domingo, 15 de junho de 2014

A profecia auto-realizável nas empresas

Robert Rosenthal

Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Marcelo Cuellar


Robert Rosenthal, pesquisador comportamental alemão radicado nos Estados Unidos, realizou uma experiência no qual atribuía notas de QI não necessariamente verdadeiras a alunos. Todos alunos da amostra possuíam QI dentro da normalidade, porém alguns deles foram caracterizados como QI superior falsamente. Somente Rosenthal sabia desta alteração.

Os alunos não tiveram acesso aos resultados de seus testes, mas seus professores sim. Com os resultados em mãos e sem saberem que eles não necessariamente correspondiam a realidade, os professores passaram a interagir e a dar aula para este grupo de alunos. Algum tempo depois, Rosenthal realizou uma segunda aferição de QI nos mesmos alunos. Sabe o que ele constatou? 

Metade dos alunos considerados “normais” tinham aumentado seu QI, mas nos alunos que foram considerados “brilhantes”, o aumento foi registrado em 80% da amostra (um aumento de 10 pontos). E ainda daqueles considerados “brilhantes”, 20% mostrou um acréscimo de 30 ou mais pontos na medição.*

Sim, somos influenciados pelas “verdades” que nos são ditas e afirmadas constantemente. E de tão repetidas e “comprovadas” elas de fato se tornam realidade.

Ferramentas como avaliações de potencial, programas de formação de líderes e pool de talentos precisam ser bem dimensionados e calibrados para não incorrer neste tipo de armadilha corporativa. Eleger um jovem executivo como promissor presidente da empresa e então proporcionar a ele oportunidades únicas de desenvolvimento, MBA no exterior, os melhores projetos da corporação e afirmações positivas constantes de de seu brilhantismo, poderão levar a uma profecia auto-realizável, que não necessariamente considerou de fato os melhores profissionais disponíveis na empresa.

Erros como estes poderão levar empresas a perder excelentes talentos para concorrência, gastarem fortunas sem o melhor retorno possível e gerar um impacto nem sempre positivo no clima organizacional.
E histórias como estas são constantes nas empresas.

Muitas vezes porque há uma meta a ser atingida, como aproveitamento de um programa de trainees ou um mínimo de promoções dos executivos patrocinados em um curso de MBAs. Para bater a meta e ganhar o bônus, distorções podem ser criadas.

Para garantir que isto não aconteça, é preciso criar programas com avaliações mais sofisticadas e que mensurem o quanto de fato a empresa se beneficiou no desenvolvimento destes executivos. A dificuldade é que, nem sempre essas metas podem ser mensuradas no curto prazo. E aí? Como vamos fazer?

Eis mais um desafio para as empresas. Se quisermos pensar em estratégias sustentáveis para os nossos negócios, vamos ter que parar de pensar somente no curto prazo.


Marcelo Cuellar é Diretor associado na Page Executive. Originalmente publicado no blog do autor, no site da Exame, em 10 de junho de 2014.

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