terça-feira, 14 de outubro de 2014

China e índia num mundo cada vez mais plano – Final


Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Carlos I. S. Azambuja

Não há maior força de achatamento e nivelamento por que passa o mundo que a ideia de que todo o conhecimento, ou pelo menos uma grande parte dele, está disponível para todos e qualquer um, a qualquer momento, em qualquer lugar, uma vez que buscar algo por conta própria é um ato tão pessoal que não há nada que confira maior autonomia ao ser humano. É a antítese de nos dizerem ou ensinarem alguma coisa. É uma questão de obtenção de poder por cada indivíduo, o poder de cada um fazer das informações desejadas aquilo que lhe parecer melhor.

A utilização dos mecanismos de busca é a expressão máxima do poder do indivíduo que, usando um computador, olha para o mundo e encontra exatamente o que quer. Nesse sentido, não há duas pessoas iguais. Na história oficial do Google, encontrada em sua página inicial, é explicado que seu nome vem de um trocadilho com a palavra “googol”, o número representado pelo dígito 1 seguido de cem zeros. A escolha dessa nomenclatura refere-se à missão da empresa de organizar o imenso - aparentemente infinito - volume de informações disponível na web só para você.

Por sua vez, a India, durante as próximas décadas, terá em seu favor uma população mais jovem enquanto a China verá diminuída a sua população com idade produtiva e o país enfrentará problemas sociais e econômicos ocasionados por uma crescente dependência da população de terceira idade.

Um outro termo de comparação: enquanto a China supera a Índia em infraestrutura física, ainfraestrutura social – leis, instituições e mercados financeiros – da Índia é muito superior. O labirinto do sistema legal da Índia é muito lento, porém garante o cumprimento mais efetivo dos contratos e uma maior proteção dos direitos de propriedade intelectual. Embora o sistema educativo chinês seja melhor nos níveis básicos, nas escolas da Índia os graduados são melhores no pensamento criativo e analítico, uma vantagem enorme se é levado em conta que promover a inovação a baixo custo é um problema primordial para ambos os países.

Finalmente, o sistema democrático da Índia, embora às vezes complicado e ineficaz, é muito menos vulnerável a uma crise de grande escala e apresenta riscos menores do que o obtuso e vertical regime chinês.

O Economist Intelligence Unit (EIU) prognostica que entre os anos 2006 e 2030 o PIB real da Índia crescerá ligeiramente mais rápido do que o da China. Entretanto, a população da Índia crescerá mais rapidamente que a da China. Todavia, em 2030 a Índia se atrasará ligeiramente em termos de PIB per capita. Para 2030, o PIB da Índia – medido por sua paridade de poder aquisitivo (PPA) – será ainda menos da metade do da China.

A reforma fiscal e o investimento governamental em infraestrutura e educação são particularmente importantes. O atual papel protagonista da China poderia ser interpretado como resultado de exitosas iniciativas políticas nessas áreas. A China tem também uma taxa de investimento doméstico muito mais alta, já que investe 40% do seu PIB, enquanto a Índia só investe 25%. Considerando que o PIB da China é três vezes maior, o seu investimento doméstico excede o PIB total da Índia. Essas disparidades explicam a superioridade das estatísticas comerciais da China.

A enorme discrepância em investimento estrangeiro direto (IED) em favor da China deve-se às diferentes políticas fiscais e reguladoras. Os excessivos regulamentos sufocam o investimento estrangeiro em muitos setores da economia da Índia. Os investidores estrangeiros se queixam de que muitas vezes o fundamento das decisões é arbitrário e têm que obter um grande número de permissões oficiais de inumeráveis agências. Não obstante, as reformas impulsionadas pelo governo parecem estar ganhando massa crítica e existe um impulso para a realização de reformas adicionais na medida em que cresce o poder político do setor privado.

A educação é outro motor do crescimento que depende da política interna. Paradoxalmente, a Índia combina universidades tecnológicas de qualidade mundial com percentagens de analfabetismo entre 25% e 60% no meio rural, segundo a Consultoria Asian Demographics.

Ao contrário, a China enfrenta severa escassez de engenheiros em Informática, todavia seu gasto educacional por aluno é mais alto que o da Índia e terminou virtualmente com o analfabetismo.

Concluindo, embora a Índia e a China enfrentem riscos comuns, são também vulneráveis a diversos riscos em áreas diferentes. De acordo com o EIU, alguns dos tipos mais extremos de riscos em cada país são comuns aos dois países: efetividades governamentais, comércio exterior e pagamentos, e mercado de trabalho. Porém, nos últimos tempos, a China tem ficado exposta a um maior risco de instabilidade política, enquanto os riscos mais importantes da Índia estão associados com a política fiscal. Isso capta com precisão as implicações das diferentes políticas entre os dois países.

Na China, malgrado o risco de instabilidade política, há pouca possibilidade de caos político, o que seria catastrófico porque o país não possui mecanismos institucionais para transferência do poder. Na Índia existe turbulência política, mas as instituições legais e o sistema político democrático correm menos riscos.

Índia e China, como se verifica, têm seus próprios riscos e recompensas. Embora o ritmo de mudanças de cada país dependa muito de sua política interna, ambos se converterão em uma plataforma de produção e serviços, assim como em um considerável mercado final.

Da mesma forma que os analistas se referem ao Século XX como “o Século norte-americano”, o Século XXI poderá ser visto como a vez da Ásia – com sua expansão liderada pela Índia e pela China, graças à combinação de alto crescimento econômico, maiores capacidades militares e grandes populações, receita do rápido crescimento do poder político e econômico desses dois países.

O livro Relatório da CIA – Como será o Mundo em 2020, editora Ediouro, especula que o PIB da China, por volta de 2020, será maior do que o de qualquer potência econômica ocidental, exceto o dos EUA. E o PIB da Índia terá superado – ou estará superando – o das economias européias.

A não ser por uma abrupta reversão no processo de globalização ou por um grande problema nesses países, a emergência dessas novas potências é uma certeza. Todavia, a forma como a China e a Índia exercerão seu poder e a maneira como irão se relacionar com as demais potências no sistema internacional, são uma incógnita. “No futuro” – ainda segundo o Relatório da CIA – Como será o Mundo em 2020 -, “alguns países hoje pertencentes ao chamado Primeiro Mundo poderão encarar o crescimento da China e da Índia como uma evidência de seu relativo declínio, apesar de as atuais potências mundiais tenderem a continuar como líderes globais nos próximos 15 anos”.

Imaginem se China e Índia se tornarem sócios e não rivais?

Fonte: India y China, Rivales o Sócios? Autor: Economist Intelligence Unit/The Economist, jornalLa Jornada, México, 15 de agosto de 2006.


Carlos I. S. Azambuja é Historiador.

Nenhum comentário: