terça-feira, 22 de julho de 2014

“Um novo banco para um novo desenvolvimento”


Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net 
Por Arthur Jorge Costa Pinto

A sigla BRIC foi criada em 2001 por um norte-americano, economista do Goldman Sachs - Jim O'Neill. Inicialmente, a sua proposta envolvia quatro países (Brasil, Rússia, Índia e China). Em abril de 2011, foi inserida a África do Sul, adicionando-se ao termo a letra S (South Africa). Em 2014, este acrônimo procura decolar, buscando um significado crível, com o propósito de se tornar respeitado pela comunidade financeira internacional.

Essas nações emergentes juntas representam aproximadamente 25% da economia mundial e, embora afastadas entre si, têm apresentado interesses aparentemente comuns, não só no comércio, como também por meio da reforma dos organismos multilaterais internacionais e pelo fim do ciclo de intervenções militares à revelia do direito internacional e das Nações Unidas.

No início, muitos pensavam que eles formavam mais um novo bloco econômico ou uma associação de comércio formal, o que não é verdadeiro. Depois de divulgados os primeiros entendimentos, ficaram logo nítidos para a comunidade econômica mundial que eles tinham fundamentos cronológicos e propósitos geopolíticos diferenciados, com intenções de operar juntos, praticando a essência de um bloco econômico e procurando transformar a conquista de um progressivo poder econômico numa ampla influência geopolítica.

Na realidade, até então, apareciam como uma espécie de aliança estratégica ou, talvez, um “clube político”, visando inicialmente se destacar no ambiente político, econômico e social global diante da defesa de interesses comuns. A partir de 2009, passaram a realizar encontros anuais e elaboraram pautas de discussões formais, conforme presenciamos neste último, que o Brasil acabou de sediar em 16.07 p.p.

No entanto, é imprescindível que esses atores façam acontecer, através de fatos e ações consistentes, para que seus projetos não caiam em descrédito e debilitem-se até mesmo no nascedouro. Tudo indica que a iniciativa de criação do banco de desenvolvimento do BRICS é uma ação aparentemente factível, talvez a mais importante desde a sua idealização e que tem por objetivo, financiar projetos de infraestrutura em países pobres e em desenvolvimento. É uma oportunidade de influenciar e comercializar em quatro continentes diferentes, promovendo grandes mudanças macroeconômicas.

Seus partícipes sempre se queixaram de não possuírem qualquer influência sobre organismos multilaterais como o FMI (Fundo Monetário Internacional), Banco Mundial e outros, pelo fato de serem estes, instrumentos da hegemonia americana, sempre encontrando neles obstáculos para acesso aos vastos recursos, em função de um modelo completamente ultrapassado que ainda adotam, uma das razões pelas quais estão criando este agente financeiro de desenvolvimento sem romper totalmente com eles.

Nosso País estará presente na capitalização, apoiado pelo Tesouro Nacional, que utilizará parte de suas reservas de aproximadamente US$ 380 bilhões, da mesma forma que faz para atender o BNDES, tendo como resultado o aumento da dívida.
Foi oficializado na VI Cúpula do BRICS pelas suas lideranças e na presença maciça do empresariado, o banco de desenvolvimento que será denominado “Novo Banco de Desenvolvimento” (NDB, em inglês) com US$ 50 bilhões (cotas iguais de US$ 10 bilhões) em caixa e a criação de um Fundo Emergencial de Reserva (CRA em inglês) de US$ 100 bilhões de dólares, sendo que US$ 41 bilhões são da China, o parceiro “primo rico” do grupo.

O Brasil, a Rússia e a Índia aportarão cada um, US$ 18 bilhões, ao passo que a África do Sul, mais frágil, participará com apenas US$ 5 bilhões. Dentro de um aspecto econômico, a China (41% dos recursos) é o membro que tem maior disponibilidade de recursos e já divulgou que tem interesse em ampliar sua participação, elevando, consequentemente, o seu poder de influência de fato, se não de direito.

Ficou estabelecido, ao final desta última Cúpula em Fortaleza, que o novo banco terá sua sede em Xangai, sua primeira presidência executiva ficará sob a responsabilidade da Índia (5 anos e rotativa), o conselho de governadores será liderado pela Rússia e, finalmente, a presidência do Conselho de Administração estará a cargo do Brasil, atuando somente nas grandes decisões e estando completamente ausente da gestão diária da instituição. Ainda não se sabe qual será o poder real de cada órgão.
Sendo assim, podemos dizer que a diplomacia brasileira, mais uma vez, foi fragorosamente derrotada, já que Dilma sonhou e articulou, sem êxito, um maior destaque para o Brasil nessa recém-criada instituição. Entretanto, isso não interfere nos bons propósitos apresentados, apesar de serem países com economias iminentemente distintas, em estágios completamente diferentes.


Muitas dúvidas estão pairando a partir de como será estruturada a grande governança que impõe o novo banco. As instituições financeiras multilaterais como FMI, Banco Mundial e BIRD (Banco Interamericano de Desenvolvimento) adotam, em comum, regras austeras, especialmente com relação à transparência, sendo que seus técnicos são altamente qualificados.

Pergunta-se: será que o banco BRICS irá implantar esses mesmos padrões inflexíveis na sua governança? Institucionalmente, para se conceber uma instituição financeira com estas fortes características, é necessário observar que as condições de alguns países que participarão desta nova instituição não são precisamente promissoras.
Ficou claro no encontro, que o banco de fomento e o fundo a ele atrelado ainda demorarão para entrar em operação, mas, se bem administrados, podem favorecer esses países no futuro, além de outros, já que pretendem disponibilizar recursos para os não membros participantes.

Além disso, com o crescimento do bloco, pode haver ajuda entre os parceiros em situações difíceis, a exemplo dos ataques especulativos, já que os emergentes ficam mais suscetíveis a isso.

Algumas críticas são feitas por analistas econômicos quanto à atuação dos BRICS, uma vez que ele é formado por um grupo de países que não apresentam uma identidade comum e não atuam em coordenação, pelo fato de terem interesses diferentes e até mesmo divergentes. Se houver dificuldades futuramente para fechar um acordo com relação ao funcionamento do banco, esta tese se fortalece.

Outra questão a ser considerada é que no grupo existem três potências nucleares (China, Rússia e Índia), que demonstram, atualmente, interesses mais conflitantes do que convergentes entre si. As mudanças de governos que acontecerão na Índia, na Rússia ou até na China, sem mencionarmos a grande possibilidade que teremos aqui no Brasil, dificultando os acordos políticos em andamento, que foram atraentes no momento de serem alinhados e podem, perfeitamente, deixar de ser interessantes no instante seguinte, acabam alimentando o grande temor de que eles se transformem em um veículo para a ampliação da influência chinesa e não venham a fomentar o desenvolvimento a que se propõem.

Alguns conceituados economistas brasileiros fizeram uma sutil comparação, de que a China tem uma poupança colossal e naturalmente tem condições de capitalizar uma instituição deste porte sem maiores consequências, enquanto que o Brasil é, ao contrário, uma economia que exibe no presente uma raquítica poupança, comprimindo suas contas públicas para sustentar com muito equilibrismo mágico o BNDES, nosso principal agente de desenvolvimento desde 1951.

No nosso caso, o BNDES já foi um agente de fomento respeitável, mas nos últimos anos, encontra-se blindado em função de ter aprovado uma série de operações polêmicas, que merecem uma respeitável auditoria nas suas contas. A China se notabiliza por ter um sistema financeiro com ausência de transparência e por ser dependente de um rígido sistema de Governo. A Rússia ainda está muito distante de ser uma referência de gestão pública e a Índia, pelo que se tem conhecimento, não apresenta similaridade com os bancos de desenvolvimento brasileiros e chineses.

Caso o banco de desenvolvimento dos BRICS seja impelido a adotar padrões semelhantes a outras instituições multilaterais já citadas, fica aqui uma reflexão para este momento: será que a nossa participação poderá se tornar algo supérfluo, uma vez que enfrentamos grandes dificuldades fiscais para financiar o nosso próprio banco de desenvolvimento que conta atualmente com US$ 334 bilhões em ativos, sendo ele sete vezes maior que o NDB (Novo Banco de Desenvolvimento)? Só o tempo nos dirá, pois acredito que ainda teremos muita água para passar por baixo desta ponte até o início de suas operações, previstas para 2016.

Arthur Jorge Costa Pinto é Administrador com MBA em Finanças pela UNIFACS (Universidade Salvador).

Um comentário:

Martim Berto Fuchs disse...

"... e que tem por objetivo, financiar projetos de infraestrutura em países pobres e em desenvolvimento."

Se os sucessivos governos brasileiros não tivessem dilapidado o dinheiro dos Impostos, teríamos mais do que o suficiente para promover nosso desenvolvimento auto-sustentado.
Isto ainda pode ser feito.

http://capitalismo-social.blogspot.com.br/2012/08/512-capsoc-fips-investimento-e_23.html