sexta-feira, 25 de julho de 2014

O que é a Esquerda, depois da queda (final)


Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Carlos I. S. Azambuja

A Revolução Bolchevique, na Rússia atrasada e medieval, contrariou - repetimos - as previsões de Marx que havia vaticinado que o advento do socialismo supunha o anterior desenvolvimento econômico e social do capitalismo, que seria superado pela apropriação coletiva, por todos os trabalhadores, dos frutos da produção da sociedade. 

Na Rússia, sob o nome de socialismo, os bolcheviques implantaram um sistema econômico improvisado na arruinada casca rural do antigo império czarista. Lenin, posteriormente, tentou justificar esse equívoco de Marx, ao definir a Rússia czarista como “o elo mais fraco da cadeia imperialista”.

Recorde-se que a Revolução Bolchevique não derrubou o regime czarista, caído em fevereiro de 1917, antes do final da I Guerra Mundial, mas sim o que o sucedeu, o chamado Governo Provisório, chefiado por Kerensky.

Stalin, que em 1924 tornou-se o sucessor de Lenin, privilegiou a igualdade em detrimento da liberdade e da fraternidade, socializando militarmente a agricultura, causando a morte de milhões de camponeses, impondo um regime brutal ao país e a seu próprio partido e constituindo um Estado ditatorial.

Logo a esquerda mundial, já dividida, colocou-se entre os que apoiavam as medidas de Stalin e os que se colocavam contra o caminho assumido pelo dirigente do partido da classe operária soviética. Os caminhos escolhidos pelo stalinismo expropriaram a burguesia - é verdade - mas colocaram no Poder, não os trabalhadores, mas uma burocracia que mais tarde viria a ser conhecida como a Nomenklatura, ou uma Nova Classe, segundo a expressão do dissidente iugoslavo Milovan Djilas.
Todavia, a Revolução Bolchevique, apesar de tudo isso, não deixou de ser um ponto de referência para a esquerda de todo o mundo, um marco para as lutas políticas internacionais.

Ao final da II Guerra Mundial foram definidas, pelo chamado Tratado de Yalta, as áreas de influência entre as duas maiores potências emergentes - a União Soviética e os EUA -, ficando a URSS com espaço livre para expandir sua influência ao Leste da Europa. Com isso, a Checoslováquia, Bulgária, Albânia, Polônia, Hungria, Iugoslávia, Alemanha Oriental e, mais tarde, a China, a Coréia do Norte e o Vietnã do Norte, se agregariam ao chamado campo socialista, constituindo regimes à imagem do modelo soviético: planejamento econômico centralizado, partido único, sistema político fechado, ausência de liberdade e forte presença da própria União Soviética dentro desses Estados.
Na Ásia, a China, a Coréia do Norte e o Vietnã instalaram regimes à semelhança do soviético em países ainda mais atrasados do que a Rússia de 1917, contrariando, mais uma vez, as previsões de Marx.

Tudo isso criou uma bipolaridade no mundo entre as áreas de influência dos EUA e da URSS, estreitando as alternativas para os demais países. Em Cuba, em 1959, com a vitória da guerrilha castrista, foi implantado no país um regime de partido único que impediu, e impede até hoje, a pluralidade política, a autonomia sindical e tolhe a liberdade. Um regime que hipotecou a liberdade das pessoas a um suposto bem-estar social. Esse regime, que também se intitula socialista, vige até hoje, embora já descaracterizado face à forçada opção pela economia de mercado, antagônica aos preceitos marxistas.

Em 1968, no auge da revolução cubana, com a chamada Revolução Cultural chinesa, com a resistência vietnamita ao poderio norte-americano, com as lutas pacifistas e por igualdade racial nos EUA, com os distúrbios que ficaram conhecidos como o Maio de 1968, no Quartier Latin, em Paris, e com o surgimento de movimentos guerrilheiros em toda a América Latina, o mundo parecia à beira de uma virada à esquerda, embora essas ações não contassem com a anuência da maioria, senão da totalidade dos partidos comunistas de linha ortodoxa, que pregavam métodos legais e institucionais de luta, com receio que os acontecimentos fugissem do seu controle.
A utopia de então baseava-se em lemas tais como “é proibido proibir”, “seja realista, peça o impossível”, e outros semelhantes.

A morte de Che Guevara, em outubro de 1967, na Bolívia, a derrota dos trotskistas e anarquistas do “maio francês”, a tomada do poder por regimes militares em diversos países da América Latina - Brasil, Uruguai, Argentina, Peru e Bolívia -, a derrota dos movimentos guerrilheiros em alguns países da região, a ruptura – ou pseudo-ruptura - entre a China e a União Soviética, prenunciaram o advento de tempos duros para a esquerda. Poucos anos depois, em setembro de 1973, era deposto no Chile o regime marxista de Salvador Allende, ficando Cuba e a Europa como única opção de refúgio aos grupos guerrilheiros latino-americanos e seus aliados.

Finalmente, ao final de década de 80, o desmoronamento do socialismo real nos países subjugados do Leste-Europeu, e o desaparecimento da própria União Soviética em dezembro de 1991, iriam marcar o fim de uma época histórica iniciada em 1917 com a Revolução Bolchevique. Tudo isso, no entanto, deixou uma montanha de mortos e uma monumental fatura, ainda impossível de calcular por inteiro, como estamos assistindo, com as dores do parto de umaNova Ordem Mundial e o advento do terrorismo como forma de luta, o nacionalismo extremado, o fundamentalismo, a imigração, os conflitos tribais, o contrabando de material nuclear e o crime organizado.

Segundo a análise do sociólogo e escritor marxista Emir Simão Sader, em seu livro “O Anjo Torto”, o comunismo já produziu no Brasil três gerações diferentes de movimentos de esquerda: os comunistas, os anarquistas e os socialistas do início do século representaram a primeira geração; a segunda foi a das organizações guerrilheiras de luta armada, nos anos 60 e 70, que elevaram o seqüestro de pessoas e de aviões, os assaltos a bancos e a estabelecimentos comerciais, à condição de tática militar; e a terceira é aquela que a partir da Anistia de 1979 se consolidou e representa a atualidade, embora ainda não refeita do choque que representou o desmonte do socialismo real e hoje submersa num mar de lama, sob o olhar passivo das “autoridades”, quase todas também submersas nesse mar de lama.

A tática utilizada pelas organizações guerrilheiras dos anos 60 e início dos 70, exportada por Cuba para toda a América Latina e alguns países da África, consistia em utilizar um pequeno grupo de revolucionários dispostos ao sacrifício: obtêm armas, montam um bom sistema de abastecimento, propaganda, sabotagem e recrutamento nas cidades, e transforma-se em um foco militar e político que catalisaria todas as rebeldias e iria crescendo de forma inexorável até transformar-se em um exército, ganhando a população, derrotando o inimigo e apoderando-se do Poder. Essa tática revelou-se uma utopia, onde quer que tenha sido posta em prática.

O esquema soviético de tomada do poder, por sua vez - que ainda persiste em algumas cabeças, apesar do fim do socialismo real -, sempre consistiu em ter um partido minoritário, porém seleto, ligado à classe operária e valendo-se de um jornal, greves, atividades parlamentares, declarações, comícios, manifestações, panfletagens, etc., ir ganhando, através de um paciente e tenaz trabalho de doutrinamento e infiltração, primeiro a classe operária e depois a maioria da população.

Num dado momento, reunidas as chamadas condições objetivas e subjetivas, a direção do partido, através de manifestações e palavras-de-ordem, greve geral e atividades clandestinas de destacamentos armados, daria o golpe final no regime, que cairia facilmente porque, necessariamente, se encontraria em seu mais alto grau de decomposição. Segundo uma famosa definição de Lenin, “seria o mesmo que dar um soco num aleijado”. Em nenhum lugar do mundo jamais essa tática obteve êxito.

A tática chinesa, de cerco das cidades pelos campos, através da instalação de uma guerrilha rural, tentada no Brasil através da chamada guerrilha do Araguaia, também se revelou inócua.

Mas, o que é a esquerda, hoje?

Denominações de partidos comunistas foram abandonadas. Antigos ídolos e referências, como Lênin, Stalin, Mao-Tsetung, os símbolos da foice e martelo, e conceitos considerados imutáveis, como a “inevitabilidade do socialismo” - que passou a ser encarado como “uma possibilidade” -, a tomada revolucionária do Estado e seu posterior fortalecimento como via de transição ao socialismo, a ditadura do proletariado, o partido único, a economia centralmente planificada, etc., foram relegados às calendas, em todo o mundo, pela quase totalidade daesquerda. Tudo isso agravado pelo esgotamento histórico e a crescente divisão da classe operária, em nome da qual o Poder seria tomado.

Apesar dos esforços daquela parte da esquerda onde há sinais de vida inteligente que busca uma nova utopia, uma “utopia viável” (expressão de Fernando Henrique Cardoso, no Estado de São Paulo de 27 de agosto de 1995), ainda não foram encontradas respostas para as questões deixadas pelo fim do socialismo. Alguns insistem na tese de que o que caiu não foi “o socialismo”, mas sim “o socialismo real”, uma deformação do “socialismo”, e defendem um retorno a Marx, ou seja, um retorno ao século XIX. 

Aliás, não é a primeira vez que a esquerda se volta para Marx. Na década de 50, quando os crimes de Stalin e “as realidades inaceitáveis da União Soviética” foram expostos por Kruschev, a volta a Marx “representou um esforço de auto-retificação da esquerda, bem como de reinserção na linha de frente da aventura intelectual” (Roberto Schwarz, autor de “Um Seminário de Marx”, Folha de São Paulo de 08 Out 95).

Todavia, pelo que se conhece dos escritos de Marx, Engels, Lenin e seus epígonos, não pode haver uma esquerda que defenda o livre mercado ou, como escreveu o deputado Roberto Freire,“um livre mercado com elementos públicos e privados”, sem deixar de ser esquerda. Ou pode?

Restará à esquerda defender o fim das desigualdades sociais. Mas isso é pouco, pois não há quem seja contra o fim das desigualdades sociais. Nem mesmo Hitler, na década de 30, com seu nacional-socialismo, quando assumiu o Poder, deixou de prometer isso.

A esse respeito, são muitas as semelhanças. O comunismo iria criar o homem-novo, e o nazismo, uma super-raça. Ambos com a pretensão de dominar o mundo. A Rússia transformou-se num grande soviete, uma República Socialista Soviética, enquanto o nacional-socialismo objetivava a criação de uma única, indivisível e total Volksgemeinschaft (Comunidade Popular). Ambos eram antiliberais e realizaram programas sociais para as massas. 

Todavia, é cedo ainda para analisar tudo o que realmente aconteceu no mundo do marxismo, desde quando, em 1848, foi publicado o Manifesto Comunista, e muito menos o que virá a acontecer agora após o seu desmoronamento. Em 1989, quando das festividades de comemoração dos 200 anos da Revolução Francesa, um filósofo chinês, em Paris, perguntado sobre como encarava aquela revolução, respondeu ser prematura qualquer análise, pois não havia ainda uma perspectiva histórica.

Dados Bibliográficos:
- “Direita e Esquerda; Razões e Significados de uma Distinção Política”, Norberto Bobbio, EDUNESP, 1995;

- “Política: Pra Que? Atuação Partidária no Brasil Contemporâneo”, Marcelo Ridenti editora Atual, 1993;

Carlos I. S. Azambuja é Historiador. 

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