sexta-feira, 26 de setembro de 2014

Che Guevara e o PC Boliviano


Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Carlos I. S. Azambuja

Um artigo de David Gueiros Vieira, que relata o depoimento de um militante trotskista sobre a propalada traição a Che Guevara, na Bolívia, pelos trotskistas – Como Trotskistas Bolivianos traíram Che Guevara (Mídia sem Máscara, 28 de fevereiro de 2007) -, contraria a versão de que, historicamente, o autor da “traição” – ou melhor, da negativa em apoiar o kamarada Che, o que na época os grupos guerrilheiros da América Latina classificaram como "traição" - foi Mario Monge, Secretário-Geral do Partido Comunista Boliviano, que se opôs a dar a Che Guevara a chefia da revolução em seu país, em conversação mantida por ambos em 31/12/1966 – 01/01/1967 em Nancahuazú.

Em um longo documento (14 páginas datilografadas), Mario Monge escreveu que “Guevara pediu que eu me incorporasse à luta na qualidade de Chefe Político, embora me esclarecendo que ele, como Chefe Militar, seria a autoridade máxima. Respondi que minha incorporação dependia de três condições: 1. a realização de uma conferência de partidos comunistas e trabalhadores do continente para coordenar uma ação contra o imperialismo ianque; 2. formação de uma frente política ampla no país, incluindo o Partido Comunista Boliviano, que deveria organizar o comando revolucionário único; 3. o plano revolucionário para a Bolívia deveria estar em correspondência com a experiência e consciência das massas, e não centrar-se exclusivamente sobre o esquema guerrilheiro (...) e a chefia militar deveria estar subordinada ao Comando Político”. Ou seja, a ele, Monge.
Monge, Secretário-Geral do PC Boliviano, não aceitava a tese de implantação de um Foco Guerrilheiro, assim como, de resto, nenhum dos partidos comunistas subordinados a Moscou a aceitava.

Ora, os planos concebidos por Che Guevara chocavam-se frontalmente com esses três pontos. Che não os aceitou e não poderia ter aceito, pois exigiriam um período prolongado de preparação, um grande aparato revolucionário e uma espera indefinida para o início da luta. Como escreveu Regis Debray em Revolução na Revolução, livro que contém três teses fundamentais: 1. advertia que as revoluções na América Latina deveriam partir de um foco militar rural que, no momento adequado, daria à luz uma vanguarda política; 2. afirmava que quando se inverte a ordem dos fatores – criando primeiro a vanguarda política para, depois, gerar o foco – a organização política – o partido – converte-se em um fim em si mesma e adia, para um futuro distante, a eclosão da luta armada; 3. indicava o inimigo a ser destruído: o imperialismo ianque e seus capatazes locais.

Isso tudo foi agravado com o fato de Che ter entrado na Bolívia por sua própria conta e o PC Boliviano só soube de sua presença em fins de dezembro de 1966, e somente a partir daí tomou conhecimento de seus planos de montar um Foco Guerrilheiro no país, que se expandisse depois a outros países. Isso significa que Che não tinha confiança no aparato do PC Boliviano. Essa, aliás, era uma das três regras de ouro do guerrilheiro, como escreveu Debray: desconfiança constante. Desconfiança de quem? Das massas, segundo ele.

Nessas conversações ficaram claras duas concepções antagônicas: a de Che, de que a guerrilha independe do Partido; e a de Monge, de que a guerrilha e a luta armada devem ficar subordinadas ao Partido, alegando que “o problema da revolução é fundamentalmente político e que, em nenhum caso, a política pode ficar subordinada ao critério militar (...) pois as revoluções surgem de condições históricas e não de simples desejo dos homens. Estes, podem contribuir para o seu amadurecimento, para acelerar sua realização. Mas não podem fixar-lhe ou assinalar-lhe prazos. As revoluções surgem de condições históricas concretas e não de simples desejo dos homens”, escreveu Monge.

Mario Monge, Secretário-Geral de um partido comunista servo de Moscou, não admitia que setores radicalizados da pequena burguesia urbana, que priorizavam a violência armada, as ações imediatas, que supostamente serviriam de motor da revolução, negassem, com essa prática, o histórico papel do proletariado, doutrinariamente reivindicado pela ortodoxia dos partidos comunistas fiéis a Moscou.

Para Monge, era inconcebível que o trabalho político que, segundo a ortodoxia comunista, precede as ações armadas, fosse desprezado, eludindo a máxima de Lênin de que sem teoria revolucionária não há prática revolucionária. Escreveu que o PC boliviano não estava na obrigação de cancelar sua linha política, definida em Congresso, e somar-se à luta guerrilheira, que só foi tornada pública mediante a divulgação de um documento publicado em 30 de março de 1967.

Durante todos estes anos que decorreram da morte de Che Guevara, nunca soube de nenhum documento ou ouvi falar que “os trotskistas” bolivianos tivessem traído Che Guevara. Se alguém o fez foi, seguramente, algum militante do PC Boliviano, pois Mario Monge, apesar das discordâncias com Che Guevara, não proibiu que militantes do partido – que, aliás, já estavam em contato com ele, Che, desde a sua entrada clandestina na Bolívia – o auxiliassem e participassem na louca empreitada.
Acredito que este texto responde à pergunta constante no primeiro parágrafo do artigo de David Gueiros Vieira sobre “o fato inexplicável de os revolucionários bolivianos não terem dado apoio ao revolucionário argentino, companheiro de Fidel Castro na Sierra Maestra. Qual teria sido a razão dessa falta de apoio?”.

Carlos I. S. Azambuja é Historiador.

Um comentário:

Anônimo disse...

A inexistencia de documentação aoenas corrobora com a vertente que defende que Che foi ignorado pelo PC boliviano. O cabresto imposto pelo PC sovietico impedia que ações revolucionárias ocorresem a sua revelia