeu, de mão beijada, a consultoria pertinente ao desenvolvimento da hidrovia do Rio São Francisco, isto sem nenhuma consulta aos brasileiros, que sabem muito bem do que são capazes nossos engenheiros militares.

Ah! Mas o almoço foi muito bom! “Me engana que eu gosto”, consciências pesadas. Em verdade, todos voltaram para casa digerindo o menosprezo, o amadorismo estratégico, o alheamento atávico/patológico que temos aos ensinamentos do mestre da guerra SunTzu.

Enfim, que Deus salve as nossas Desarmadas Forças!

Paulo Ricardo da Rocha Paiva é Coronel de Infantaria e Estado-Maior na reserva.

2 comentários:

Anônimo disse...

texto muito bom! Infelizmente a obsolescência domina as nossas FFAA: orçamento minguado, tropa mal preparada e equipamentos sucateados.

Anônimo disse...

Parabéns, Coronel Rocha Paiva, pela coragem e lucidez.
Desculpe a expressão: estamos ferrados. E tudo o quanto deveria estar em curso, em curso avançado se encontra.