domingo, 15 de junho de 2014

O fim da orquestra vermelha


Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Carlos I. S. Azambuja

A Orquestra Vermelha – Die Rote Kapelle – foi o nome que os nazistas deramà maior rede de espionagem soviética durante a Segunda Guerra Mundial. Segundo o almirante Canaris, chefe do Abwehr  (Departamento de Informações e Contra- Informações  Militares) desde 1935, “a Orquestra Vermelha custou à Alemanha a vida de duzentos  mil soldados”.

As redes da “Orquestra Vermelha”  enviaram  para  a  União  Soviética segredos relativos aos planos estratégicos da máquina militar alemã, as estatísticas de produção e efetivos da Marinha e Aeronáutica, a localização das unidades do Exército,  os  planos  de  ataque  aos comboios ingleses que seguiam rumo à URSS e a situação das tropas alemãs que combatiam no Leste, entre outros.

A “Orquestra Vermelha” havia enviado a Moscou, até fins de 1942, aproximadamente 1.500 despachos.

Todos os membros da “Orquestra” foram executados sumariamente com talvez a única exceção de Leopold Trepper, o regente da Orquestra,  que em Moscou havia cursado a Escola  de  Espionagem  do  Exército  Vermelho.

Trepper, após ter sido presopela Gestapo, foi forçado a enviar para a URSS informações previamente preparadas pelos alemães. Todavia, em 13 de dezembro de 1943 ludibriou a vigilância dos investigadores da Gestapo e desapareceu.

Escondendo-se em Paris até o dia da libertação, Trepper recebeu ordens para retornar a Moscou. Já em Moscou, aonde chegou à bordo de um avião soviético, Trepper foi recepcionado  por  um séquito de oficiais do serviço secreto e conduzido  para  um  apartamento onde, entre várias incumbências, deveria  elaborar  um relatório sobre todas as  suas  atividades  durante  a  guerra.

Com o passar do tempo, Trepper percebeu  que  cada  vez  mais as nuvens negras se acumulavam  por  sobre  sua  cabeça,  apesar  do brilhante  trabalho que realizara na Alemanha.

Certo dia, um funcionário graduado do Centro lhe transmitiu uma ordem expressa do diretor:

“Você precisa mudar de apartamento”. Em menos de meia hora, Trepper foi instalado em sua nova moradia onde ficaria longos anos: a prisão de Lubyanka, onde passou a viver em condições precárias e tratos desumanos em troca de ter sacrificado toda a sua vida a serviço da Mãe Pátria. Sem nenhuma acusação oficial, o  mais  traquejado  rezident do Centro foi atirado a uma masmorra, onde tudo era proibido.

Em 19 de junho de 1947, finalmente, Trepper foi condenado a 15 anos de “isolamento”. Entretanto, o ex-chefe da “Orquestra Vermelha” parecia sentir-se feliz  por  não  ter  sido  enviado para a vastidão deserta da Sibéria.

Após a morte de Stalin, Trepper foi totalmente reabilitado e todas asacusações feitas contra ele foram consideradas “sem fundamento”.
Leopold Trepper era um judeu, nascido na Polônia, e sua família era tipicamente judia. Aos sábados todos freqüentavam a sinagoga.

Nessesentido, torna se  inconcebível  que  uma  pessoa  com  a  sua  inteligência ignorasse a trágica sina dos judeus na “pátria do proletariado”; ignorasse que Stalin sempre odiou e perseguiu os judeus; ignorasse os grandes expurgos dos anos 30; que o anti-semitismo do venerado “mestre da humanidade” não conhecia limites e ignorasse que a liderança soviética,que não cessava de  proclamar  o seu internacionalismo, sempre cultivou umdesenfreado anti-semitismo.

O anti-semitismo selvagem foi desencadeado  durante  e  depois  da Segunda Guerra Mundial. Após o casamento de Svetlana com Gricha Morosov, seu pai, Stalin, descobriu que se tratava de  um judeu com nome russificado, obrigou-a a se divorciar e determinou a deportação do genro para um campode concentração.

A seguir, Malenkov, do círculo íntimo de Stalin, apressou-se a  mandar  embora seu genro Vladimir Schamberg, também judeu. Já Leonid Brejnev, que mais tarde seria o sucessor de Kruschev, tratou de livrar-se da própria esposa, Viktoria, uma judia.

Aliás, a perseguição aos  judeus  teve  início  muito  antes,  ainda  na  época de Lênin, em 1918. Eram considerados “lixo  humano  junto  da  pureza cristalina da sociedade soviética”.

As universidades fecharam suas portas aos judeus.

O kamarada Petrus Bovka, presidente do Sindicato dos Escritores da Bielorússia, acusou-os de  traição.  Vários  professores e poetas  foram obrigados a encerrar suas carreiras. O único judeu poupado foi o kamarada Ilya Ehrenbburg, tradicional apologista do regime. O poeta Josef Brodski foi expulso do país pelo crime de “vadiagem” e, no exílio, recebeu o Prêmio Nobel.

Depois de permanecer décadas engavetado pela KGB, o excepcional romance “Vida e Destino”, de Vassili Grossman, só foi publicado na segunda metade dos anos 80, no governo de Gorbachev. Natan Sharansky, passou 10 anos preso, acusado de “espionagem  e  traição  contra  a União Soviética”.

Muitos outros judeus morreram nos campos de trabalho forçadoe nas prisões.

Em seu testemunho final, disse Leonard Trepper:  “Pertenço a uma  geração sacrificada pela História... Homens e mulheres que chegaram aos clarõesde outubro trazidos pelo grande sopro da revolução ascendente nãoimaginavam que, 50 anos mais tarde, só restaria de Lênin o corpo embalsamado na  Praça  Vermelha...

Com um tal sistema de coerção,alguns ainda ousam falar em socialismo”.
Treepper faleceu  em  Israel,  sem  assistir  ao  desmoronamento  do  socialismo real no Leste-Europeu e ao  desaparecimento  da  União Soviética. 

Carlos I. S. Azambuja é Historiador.

Um comentário:

Anônimo disse...

Tanto quanto sei, Lazar Kaganovich era judeu. Sem negar o anti-semitismo de Stálin, claríssimo, como explicar a sobrevivência de Kaganovich?

Gustavo Silva
gustavoarsilva0@gmail.com