domingo, 21 de setembro de 2014

Jabuticaba no Senado


Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Ana Maria Machado

Não faz muito tempo, você comprou uma torradeira e, em casa, não conseguiu ligá-la. A legislação agora exige três pitocos nos plugues dos novos aparelhos, que não servem mais nos dois buracos da tomada de sempre. Foi preciso comprar um adaptador. Uma chatice, mas mais seguro. Progresso tecnológico. É para o bem de todos, o governo sabe o que faz. Mesmo quando o novo padrão é tão original quanto jabuticaba, que só tem no Brasil. Não serve para qualquer aparelho importado que por acaso você tivesse. E tome adaptador. Você acabou chamando um eletricista e trocando todas as tomadas da parede. Ufa!

Pois aí vem nova surpresa. Você nem imagina o que o Senado anda debatendo a sério, considerando a hipótese de mudar geral. Sem ao menos reparar no ridículo da esquisitice. Se for aprovado, vira lei. Só que, desta vez, não vai haver eletricista que dê jeito. Discute-se uma reforma ortográfica brasileira. Brasileiríssima, que nem jabuticaba. Ainda que sem as delícias da fruta.

“Mas não fizeram uma reforma ainda outro dia? Para que outra?”, talvez você pergunte. Vamos esclarecer. O que se fez há pouco tempo (aliás, num processo que ainda não se encerrou) foi um acordo ortográfico entre países de língua portuguesa. Não uma reforma. O objetivo foi que se escreva da mesma maneira o português falado em qualquer parte do mundo. Assim, passa-se a ter um padrão unificado em documentos internacionais que se queira redigir no idioma. E os leitores de todos os países lusófonos passam a se acostumar com a grafia única, que nos permitirá ler livros uns dos outros com menos estranheza (já bastam as do próprio vocabulário, por vezes tão diferente).

Precedido por outros acordos e protocolos em busca desse entendimento, o processo foi amplamente discutido durante 18 anos, em negociações entre filólogos e instituições responsáveis. Venceu impasses e divergências de todo tipo. Foi aprovado pelo legislativo dos países interessados. Foi assinado e promulgado pelos presidentes do Brasil e de Portugal em 2008. Entrou em vigor em janeiro de 2009, com prazo de adaptação estendido no Brasil até dezembro de 2012. Em Portugal, até 2016.

Sabe-se lá por que (ou por quem), na semana antes de terminar nosso prazo oficial, entre o Natal e o Ano Novo de 2012, a presidente Dilma resolveu prorrogá-lo. Não chegou a fazer nenhuma diferença prática. No Brasil, como já estávamos fazendo, continuamos todos usando a ortografia que segue o acordo — é como se escreve neste jornal e nos livros publicados no país e como se ensina nas escolas. Todo mundo entende. A experiência poderá, eventualmente, revelar a necessidade de pequenos ajustes. Mas não é disso que se trata agora.

A jabuticaba que está na Comissão de Educação, Cultura e Esporte do Senado é outra. É uma proposta de reforma ortográfica, para que se passe a escrever como se fala, “para simplificar e aperfeiçoar a ortografia”, de modo a facilitar a alfabetização. Sem letras que não se pronunciam e sem duplicidade de grafia para o mesmo som. A justificativa populista é ajudar as crianças, ensinando-as a escrever, por exemplo, “O omen xora porqe qer caza para abitar” (sic).

Nem vale discutir os detalhes dessa ideia estapafúrdia. Questiona-se é a premissa, em nome de uma pretensa inclusão social.

Nada disso é necessário. O linguista Marcos Bagno lembra que as línguas mais faladas e escritas internacionalmente (como o inglês e o francês) têm ortografias complicadas e nem por isso deixaram de se difundir. Não precisaram de jabuticabas simplificadoras. Será que as crianças deles são mais capazes que as nossas?

O filólogo e acadêmico Evanildo Bechara insta a CE do Senado a não levar adiante a proposta de “simplificação”, um equívoco talvez baseado em “amnésia ou ignorância”. A professora Marília Ferreira, presidente da Associação Brasileira de Linguística, encaminhou aos senadores documento em que sublinha que o que dificulta o processo de alfabetização de crianças oriundas de segmentos sociais de pouca familiaridade e contato com a língua escrita não é a ortografia. É a falta de uma experiência letradora significativa anterior e paralela ao processo escolar.

Há casos em que essa vivência falta também a muitos professores, lembro eu. Sinal de melhora: gente vinda de um ambiente iletrado está chegando à alfabetização nas últimas décadas. Algo a se celebrar. Mas também sinal de alerta: a formação de nossos professores precisa ser de melhor nível, capaz de incorporar alternativas pedagógicas mais eficientes, de corrigir eventual falta de intimidade com a cultura escrita e de compensar desigualdades de origem. Precisa capacitá-los a alfabetizar.
Tomara que o Senado consiga perceber isso. Mais clareza nas prioridades, gente. O remédio é qualidade na educação. Não é jabuticaba.


Ana Maria Machado é Escritora. Originalmente publicado em o Globo em 20 de setembro de 2014.

Um comentário:

Anônimo disse...

Está na biografia de Ana Maria Machado:"...já tinha começado a ditadura, e ela resistia participando de reuniões e manifestações. No final do ano de 1969, depois de ser presa e ter diversos amigos também detidos, Ana deixou o Brasil e partiu para o exílio. A situação política se mostrou insustentável.
Na bagagem para a Europa, levava cópias de algumas histórias infantis que estava escrevendo, a convite da revista Recreio. Lutando para sobreviver com seu filho Rodrigo ainda pequeno, trabalhou como jornalista na revista Elle em Paris e na BBC de Londres, além de se tornar professora na Sorbonne. Nesse período, ela consegue participar de um seleto grupo de estudantes cujo mestre era Roland Barthes, e termina sua tese de doutorado em Linguística e Semiologia sob a sua orientação. A tese resultou no livro "Recado do Nome", que trata da obra de Guimarães Rosa. Mesmo ocupada, Ana não parou de escrever as histórias infantis que vendia para a Editora Abril."
Essa jabuticaba, dona Ana Maria, frutifica na cabeça de gente que a senhora, no passado, ajudou, e hoje, como um câncer estremamente agressivo, está matando o país. Muitas outras jabuticabas virão, seja no governa da terrorista que no passado a senhora deve ter apoiado, seja no governa da santinha do pau oco Marina Silva, hoje sedizente ex comunista, ex cutista, ex católica... Seria interessante ver a senhora escrevendo um livro infantil para essas pobres crianças, "jabuticabês". Não sei porque a senhora está estranhando, já tivemos um presidente analfabeto e cachaceiro, agora temos uma presidente que fala "dilmês" e cujos únicos dois neurônios vvivem brigando um com o outro sem jamais se entenderem. Temos Academia Brasileira de Letras que elegem como imortais dois dos mais medíocres escritores que o país produziu: Paulo Coelho e José Sarney. Dizem que lá, as reuniões ocorrem apenas uma vez por mês, e que "dindim" mensal é de 15.000 reais. Como vê, ser agitador, comunista, esquerdopata, no passado, como disse o nosso filósofo, nosso sábio, Millôr Fernandes, no seus caso foi um grande investimento. Trabalhou no JB, para a Abril, e agora, escreve no "Grobo", tudo que um esquerdista do passado jamais admitiria. Ah... não se esqueça, pode estar vindo por aí o controle da mídia, e quem sabe o controle de ideias, de opiniões, e a senhora terá que escrever aquilo que eles quiserem, DO JEITO QUE ELES QUISEREM, tudo do jeitinho que seu colega do passado, o grande jornalista Franklin Martins determinar.
Mauro Moreira