segunda-feira, 2 de junho de 2014

Organizações Não-Governamentais (ONGs), um feudo dos Pós-Marxistas (1)


Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Carlos I. S. Azambuja

“Se você quiser ganhar dinheiro fácil, funde uma ONG de esquerda. Chove dinheiro. Por isso elas estão se propagando como ratos. Invente um título bem genérico e apelativo, como "Instituto de Combate à Desigualdade Social", ou, mais amplo ainda, "Instituto Latino Americano", “Instituto de Estudos Sócio-Econômicos”. Alugue uma ou duas salas bem situadas, equipando-as com o que houver de mais moderno. Abra um site na Internet. Registre-a como entidade não lucrativa, claro. Nomeie uma diretoria, da qual você é o presidente. E basta. Os objetivos declarados serão tão abstratos e imprecisos quanto inatacáveis: ”combater a desigualdade social“, “lutar contra a discriminação racial, ou de gênero", "assessorar projetos sociais", etc. etc. Generosas contribuições virão de todo o mundo” (“O Dinheiro das Esquerdas”, Nelson Lehmann da Silva, maio de 2002)


O texto abaixo, com críticas às atividades de ex-comunistas - denominados de pós-marxistas– bem como aos vínculos desses pós-marxistas com Organizações Não-Governamentais (ONGs) foi extraído do livro “Neoliberalismo: América Latina, EUA e Europa”, de autoria do escritor marxista e professor de Sociologia na Universidade do Estado de New York, James Petras. O livro foi lançado no Rio de Janeiro em 20 de maio de 1999 pela Edifurb, com a presença do autor. O texto não pode ser considerado, portanto, como mais uma matéria produzida pela direita ensandecida com a finalidade de difamar a ideologia científica e seus seguidores.

Escreveu James Petras que os intelectuais ex-marxistas, que ele denomina de pós-marxistas, após a queda do socialismo real vêm criticando o marxismo valendo-se de uma série de argumentos básicos. Uma crítica arrasadora aos principais postulados do marxismo. Vejam:

- o socialismo foi um fracasso e todas as teorias gerais das sociedades estão condenadas a repetir esse processo porque refletem um mundo de idéias dominado por um único sistema racial/cultural/de gênero;

- a ênfase marxista colocada na classe social é reducionista, porque as classes estão se dissolvendo e agora os principais pontos de partida são culturais e enraizados em diversas entidades: raça, gênero, etnia, preferência sexual;

- o Estado é um provedor corrupto e ineficiente de bem-estar social. Em seu lugar, a sociedade civil é a protagonista da democracia e da melhoria social;

- o planejamento centralizado leva à burocracia e é um produto dela;

- a luta da esquerda tradicional pelo Poder estatal é corruptora e leva a regimes autoritários, os quais subordinam a sociedade civil ao seu controle;

- as revoluções sempre acabam mal: as transformações sociais ameaçam provocar reações autoritárias. A alternativa é lutar pela consolidação das tradições democráticas para salvaguardar os processos eleitorais;

- a solidariedade de classe faz parte das ideologias do passado, refletindo políticas e realidadesantigas. Não existem mais classes;

- a luta de classes e o confronto não produzem resultados tangíveis, provocam derrotas e não conseguem solucionar problemas imediatos;

- o anti-imperialismo é outra expressão do passado que sobreviveu à sua época. Na economia globalizada de hoje não há possibilidade de um confronto entre os centros econômicos. 

Alguns pós-marxistas passaram a defender a idéia de que a fonte de Poder está nos novos sistemas de informação, nas novas tecnologias e naqueles que os gerenciam e controlam. A sociedade, segundo essa visão, estaria evoluindo para uma sociedade de novo tipo, na qual os operários irão desaparecendo em duas direções: para cima, integrando-se à nova classe média, e para baixo, juntando-se à sub-classe marginal do trabalho informal.

Uma visão pessimista dos pós-marxistas relaciona o declínio da Esquerda Revolucionária à queda do socialismo real no Leste, à crise do marxismo, à perda de alternativas e ao vigor dos EUA. Todos esses argumentos são mobilizados para instigar a Esquerda a apoiar o possibilismo, ou seja, a necessidade de se trabalhar dentro dos nichos do livre-mercado impostos pelo Banco Mundial e pela agenda de ajustes estruturais, para confinar os políticos a esses parâmetros. Em suma, os pós-marxistas decidiram que as revoluções são coisa do passado.

Explica James Petras que os possibilistas adaptaram-se ao Neoliberalismo, aprofundando as suas políticas de livre-mercado, e muitos deles impondo medidas novas e cada vez mais austeras para manterem o Poder, passando à condição de eficientes e honestos gerentes do Neoliberalismo, capazes de garantir a confiança dos investidores e de pacificar as inquietações sociais. A luta de classes é encarada por eles como sendo um atavismo do passado que não mais existe.

O anti-imperialismo, prossegue Petras, desapareceu do vocabulário político dos pós-marxistas. A grande maioria dos ex-guerrilheiros da América Central, ex-sandinistas e ex-farabundistas, tornaram-se políticos e, agora, solicitam cada vez mais ajuda imperialista. Seus problemas não são mais os investimentos estrangeiros, mas a sua ausência.

No entanto, grandes setores de trabalhadores e camponeses, que antes estavam no mercado formal de trabalho, agora estão homogeneizados e com uma mobilidade para baixo. Isso gera uma grande possibilidade de ação revolucionária unificada. Em uma palavra: há uma identidade comum de classe que se constitui no terreno para organizar a luta dos pobres.

Ainda segundo Petras – um marxista, recorde-se -, uma das principais críticas dos pós-marxistasao marxismo é a noção de que o Poder estatal corrompe e que a luta pelo mesmo é o pecado original. Eles argumentam que isso se deve ao fato de que o Estado está tão distante do cidadão, que as autoridades tornam-se autônomas e arbitrárias, esquecendo as metas originais e visando os seus próprios interesses. Hoje, as políticas de ajuste estrutural nos níveis nacional e internacional geram pobreza e desemprego, exaurindo recursos locais e obrigando as pessoas a migrar ou a se envolver no crime.

Para legitimar seu papel, os profissionais pós-marxistas das ONGs, como agentes do que passaram a chamar de “comunidades democráticas de base”, tendem a se desfazer da Esquerda em nível de Poder estatal. Os gerentes pós-marxistas das ONGs tornaram-se peritos na elaboração de projetos e em transmitir a nova identidade e o jargão globalista aos novos movimentos populares.

Os pós-marxistas têm-se adaptado e aprofundado as suas políticas de livre mercado, promovendo-se à condição de eficientes e honestos gerentes do Neoliberalismo, capazes de garantir a confiança dos investidores e de pacificar as inquietações sociais. Dão ênfase à auto-gestão, ao atacar o paternalismo e a dependência ao Estado. Nessa competição entre as ONGs para cativar as vítimas do Neoliberalismo, os pós-marxistas recebem importantes subsídios de seus parceiros da Europa e dos EUA. A ideologia de auto-gestão dá ênfase à substituição dos funcionários públicos por voluntários e por profissionais contratados temporariamente.

A prática marxista de solidariedade envolve, hoje, intelectuais que escrevem e falam em favor dos movimentos sociais em luta, engajados e dispostos a compartilhar as mesmas conseqüências políticas. A prática de solidariedade está ligada aos intelectuais orgânicos que fazem parte do movimento. Por outro lado, os pós-marxistas estão imersos no mundo das instituições, dos seminários acadêmicos, das fundações estrangeiras, das conferências internacionais e dos relatórios burocráticos. Eles escrevem num jargão pós-moderno e esotérico, somente compreendido pelos já iniciados.

Para os pós-marxistas, o principal objetivo é conseguir a ajuda financeira estrangeira para o projeto. Na nova condição de gerentes de ONGs, são eles fundamentalmente atores políticos, cujos projetos, treinamentos e workshops não têm nenhum impacto econômico significativo, tanto sobre o Produto Interno Bruto quanto sobre a diminuição da pobreza. Mas as suas atividades, segundo Petras, essas sim, têm impacto, pois desviam o povo da luta de classes para formas inofensivas e ineficientes de colaboração com os seus opressores.

Carlos I. S. Azambuja é Historiador.

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