terça-feira, 21 de outubro de 2014

Com a Globalização, o mundo ficou plano – Parte 1


“Todos querem crescimento econômico, mas ninguém deseja mudanças” (Paul Romer, economista)

Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Carlos I. S. Azambuja

Quando, daqui a vinte anos, os historiadores se debruçarem sobre a história do mundo e chegarem ao capítulo “ano 2000 a março de 2004”, que fatos destacarão como os mais importantes? Os ataques ao World Trade Center e ao Pentágono em 11 de setembro de 2001 e a Guerra do Iraque? Ou a convergência de tecnologia e determinados acontecimentos que permitiram à Índia, China e tantos outros países ingressarem na cadeia global de fornecimento de serviços e produtos, deflagrando uma explosão de riqueza nas classes médias dos dois maiores países do mundo, e convertendo-os, assim, em grandes interessados no sucesso da globalização? Será que, em decorrência desse “achatamento” do globo, que faz com que tenhamos de correr mais para continuarmos no mesmo lugar, o mundo ficou pequeno e rápido demais para os seres humanos e seus sistemas políticos se adaptarem de maneira estável?

Segundo Thomas Friedman, autor do best-seller “O Mundo é Plano”, a globalização atravessou três grandes eras. A primeira delas se estendeu de 1492 – quando Cristóvão Colombo embarcou, inaugurando o comércio entre o Velho e o Novo Mundo – até por volta de 1800. Essa etapa poderia ser denominada de Etapa de Globalização 1.0, que reduziu o tamanho do mundo de grande para médio e envolveu basicamente países e esforços individuais. Isto é, o principal agente da mudança, a força dinâmica por trás do processo de integração global, era a potência muscular (a quantidade de força física, a quantidade de cavalos-vapor, a quantidade de ventos) que o país possuía e a criatividade com que a empregava.

A segunda grande era, a Globalização 2.0, durou mais ou menos de 1800 a 2000, e diminuiu o mundo do tamanho médio para o pequeno. O principal agente da mudança, a força dinâmica que moveu a integração global, foram as empresas multinacionais que se expandiram em busca de mercados e mão-de-obra. Na primeira metade dessa era, a integração global foi alimentada pela queda dos custos de transporte (graças ao motor a vapor e às ferrovias e, na segunda, pela queda dos custos de comunicação em decorrência da difusão do telégrafo, da telefonia, dos PCs, dos satélites, dos cabos de fibra ótica e da Wolrd Wide Web em sua versão inicial. 

Foi nesse período que assistimos de fato ao nascimento e à maturação de uma economia global propriamente dita, no sentido de que havia uma movimentação de bens e informações entre os continentes em volume suficiente para a constituição de um mercado de fato global. As forças dinâmicas por trás dessa etapa da globalização foram as inovações de hardware (dos barcos a vapor e ferrovias, no princípio, aos telefones e mainframes, mais para o final).

Nesse período ruíram muros em todo o mundo e a integração – e a resistência a ela – atingiu um nível sem precedentes. Por mais muros que fossem derrubados, todavia, continuavam havendo inúmeras barreiras a uma integração global homogênea. Basta pensar que quando Bill Clinton foi eleito presidente dos EUA, em 1992, praticamente ninguém que não pertencesse ao governo ou ao meio acadêmico tinha e-mail. E seis anos depois, em 1998, o comércio eletrônico ainda estava engatinhando.

Por volta do ano 2000 o mundo entrou em uma nova era: a Globalização 3.0, que está não apenas encolhendo o tamanho do mundo de pequeno para minúsculo, como também, ao mesmo tempo, aplainando o terreno. Enquanto a força dinâmica da Globalização 1.0 foi o maior intercâmbio entre os países e na Globalização 2.0, o das empresas, naGlobalização 3.0 a força dinâmica vigente – aquilo que lhe confere caráter único – é a recente descoberta da capacidade dos indivíduos de colaborarem e concorrerem no âmbito mundial, e a alavanca que vem permitindo que indivíduos e grupos se globalizem com tamanha facilidade e de maneira tão uniforme é, não o cavalo-vapor nem ohardware, mas o software (novos aplicativos de todos os gêneros), conjugado à criação de uma rede de fibra ótica em escala planetária que nos converteu, a todos, em vizinhos de porta.

Entretanto, a Globalização 3.0 não difere das eras anteriores apenas em termos de o quanto vem encolhendo e achatando o mundo e do poder com que está munindo o indivíduo. A diferença reside também no fato de que as duas primeiras etapas foram encabeçadas basicamente por europeus e americanos, pessoas e empresas. A tendência, todavia, é que esse fenômeno se inverta: em virtude do achatamento e do encolhimento do mundo. Esta fase 3.0 será cada vez mais movida não só por indivíduos, mas também por um grupo muito mais diversificado de não-ocidentais e não-brancos. Pessoas de todos os cantos do mundo estão adquirindo poder; a Globalização 3.0 possibilita a um número cada vez maior de pessoas se conectarem num piscar de olhos, com todas as facetas da diversidade humana entrando na roda.

Os saltos de produtividade serão colossais para os países, empresas e indivíduos capazes de absorver as novas ferramentas tecnológicas. Está sendo inaugurada uma fase em que todos, mais do que nunca antes na história mundial, terão acesso a essas ferramentas – como inovadores, como colaboradores e, infelizmente, até como terroristas. A verdadeira revolução da informação está prestes a começar: a nova etapa da Globalização 3.0, o que faz com que a Terra deixe de ser redonda e se achate. Para onde quer que olhemos, vemos hierarquias sendo desafiadas de baixo para cima, deixando de ser estruturas verticais e se horizontalizando.

Globalização é um termo que foi criado na administração de Bill Clinton para descrever as relações entre governos e grandes empresas. Mas o que está acontecendo hoje é um fenômeno muito mais amplo e profundo. Determinados empregos agora se dão no ciberespaço, profissionais agora colaboram com outros nos confins do planeta, produtos são gerados ao mesmo tempo em diversos lugares. Nesse caso, quem regula o trabalho? Quem o tributa? E quem deve se beneficiar desses impostos?

O achatamento do mundo entrará para a História como uma daquelas transformações cruciais, como a ascensão do Estado-Nação ou a Revolução Industrial. Todas as vezes em que a civilização enfrentou uma dessas revoluções tecnológicas – como a introdução da imprensa de Gutenberg, por exemplo – o mundo sofreu profundas modificações. Há, porém, uma diferença qualitativa entre essas transformações anteriores e o atual achatamento do mundo: a rapidez e a amplitude com que este se dá. A introdução da imprensa levou décadas para se consolidar e o mesmo pode ser dito da Revolução Industrial. Todavia, o processo de achatamento está acontecendo à velocidade da luz e atinge, direta ou indiretamente, muito mais gente em todo o globo. Quanto mais rápida for a transição para uma nova era, mais dolorosas serão as rupturas causadas pela transferência de poder dos antigos vencedores para os novos.

A experiência das empresas de alta tecnologia que, nas últimas décadas, não conseguiram acompanhar a frenética sucessão de transformações provocadas no seu mercado por esse tipo de forças, deve servir de alerta para todas as empresas, instituições e Estados-Nação em que faltem lideranças, flexibilidade e imaginação para se adaptarem, por estarem sendo sobrepujadas pela velocidade dessas transformações.

O grande desafio do nosso tempo será absorver tais mudanças de forma a não atropelar as pessoas e nem deixá-las para trás. Será uma missão inevitável e inescapável, mas nada fácil.

No que isso tudo vai dar? Por exemplo: na próxima etapa do fluxo de trabalho baseado em serviços da web, para você marcar uma hora no dentista vai dar um comando de voz para que o seu computador o faça em seu lugar. O computador, então, automaticamente, vai converter a voz numa instrução digital, comparar a sua agenda com as datas disponíveis na do dentista e oferecer-lhe três opções, e você clica na data e hora mais convenientes. Uma semana antes da data escolhida, a agenda do dentista vai enviar um e-mail automático para lembrá-lo da consulta e, na noite anterior, você receberá, na caixa postal do seu celular, uma mensagem de voz gerada por computador, também para lembrá-lo do compromisso.

Uma grande fabricante americana de automóveis descobriu, há pouco tempo, que empresas chinesas estavam usando as novas tecnologias de escaneamento para, em tempo recorde, digitalizar carros inteiros, criar modelos de cada peça no computador e fornecê-los para robôs industriais capazes de, também em tempo recorde, produzirem cópia perfeita de um automóvel da GM, sem gastar um centavo em P&D. Jamais ocorreu à indústria automobilística americana que ela teria de se preocupar com a possibilidade de clonagem dos seus produtos. Mas, no mundo plano e com as atuais tecnologias, a realidade é outra.

Seguramente, isso não estaria ocorrendo apenas com a indústria automobilística...
“Todos os dias de manhã, na África, o antílope desperta. Ele sabe que terá de correr mais rápido que o mais rápido dos leões, para não ser morto. Todos os dias, pela manhã, desperta o leão. Ele sabe que terá de correr mais rápido que o antílope mais lento, para não morrer de fome. Não interessa que bicho você é, se leão ou antílope. Quando amanhece, é melhor começar a correr” (provérbio africano que, devidamente traduzido para o mandarim, o gerente da ASIMCO Technologies, fabricante de peças de automóveis, um chinês que estudara nos EUA, mandou afixar no chão da fábrica, em Pequim).

Thomas L. Friedman, autor do livro que estou tentando resumir, escreveu: “Não sei quem é o leão e quem é o antílope; o que sei é que, desde a sua adesão à Organização Mundial de Comércio, em 11 de dezembro de 2001, tanto a China quanto o resto do mundo precisaram começar a correr cada vez mais rápido”. O que é chamadooffshoring se dá quando uma empresa pega uma de suas fábricas de Canton, Ohio, e transfere-a inteira para o exterior – para Cantão, na China, por exemplo – onde produzirá exatamente o mesmo produto, exatamente da mesma maneira, só que com mão-de-obra mais barata, uma carga tributária menor, energia subsidiada e menos gastos com os planos de saúde dos funcionários.

O ingresso da China na OMC guindou Pequim e o resto do mundo a um nível sem precedentes de offshoring, um número cada vez maior de empresas passou a deslocar sua produção para o exterior, para depois integrá-la em suas cadeias globais de fornecimento (...). Hoje a gente vai a cidades da costa leste (da China) de que nunca ouviu falar antes e descobre que lá se fabrica a maior parte das armações de óculos do mundo, ao passo que na cidade vizinha é produzida a maior parte dos isqueiros do mundo, e na seguinte são feitos quase todos os monitores dos computadores da Dell, enquanto outra está se especializando em telefones celulares. Kenichi Ohmae, consultor de empresas japonês, estima, em seu livro The United States of China que, só na área do delta do Zhu Jiang, ao norte de Hong Kong, existam 50 mil fabricantes de componentes eletrônicos (...).

Carlos I. S. Azambuja é Historiador.

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