domingo, 21 de setembro de 2014

Os ganhos na Bolsa se relacionam com pesquisas eleitorais

Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Arthur Jorge Costa Pinto

A Bovespa (Bolsa de Valores de São Paulo) tem apresentado, nos últimos meses, um desempenho significativo que nos faz recordar o inesquecível ano de 2009, quando o mercado de ações resgatou boa parte das perdas verificadas em 2008 (alta superior a 80%) depois de deflagrada a crise subprime nos EUA. Se analisarmos, em meados de março do corrente ano, o Ibovespa (Índice Bovespa) apresentou sua mínima no ano, 45.000 pontos, até sexta-feira (19.09), quando encerrou o pregão com 57.800 pontos, alta de 28,5%. Durante este ano, sua valorização até o momento encontra-se próxima de 25%.


Ao final de 2014, a sua valorização ou desvalorização poderá surpreender os investidores, dependendo exclusivamente dos resultados das eleições presidenciais que serão realizadas em dois turnos.

O mercado financeiro revela certa euforia dos investidores, o que tem muito a ver com o desenrolar da campanha eleitoral e os resultados apresentados pelas pesquisas de intenção de voto à Presidência da República. A relação mútua entre as pesquisas eleitorais favoráveis à oposição, inicialmente, com Aécio Neves e atualmente com Marina Silva, tem como principal consequência o avanço considerável da Bovespa.

Em função das pesquisas eleitorais estarem conduzindo o bom humor dos investidores do mercado de ações, os segmentos das estatais e bancos têm demonstrado mais sensibilidade às novidades relacionadas às intenções de voto, com relevantes altas nos períodos de declínio apresentados por Dilma. O sentimento aflorado do mercado é que uma troca de governo melhore substancialmente a situação dessas empresas, que foram frontalmente penalizadas pela gestão excessivamente intervencionista praticada pelo atual desgoverno em importantes setores da nossa economia.

As ações das estatais como Petrobras e Eletrobras subiram com determinação, mesmo com seus fundamentos deteriorados, mas amparadas na crescente possibilidade de troca de governo e, apostando também, em um cenário macroeconômico mais favorável.

Os preços das ações preferenciais da Petrobras já chegaram a dobrar, conjuntamente com a Eletrobras, apresentam um endividamento perigosíssimo e uma perda de valor de mercado astronômico, devido ao potencial rombo nas suas contas, provocado pela incompetência dos seus dirigentes. A esperança está sempre presente pelas grandes possibilidades de uma radical mudança no modelo de gestão da petrolífera e da elétrica. É prudente que o investidor realize parcialmente esses ganhos e analise novas opções de investimentos, em função de no momento, já não existir mais espaço para avanços nas suas cotações.


Os principais indicadores da economia brasileira continuam se fragilizando, principalmente o PIB (Produto Interno Bruto), que desacelera gradualmente, devendo situar-se ao final de 2014 bem próximo a zero, enquanto que a Bovespa vem apresentando ganhos seguidos, intercalados por momentos voláteis, especialmente em função da realização de lucros obtidos com valorização no curto prazo. Não resta dúvida que é o efeito Marina, até então, com reais possibilidades de uma provável vitória sua no segundo turno.

O ambiente na Bolsa de Valores exala otimismo nesses últimos meses, sendo guiado no curto prazo por comportamento de massas, notícias, rumores, articulações etc. A complexidade é grande e por isso requer muita cautela, afinal de contas, os fundamentos da nossa economia não entusiasmam os brasileiros nem tão pouco os estrangeiros.

Nada mudou estruturalmente no Brasil ou nas empresas. Consequentemente, é o panorama eleitoral que continua com o boato e o fato pressionando as altas crescentes. Em função disso, os investidores devem ter uma atenção redobrada para manter os ganhos auferidos até o momento. Já está precificada pelo mercado a vantagem que a oposição conquistou para sua participação no segundo turno, por isso, o crescimento do Ibovespa não deverá manter-se neste ritmo contagiante.

Compromisso importante da candidata socialista em sua eventual vitória está relacionado à formação da sua equipe econômica. O perfil dos profissionais que construíram e coordenam o programa econômico para seu hipotético governo apresenta acentuada similaridade com o do candidato tucano e eles transparecem ter elevado o comprometimento com o mercado financeiro em adotar políticas mais “market friendly”, ou seja, pró-mercado, passando ampla credibilidade para os decepcionados agentes financeiros.

De acordo com os analistas econômicos são grandes as apostas na vitória da oposição. Caso se confirme, eles têm certeza de que deverá haver ajustes significativos na condução da política econômica, com a queda da inflação e a realização de reformas que propiciarão crescimento sustentável à Nação e maior lucro para as estatais, sendo elas, atualmente, o instrumento para contenção dos preços para moderar a inflação.

O tripé econômico (responsabilidade fiscal, meta de inflação e câmbio flutuante) implantado no governo de FHC e utilizado em boa parte pelo governo Lula, foi substituído irresponsavelmente pela aventura desastrosa da “nova matriz econômica” da economista Dilma. Com a oposição no poder, espera-se o seu retorno imediato para ser, mais uma vez, o arquétipo consistente para um desejável equilíbrio macroeconômico.

Seja quem for o vencedor, o ano de 2015 será muito difícil na nossa esfera econômica. É imprescindível o corte nos gastos do governo, a SELIC (taxa básica de juros) deverá se elevar, os preços administrados, hoje reprimidos, deverão ser reajustados e a inflação vai ter que se direcionar para o centro da meta de 4,5% a.a. O PIB do país, segundo a expectativa do mercado financeiro, crescerá apenas 1,2% neste exercício.

Os principais candidatos que despontam nas pesquisas reconhecem que é inevitável ajustar os rumos da nossa economia, inclusive Dilma contribuiu um pouco para o avanço da Bolsa. Mesmo com o próximo ano complicado, há um horizonte favorável para 2016 e 2017. Todavia, para que isso se concretize, o dever de casa necessita ser bem executado, pois não se pode mais protelar as medidas necessárias que se encontram relegadas pela atual mandatária.

Admitindo-se uma vitória de Marina ou Aécio, a previsão do mercado para o câmbio é que ele chegue ao final de 2015 no patamar de R$ 2,10. Porém com a continuidade de Dilma no Planalto a situação muda, com o dólar mais elevado em torno de R$ 2,45. Com relação à inflação, também há diferenças projetadas - com a oposição, 5,85% e com a situação, 6,1%.


Dilma já emitiu nítidos sinais de que vai mexer na política econômica e na sua equipe caso venha a conseguir a sua reeleição. Entretanto, a sua imagem encontra-se dilacerada com a perda da sua credibilidade junto aos mercados financeiros globais e à comunidade empresarial brasileira.

Em função das eleições presidenciais, as últimas movimentações realizadas na economia internacional não se fazem presentes no atual debate central, porém muita coisa interessante está acontecendo no âmbito mundial. Os EUA continuam transmitindo sinais positivos da sua recuperação que, sem dúvida, é excelente, mas é indispensável lembrar que isso fortalece a necessidade de uma alta nos juros americanos, esperados para o final do primeiro semestre de 2015, o que torna o Brasil e os países em desenvolvimento menos atrativos, portanto, vulneráveis.

A Europa apresenta poucas novidades, já que sua economia avança vagarosamente. A inflação encontra-se abaixo das metas estipuladas, o que prova o baixo dinamismo da região.

Independente das preferências políticas, na visão do mercado, o candidato Aécio Neves apresenta maior austeridade. Dilma Rousseff representa a continuidade da política intervencionista populista, resultando em mais quatro anos de plena estagnação econômica. Marina Silva aumenta a possibilidade de uma gestão macroeconômica bem mais crível que a atual.

Mas, quem imaginaria! Há uma conexão muito forte vinculando o mercado financeiro à política. Só nos resta agora aguardar as decisões das urnas que virão brevemente, apresentando uma disputa acirrada até o seu final – “O Brasil não está andando, também não vai desandar”.


Arthur Jorge Costa Pinto é Administrador, com MBA em Finanças pela UNIFACS (Universidade Salvador).

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