domingo, 16 de março de 2014

O Brasil Radical



Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Leo Aversa

Não se sabe ainda como o PSTU do B, partido criado pela ala mais radical do PSTU, acabou ganhando a eleição. Talvez tenha sido o resultado da Copa, talvez a oposição de uma revista semanal, secretamente financiada pela Coréia do Norte para desacreditar a direita brasileira ou até mesmo um surto de niilismo. Não importa. A extrema esquerda finalmente estava no poder.

A presidente Sininho assumiu o governo com idéias revolucionárias: no primeiro pronunciamento à nação avisou que a partir daquele momento nenhum cidadão ia precisar se preocupar com nada. O governo ia pensar por ele, cuidando de tudo e de todos. Não só da saúde, educação, transporte e segurança, assuntos considerados pequeno-burgueses pelos revolucionários, mas tudo mesmo, de briga de vizinhos até o preço do coco no Leblon, passando pela escalação do meio de campo do Flamengo.

Para isso seriam criados mais 3243 ministérios e 6547 estatais. O problema é que o PSTU do B só tinha quatro integrantes, então rapidamente o PMDB, socialista desde sempre, se ofereceu para ajudar. A substituição do vice presidente original pelo Sarney (agora em versão barba preta) foi recebida com certa preocupação. Seu partido passou a controlar quase todo o governo, inclusive a senha de banco da presidente.

Influenciada pelo estilo dos novos aliados, Sininho resolveu acabar com a miséria no Nordeste transferindo São Paulo para o Maranhão. O plano foi considerado lunático pelos infiéis reacionários, mas a presidente, guiada pela consciência do proletariado, seguiu em frente sem dar ouvidos aos opositores, como convém aos verdadeiros revolucionários.

O dia a dia do brasileiro ficou bem mais simples. Todos acordavam as seis da manhã, nem antes nem depois, como estabelecido pelo Ministério da Aurora, e tomavam o mesmo café da manhã, seguindo o cardápio da Secretaria da Primeira Refeição. Só existia um jornal, que trazia as notícias cuidadosamente escolhidas pelo Ministério da Realidade.

Às sete a Tevebrás transmitia o “Bom dia Sininho!” programa de cinco horas onde a presidente cantava hinos patrióticos, ensinava a prática do legítimo socialismo tropical e oferecia conselhos afetivos. Numa atitude extremamente ecológica os carros particulares foram proibidos. Como o Ministério dos transportes era do PMDB, ônibus trens e metrô passaram a ser fornecidos exclusivamente por aliados de Renan Calheiros, que os compravam usados no Paraguai e revendiam para o governo pelo triplo do preço.

Jornais clandestinos denunciaram a negociata e com isso todos foram parar no paredón. Não os aliados, só os jornalistas que fizeram a denúncia. A presidente, por demais ocupada pelo programa diário, não conseguia dar atenção a esses pequenos detalhes e os quatro integrantes originais do PSTU do B, os cardeais da revolução, passavam o tempo brigando entre si, como sempre.

Cada cidadão tinha o emprego escolhido pelo Ministério da Vocação e os salários foram abolidos: cada um tinha que ir na Gastobrás, a estatal que cuidava das despesas pessoais, e explicar o quanto precisava e onde ia gastar, sendo que o dinheiro só podia ser aplicado em bens e atividades pré-aprovados pelo ministro da Responsabilidade Financeira, Jáder Barbalho.

Inexplicavelmente o país começou a afundar. A presidente atribuía todos os problemas à uma conspiração dos agentes capitalistas internacionais, teoria desenvolvida no Ministério do Não-Fui-Eu. O blogueiro oficial da presidência inventou a Mandrakebrás, uma estatal cujo objetivo era criar a ilusão de prosperidade, mas mesmo assim o clima só piorava. Os quatro companheiros do PSTU do B, cansados da situação, criaram um novo partido, o BUTS do P, para fazer oposição ao governo. A presidente Sininho foi obrigada a convocar novas eleições.

Desta vez, com a população ainda traumatizada pela última experiência, quem ganhou a eleição foi o NeoDemo, um partido à direita do antigo DEM. Formado pela Sheherazade, o Bolsonaro e um conselho de colunistas de direita, o NeoDemo tratou logo de mostrar serviço: privatizou absolutamente tudo, principalmente saúde, educação, transporte e segurança, setores considerados um antro de comunistas pelos novos reacionários.

No primeiro pronunciamento à nação a presidente Sheherazade deu o tom: “Em tempo de murici, cada um cuida de si.” O conselho de colunistas, uma espécie de talibã ateu, decretou que a lei de Gérson era a nova constituição. O país seria dos mais espertos, numa versão involuntariamente sarcástica da meritocracia liberal. Seguindo outra recomendação do conselho o voto passou a ser pago: o preço variava de cem reais para votar para vereador até dez mil para presidente. “Só assim o povo vai entender o valor de uma eleição e só tem valor o que pode ser comprado” foi a explicação oficial.

A solução do Bolsonaro, agora Ministro da Justiça, para a segurança foi uma farta distribuição de pistolas e fuzis para a população (exceto aos que ele considerava incapazes: crianças menores de cinco anos, homossexuais, mulheres e negros). Tudo passou a ser resolvido à bala, desde briga de vizinhos a discussões sobre o preço do coco no Leblon. O meio de campo do Flamengo não sobreviveu à fúria da torcida armada.

Como o NeoDemo era um partido pequeno, precisou pedir ajuda ao PMDB, que exigiu Sarney (na versão tradicional) como vice. Foi também o PMDB que organizou toda a privatização do governo, motivo pelo qual os aliados do Renan Calheiros conseguiram comprar quase todo o país a preço de banana (eles pretendiam vender tudo de volta ao governo quando a esquerda voltasse ao poder). Foram proibidos protestos, manifestações, greves ou qualquer tipo de reclamação. “Quem reclama é porque levou uma volta e se levou uma volta é porque é otário. O Brasil não é mais lugar de otários”, explicou Sheherazade, com a candidez que lhe é peculiar.

Os que ganhavam um salário mínimo eram obrigados a usar um uniforme escrito “perdedor” na frente e “pobre” atrás. O bulliyng contra os menos favorecidos não só foi liberado como também incentivado. A presidente dava o exemplo chutando os mendigos que encontrava no caminho para o Palácio do Planalto. Em pleno século XXI criava-se o capitalismo medieval.

A situação saiu do controle quando houve um grande incêndio na Rocinha. Os bombeiros, privatizados, exigiam pagamento adiantado para debelar o fogo. Como o dinheiro dos moradores estava chamuscado, só aceitavam Visa ou MasterCard (3x sem juros). Enquanto a negociação não andava o fogo se alastrou e reduziu metade da Zona Sul a cinzas. A declaração do Ministro da Justiça de que o acontecimento era irrelevante já que a maioria dos mortos eram pobres e que entre eles havia muitos gays não teve boa repercussão. A chapa esquentou e na eleição seguinte o NeoDemo foi deixado de lado.

Cansados das experiências radicais malsucedidas, desta vez os brasileiros votaram em alguém sábio, centrado, com condições de conduzir o país de maneira competente pelos desafios no novo século. Thor Batista foi o eleito. O PMDB, como sempre preocupado com a nação, indicou Sarney (agora em versão Tutankamon) como vice. O país completava o seu giro de 360º.

Leo Aversa é Editor do site TontoMundo.com – onde o texto foi originalmente publicado em 11 de março de 2014.

2 comentários:

Anônimo disse...

Seria engraçadíssimo se não fosse orwelliano.....

Anônimo disse...

Desculpa, mas não vejo nada de radical em Bolsonaro e Sherazade, o que eles falam é bastante equilibrado para o homem médio e pai de família. Posto isso, não gostei do artigo.