segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

De Bárbara para Maria

Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Hamilton Bonat

Querida Maria. Ainda no domingo, 27, assim que chegaram as primeiras notícias sobre a tragédia que se abateu sobre a tua cidade, Paulo convocou-nos para uma reunião. Quase todos os colegas, santos e santas que dão nome a várias cidades do estado de São Paulo, compareceram. O temor de Paulo era que colocassem a culpa em ti, pois, como bem sabes, existe uma forte campanha no Brasil para jogar no lixo tudo o que se refere à nossa igreja. Havia o perigo de te acusarem de não estar zelando pelos teus fiéis.

Aberta a palavra, o primeiro a se pronunciar foi André. Ele recordou do aperto que passou quando, em 2002, assassinaram o prefeito do seu município. Ele disse não entender o porquê de o crime ser mantido sob uma cortina de fumaça até hoje. Mas, o que ele destacou como semelhante ao caso da tua cidade foi a rápida mobilização das lideranças do partido que, na época, tinha ótimas perspectivas de chegar ao poder, como chegou.

A morte do prefeito poderia definir o rumo das eleições, que estavam na reta final. Transformaram seu caixão em palanque, com ampla difusão pela mídia. André lamentou que nem a chamada imprensa investigativa tenha se preocupado em descobrir o que realmente aconteceu.

Agora, são mais de duzentos e trinta caixões, isto é, duzentos e trinta palanques. Além de lhes dar muita visibilidade, os líderes, ao acorrerem para a tua cidade, segundo André, dão a impressão de estar tentando proteger alguém. Mas é preciso dar um desconto, pois o André, desde 2002, anda traumatizado.

Ao término da reunião, concluímos que não te acusarão de negligência, o que seria uma baita injustiça. Sabemos o quanto és zelosa. Decidiram que caberia a mim, por ser a padroeira dos bombeiros, transmitir-te o sentimento de todos e, em consequência, enviar esta mensagem.

Nem preciso dizer o quanto lamentamos a tragédia que enlutou centenas de famílias. Achei melhor fazê-lo de irmã para irmã, sem usar o título que nos diferencia dos demais humanos que já desencarnaram. Assim, posso abrir a ti, que és o Coração do Rio Grande, o meu santo coração.

A verdade é que, de algum tempo para cá, têm sido criadas muitas leis com o intuito de serem dribladas, seja por se contradizerem e, portanto, se autorrevogarem, seja por não preverem adequada estrutura para fiscalizar o seu cumprimento. Parece que foi isso que aconteceu por aí.

De qualquer forma, estão tentando imputar as responsabilidades. No início, alguns repórteres tentaram direcioná-las para os seguranças da Kiss. Parece que não deu certo. Seria uma solução simplista demais, que protegeria os verdadeiros culpados, capazes de pagar excelentes advogados.

Recomendamos que tomes cuidado com as pirotecnias que, iniciadas pela banda no interior da boate, estão tendo sequência por políticos ávidos por microfones e holofotes. Lembres de que, para eles, tudo pode se transformar em palanque, verdadeiro altar de oferendas, do qual acenam com seus milagres.

Sempre que puder, aproveites para divulgar alguns dos mandamentos básicos que andam esquecidos nesta Terra de Santa Cruz: honrar pai e mãe; não matar; não roubar; e não levantar falso testemunho.

PS: aguente firme, pois o carnaval está chegando e é para ele que logo estarão voltados os holofotes. Depois, virão outras pirotecnias – a Copa do Mundo, as eleições – e o passado ficará no passado.

Hamilton Bonat é General de Brigada na Reserva.

Um comentário:

luiz disse...

Carta de Marcella Martins, Santa Maria - RS, à Presidente Dilma

Engula o choro, presidente. Engula o choro ao falar da tragédia de Santa Maria. Engula o choro e todos os problemas desse país que nele estão escancarados. Engula que o medo do segurança de ser demitido neste país é maior do que sua consciência de deixar as pessoas saírem sem pagarem suas contas para não morrerem. Engula a soberba dos donos de empresa desta nação que não estão nada preocupados com pessoas como eu e até mesmo como a senhora porque estão focados demais em lucrar, e preferem fechar as portas como numa câmara de gás a ter prejuízos. Engula a pressão que todos os seus funcionários sentem todos os dias. Engula que para arcar com seus altíssimos impostos, todos eles dão um jeitinho bem brasileiro de se desviar dos regulamentos e leis. Engula que os órgãos responsáveis por evitar que isso aconteça não funcionam. Engula que eles deixaram essa, entre tantas e tantas casas mais, funcionar sem licença. Engula que provavelmente alguém que também ganha pouquíssimo aceitou um suborno para que isso acontecesse. Engula que a senhora deu "é" sorte por ser apenas essa casa entre todos os tantos lugares que deveriam estar fechados, que caiu na boca da mídia. Engula a mídia que vai atacar com todo o sensacionalismo possível em cima das famílias que estão procurando celulares em cima de corpos para reconhecer seus filhos. Engula as operadoras que não funcionam e que provavelmente impediram uma série de vítimas a pedirem socorro. Engula que o socorro que chega para se enfiar em lugares como este, pegando fogo, cheio de corpos de jovens para serem resgatados, recebe um salário vergonhoso, com descontos ainda mais vergonhosos, e ainda assim executam um trabalho triste e digno antes de voltarem para a casa e agradecerem por seus próprios estarem dormindo.

Não, presidente. Não chore ao falar da tragédia. Faça! Faça alguma coisa. E pare de nos dar como exemplos uma série de catástrofes para tomar medidas idiotas que não valerão de nada alguns meses depois. Não se emocione. Acione! Acione a todos os órgãos públicos, faça uma limpa em sua maldita corrupção e devolva à segurança pública, às instituições sérias, aos professores, aos bombeiros, aos enfermeiros, aos seguranças, aos jovens, o mínimo de dignidade. Não faça um discurso. Mude o percurso. Mude tudo porque estamos cansados de ver nossos iguais pegando fogo, morrendo afogados, morrendo nas filas, morrendo no crack, morrendo, morrendo, morrendo, e tendo como última imagem aquela tv aos fundos anunciando o fim de mais uma bilionária obra de estádio de futebol.

Não, presidente. Desculpe, mas na minha frente, a senhora não pode chorar. Não pode chorar sua culpa. Não pode chorar sua inércia. Não pode chorar no Chile mas também não pode chorar em Santa Maria. Porque isso é muito maior do que só um acidente. Isso é muito maior do que só sua comoção. Engula o seu choro, presidente. O seu, o dos jovens que perceberam que não teriam mais o que fazer que não morrer, e em especial, o de seus amigos e familiares, que em um país como esse, não têm outra opção que não chorar. Engula o choro, presidente."

MARCELLA MARTINS.