sábado, 7 de dezembro de 2013

O Último Bom Selvagem: Ensaio sobre a Piedade Civil

Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Milton Pires

As pessoas são naturalmente boas e a sociedade as corrompe, ou o ser humano é naturalmente corrupto e precisa do Estado para vigiá-lo e para que exista paz? Rousseau ou Hobbes? Respondam rápido (afinal tudo deve ser rápido hoje em dia) se puderem...

Detesto ter que responder coisas rapidamente..Eu nunca fui muito bom nisso e geralmente a resposta que sai é porcaria. Vamos então com mais calma: vejam que nessa “pegadinha” ninguém definiu o que é ser “bom”, o que é ser “corrupto” e muito menos o que é esse ente supremo – o “Estado”.

Digo eu que não sei a resposta dessa pergunta, que acredito que ninguém saiba, que aqueles que dizem saber não passam de picaretas e por aí vai... Digo uma série de coisas que se costuma dizer contra quem gosta de brincar com os outros fazendo “pegadinhas” mas digo uma que acredito não ser tão comum assim: parece que essa entidade abstrata, esse ente coletivo, essa figura mitológica que tudo pode e que tudo sabe, cuja voz é a própria “voz de Deus” (a maior besteira de toda história da humanidade) o “povo”, já tem a resposta: ele, povo, se acredita naturalmente bom.

Gostaria que alguém apontasse qualquer “movimento sísmico” das sociedades contemporâneas, qualquer período de crise, ou como fica elegante escrever – qualquer revolução – em que o povo não se achasse detentor da suprema verdade. Depois de 1789 a “voz do povo é voz de Deus” não é mesmo?? Afirmo, portanto, a pouca originalidade das revoluções que vieram mais tarde. Eu vejo Marx, Lênin, e Mao Tse Tung sempre falando francês e repetindo a conversa mole que terminou em Napoleão..

Não acredito que na Europa e nos Estados Unidos ainda exista espaço para se pensar ou escrever sobre um “homem bom” corrompido pela sociedade. Definitivamente não sei o que está na moda entre os intelectuais deles (às vezes acho que eles mesmos não sabem) mas sei bem, sei muito bem, o que a turma do “churrasco na lage”, o povo da “Chinelândia” gosta de pensar: gosta de pensar que o povo brasileiro é um povo bom e que é o “governo malvado” (seja lá qual for) que não cuida dele.

Sob certo sentido é verdade: quem se sente “deitado eternamente em berço esplêndido” precisa de babá e nada mais natural do que culpar sempre a mão que balança o berço. No caso da babá brasileira, enquanto faz isso ela prepara a apresentação de um trabalho na Faculdade de Filosofia da USP: sim, temos uma babá que “estuda e trabalha cuidando de nós” ao mesmo tempo!

Pois bem, digo eu que é desse caldo de cultura podre, dessa ideia que a sociedade brasileira tem de ser uma vítima da “pedofilia estatal” que se alimenta no país a vocação totalitária, paternalista, e de nepotismo de qualquer partido político brasileiro.
O homem brasileiro nasce, cresce e morre sempre como um “cidadão bebê” esperando por grandes mamadeiras chamadas “eleições”...

Até quando vai essa bobagem não sei mas penso que sem mudar a imagem que tem de si mesma essa nação nada pode esperar dos políticos. Impera no Brasil a filosofia do “coitadismo”..da “exclusão social”..dos “descamisados” e das “minorias”... Grupos, os mais diversos, que guardam todos uma característica em comum – aparência de vítimas..Nunca houve tantas vítimas no nosso país; temos vítimas da Ditadura, do racismo, da homofobia, da xenofobia, do machismo... Pensem em si mesmos: vocês não se consideram “vítimas de alguém ou de alguma coisa”???

Curiosa é essa noção de ser vítima: gostaria que alguém me apresentasse as grandes catástrofes, revoluções e genocídios da história brasileira..Gostaria de saber por quantos terremotos e tsunamis nós passamos..quantos vulcões destruíram as nossas cidades e quais são os nossos cemitérios de veteranos de guerra.

Enfim eu gostaria que me fosse possível encontrar fatos do nosso passado para sentirmos tanta pena de nós mesmos aceitando década após década as promessas de salvação, os partidos de aluguel, os tiranos alcoólatras e os doutores analfabetos...

Eu nasci e tenho certeza que vou morrer no Brasil...passarei toda minha vida no país dos “últimos bons selvagens” e num mundo que deixou de acreditar nessa besteira há muito tempo...

Dedicado a mim mesmo num dia em que eu estava com piedade de mim....rsss

Milton Simon Pires é Médico.

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