sexta-feira, 16 de agosto de 2013

Por uma atitude filosófica do cotidiano

Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Jean Gaspar

Dentre tantas datas comemorativas, uma se destaca nesta semana, ainda que seja pouco conhecida pela maioria das pessoas. No dia 16 de agosto, celebra-se no Brasil o Dia do Filósofo, uma oportunidade para refletirmos sobre o papel da filosofia no nosso cotidiano e como qualquer cidadão comum pode ter uma atitude filosófica em seu dia a dia.

O filósofo é aquele que se dedica a questionar e a refletir sobre política, ética, religião, tempo e sociedade. É um livre pensador, que está acima das paixões e busca pensar a própria vida. Por isso, o senso comum muitas vezes o vê como um excêntrico, distante do cotidiano. Ledo engano. O filósofo é aquele que exerce em plenitude a capacidade humana de usar a razão para representar o mundo e a vida concreta nele inserida. Ou seja, todo ser humano é um filósofo em potencial.

A palavra filosofia vem do grego "filos" (amor ou amigo) e "sofia" (conhecimento, sabedoria, verdade), e é geralmente traduzida como "amigo da sabedoria" ou "amor ao conhecimento". Ela nasceu na Grécia Antiga no século 6 a.C., como um meio de buscar conhecimentos diferentes daqueles apresentados pela mitologia, num tempo onde a religião explicava desde os fenômenos da natureza até os fatos do cotidiano. 

Antes do aparecimento da ciência como a temos hoje, a filosofia foi a única forma de conhecimento no mundo durante muitos séculos. Os filósofos tratavam o conhecimento de forma geral e explicavam um pouco sobre tudo. Aristóteles, por exemplo, foi também médico, astrônomo, matemático. Foi só a partir de Galileu Galilei, no século 17, que a filosofia começou a se fragmentar. O conhecimento tornou-se especializado.

Evidentemente que a ciência proporcionou grandes avanços ao ser humano. O problema é que as pessoas se tornaram cada vez mais especialistas, perdendo a dimensão do conhecimento geral, ou seja, alienam-se da realidade. Daí o papel fundamental da atitude filosófica frente à vida: dimensionar as consequências que o próprio avanço científico traz para a sociedade.

O filósofo italiano Antonio Gramsci já dizia que "todos os homens são filósofos". O que isso significa, particularmente neste momento da humanidade em que a ciência predomina como forma de saber e, como valor, “aquilo que é útil, prático e imediato”?

Pois bem, ao olharmos apenas o dia de hoje, esquecemo-nos do futuro. Um bom exemplo disso é o que fizemos com os recursos naturais, retirando-os da natureza para suprir "as necessidades imediatas" (de poder e de dinheiro), deixando em segundo plano o futuro da humanidade, pois sem o equilíbrio ecológico não haverá vida.

Sendo assim, ser filósofo ainda faz sentido - e muito, pois são nos momentos de crise, de conturbação social, de falta de alternativas políticas, de perda dos valores fundamentais à humanidade, é que surge a necessidade de analisar o presente e as práticas cotidianas, de pensar melhor o mundo onde vivemos.

A importância da atitude filosófica está nos atos de avaliar os diversos dogmatismos que assombram o mundo e que são impermeáveis ao diálogo. Está no questionamento das operações ideológicas que manipulam o real. Está no enfrentamento aos fanatismos que cegam. Está no combate às ações destrutivas que colocam em risco de extinção a própria vida no planeta. Esses temas embasam o programa de ação da filosofia, e que pode ser resumido em apenas um: fazer ver a realidade.

Isso significa que a filosofia não é mera contemplação, mas sim atitude. É um modo de se colocar frente à vida, questionando-a permanentemente em todas as suas dimensões.

No mundo globalizado atual, esta postura é essencial. É urgente aprender a conviver com as diferenças e a se praticar o respeito e o convívio civilizado. Mas não podemos ser tolerantes com tudo. É intolerável a injustiça, a miséria, a violência, a degradação ambiental e a corrupção na política, que gera ainda mais desigualdade social.

Esse Dia do Filósofo é um bom pretexto para refletirmos sobre o momento atual e as perspectivas futuras do Brasil, particularmente porque agora vemos, pela primeira vez, a população sair às ruas para se manifestar contra a corrupção, contra a polarização política entre dois partidos. É nessa ocasião de crise que o filósofo aponta para os problemas de forma crítica, para não aceitar como óbvias as verdades estabelecidas.

Esta é, portanto, uma oportunidade para fazer prevalecer a máxima filosófica: voltar nossos olhos e atenção para o real para desvelá-lo. Só enxergando de maneira integral – como o amante do saber – é que podemos empreender uma ação transformadora.
Afinal de contas, podemos todos ser pensadores de nossa sociedade para torná-la mais harmoniosa, equilibrada, justa e igualitária. Esse é o verdadeiro sentido do Dia do Filósofo, uma data que diz respeito a cada um de nós.


Jean Gaspar, mestre em Filosofia pela PUC/SP, é apresentador do programa Filosofia no Cotidiano (TV Cantareira) e presidente da Liga do Desporto, entidade que promove atividades físicas e desportivas como instrumento de educação e formação da cidadania.

Um comentário:

Anônimo disse...

Nosso dia? Uma banana! Esse é o meu dia, apenas meu... Deixo a ciência onde ela está, deixo a política onde ela está, deixo as pessoas onde elas estão, deixo a arte de iludir onde ela está; deixo de vender agora... Deixo tudo exatamente como está. Também deixo a minha amada na soleira do TEMPLO. Agora, nesses raros instantes que me presenteio, não há necessidade de conhecer.
Paz a todos os filósofos!
Vou cerrar a visão, vou fechar os meus olhos...