segunda-feira, 28 de julho de 2014

Frente Patriótica Manoel Rodriguez


Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Carlos I. S. Azambuja

“É só pegar os panfletos e as entrevistas dos líderes dos partidos para perceber que eles estão de esquerda para enterrados. São como cadáveres insepultos vagando por aí. A maioria dos grupos que se dizem de esquerda são igrejinhas, seitas, um bando de loucos e dogmáticos”.(Betinho, setembro de 1993)

Frente Patriótica Manuel Rodríguez (FPMR) foi constituída no Chile em 14 de dezembro de 1983, no governo do general Pinochet, como braço armado doPartido Comunista Chileno. Foi o resultado das contradições e da luta ideológica que, na época, permeavam o interior do partido.

Em 1974, apenas um ano após a deposição do presidente Allende, o Partido Comunista Chileno, na clandestinidade, aceitou o oferecimento de Cuba de preparar seus militantes nas técnicas da luta armada. Esses quadros militares foram formados em anos de instrução e treinamento. Também na Bulgária, RDA e URSS, a partir de 1977, outros grupos de comunistas chilenos passaram a receber treinamento similar.

Como resultado, o PC Chileno, através da formação adquirida por esses militantes, adquiriu um novo arsenal político-ideológico e constituiu, pela primeira vez em sua história, um braço militar, dando início àquilo que por cerca de 9 anos, até dezembro de 1983, foi denominado de tarefa militar do partido.

Em dezembro de 1983 esse grupo de militantes militarizados abandonou o partido e constituiu a Frente Patriótica Manuel Rodríguez, passando a atuar com autonomia.
Nas escolas militares cubanas foram formados cerca de 200 oficiais do PC Chileno. Maurício Hernandez Norambuena, que aparentemente foi o chefe do grupo que seqüestrou o publicitário Washington Olivetto, é um desses oficiais. Cerca de 70 lutaram – e alguns morreram – na Nicarágua, integrando a Frente Sandinista de Libertação Nacional. Outros voltaram ao Chile clandestinamente, foram presos ou mortos ou voltaram ao exílio.

Antes disso, no entanto, levaram a cabo numerosas ações, como a tentativa de assassinato do general Pinochet em 1986, o seqüestro do coronel do Exército Carlos Carreño, libertado em São Paulo, o assassinato do senador Jaime Guzman, o seqüestro do filho do proprietário do jornal “El Mercúrio” e depois, já como mão de obra ociosa, pois a FPMR foi praticamente dizimada no Chile, cerca de 10 seqüestros no México, Panamá, Espanha e Brasil, com a assessoria do Serviço de Inteligência Cubano

Aliás, o Serviço de Inteligência Cubano sempre esteve por trás de todas essas atividades criminosas, seja fazendo o planejamento das ações, seja fornecendo o armamento utilizado, despachado para diversos países através das malas diplomáticas. Isso em troca da divisão do dinheiro obtido.
Foi, portanto, Fidel Castro, o responsável pelo surgimento, em 1983, da FPMRcomo braço armado do PCCh, do qual se desligou em 1987, passando a agir por conta própria, e depois, derrotada a luta armada, como braço operacional da Inteligência cubana em toda a América Latina.

Todavia, a Frente Patriótica Manuel Rodríguez não acabou, como alguns possam imaginar. Em dezembro de 2003, em matéria comemorativa do 17º aniversário de sua fundação, o tablóide “El Rodriguista”, em editorial, afirmou: “Para os Rodriguistas a tarefa ainda não foi cumprida. Viver só do passado carece de sentido para os revolucionários”.

Depois, em janeiro de 2004, os membros da Direção Nacional da FPMR, Leonardo Tapia e Jorge Gálvez, concederam, no Chile, uma entrevista ao jornalista Manuel Holzapfel Gottschalk, dando a conhecer as resoluções do seu I Congresso, que encerrou um ciclo de luta interna iniciado em 1992, e o novo projeto político da Organização.

Segundo os entrevistados, o Congresso da FPMR reivindicou o marxismo-leninismo como doutrina e o rodriguismo como “experiência aplicada a uma realidade concreta como a chilena”, bem como definiu sua identificação com as lutas de outros povos do Continente, e aprovou uma linha estratégica que caracteriza a FPMR como “uma organização político-militar”. Segundo Tapia, embora a transformação do atual sistema político requeira a construção de uma força social, a História demonstra que essa força, mais cedo ou mais tarde, deverá confrontar-se, pois o povo, na medida em que avança em sua organização e mobilização, deve enfrentar a repressão dos aparatos do Estado.

Tapia, prosseguindo, afirmou que a política atual da FPMR tem três eixos: “o social, que busca construir o movimento popular; o político, que pretende a convergência das organizações da esquerda revolucionária; e o militar, que hoje se expressa basicamente na autodefesa das massas, a proteção aos dirigentes da Organização e a prevenção das infiltrações”. A FPMR descarta utilizar os instrumentos institucionais, bem como inserir-se no sistema político.

Todavia, essa FPMR dirigida por Tapia e Gálvez não é a única Organização que agrupa os rodriguistas. As diversas cisões após o desmantelamento e dispersão da FPMR original deram origem a outros grupos nos quais os militantes reivindicam, também, a condição de rodriguistas: a “Identidad Rodriguista” (que integra a "Frente Unidos Venceremos” juntamente com o “Partido Alternativa Socialista”, o “Movimento Patriótico Manuel Rodríguez” (vinculado ao Partido Comunista Chileno), o Movimiento de Izquierda Revolucionária (MIR) e o Partido Comunista-Acción Proletária). Além de todas essas Organizações e Partidos, ainda existem outros frentistas que permanecem inorgânicos ou que estão integrados a iniciativas político-sociais mais amplas.

Nesse contexto, Galvarino Apablaza (“comandante Salvador”), um dos oficiais formados em Cuba, chefe da FPMR após a morte de Raul Pellegrin, tornou público o seu afastamento da Organização, criticando que tenha sido imposta à FPMR “uma mentalidade operativa que busca vencer e não convencer e onde a eficácia política está associada ao caráter operativo da ação e não à justeza do seu pensamento”.

Todavia, Leonardo Tapia assinala que não está preocupado com as diferenças e a dispersão do “universo rodriguista” pois, “no decorrer da luta, em algum momento, terão que convergir, não apenas os rodriguistas como também as demais forças revolucionárias, porque é a luta de classes que resolverá os problemas teóricos, as diferenças e as contradições que hoje nos mantêm separados”.

Carlos I. S. Azambuja é Historiador.

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