quarta-feira, 22 de outubro de 2014

Com a Globalização, o mundo ficou plano (Final)


Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Carlos I. S. Azambuja

Abstraindo, evidentemente, o tema dos direitos humanos e das liberdades individuais na China, observa-se que quanto mais atraente ela se torna como base de offshoring, mais atraentes também têm de se tornar os países em desenvolvimento que lhes fazem frente, como a Malásia, a Tailândia, a Irlanda, o México, o Brasil, o Vietnã. Todos observam o que está acontecendo com a China e a transferência de empregos para lá e pensam; “Caramba, melhor eu começar a oferecer esses mesmos incentivos”.

Em longo prazo, a verdadeira estratégia dos chineses é superar os EUA e a Europa pelo alto. Seus líderes estão muito mais preocupados que muitos de seus concorrentes ocidentais em munir seus jovens das competências matemáticas, científicas e computacionais indispensáveis para o sucesso no mundo plano; em construir uma infra-estrutura física e de telecomunicações que permita aos chineses se conectarem com mais rapidez e velocidade que os demais; e em criar incentivos que atraiam os investidores globais.

A verdadeira ambição dos seus líderes é que a próxima geração de lingerie ou peças de avião seja também projetada na China. Esse é o futuro, dentro dos próximos dez anos. Assim, num intervalo de trinta anos teremos passado do “vendido na China” para o “fabricado na China”, depois para o “desenhado na China” e para o “sonhado na China”. Ou seja, de uma China que em nada contribuía para a produção mundial para uma China que colabora a baixo custo, com alta qualidade e extrema eficiência em tudo.

Segundo Pat Powers, diretora da Câmara de Comércio China-EUA em Pequim, se a entrada do país na OMC tivesse sido submetida a um referendo popular, “jamais seria aprovada”. Um dos princípios por que as lideranças chinesas se decidiram pelo ingresso na OMC foi a necessidade de forçar a burocracia do país a se modernizar, pondo abaixo a muralha de regulamentações internas e reduzindo a margem para decisões arbitrárias.

E acrescenta Thomas Friedman: “Com o passar do tempo, a adoção dos padrões da OMC terá o efeito de achatar ainda mais a economia chinesa. Não será, porém, uma transição fácil e não é irrisória a possibilidade de sobrevir alguma ruptura política ou econômica que interrompa ou retarde o processo. Não basta, todavia, implementar todas as reformas sugeridas pela OMC.”

Logo a China chegará a um ponto em que suas ambições de crescimento exigirão mais reformas políticas. A corrupção jamais será extirpada sem uma imprensa livre e instituições ativas da sociedade civil. O país nunca será eficiente de fato sem um estado de direito melhor codificado, sem um sistema político mais aberto, que permita à população expressar suas insatisfações. Em outras palavras, a China só vai ficar realmente plana depois de ultrapassada a barreira da reforma política.

Embora a força niveladora chinesa venha dando muita dor de cabeça para operários de todo o mundo, para os consumidores ela está sendo um maná. A revista Fortune de 4 de outubro de 2004 citou um estudo do Morgan Stanley que estima que, contando desde meados da década de 1990 apenas, as importações baratas da China pouparam aos consumidores americanos cerca de 600 bilhões de dólares – e aos fabricantes, incontáveis bilhões em peças mais baratas para os seus produtos.

Tanta economia, por sua vez, observa a Fortune, possibilitou que o Federal Reserve contivesse os juros por mais tempo, proporcionando a uma parcela maior da sua população a oportunidade de adquirir ou refinanciar sua casa própria e, às empresas, mais capital para investir em inovações (...). O salário médio de um maquinista qualificado nos EUA fica em torno de 3 a 4 mil dólares por mês. O salário médio de um operário na China é de cerca de 150 dólares mensais, além de um plano de pensão, patrocinado pelo governo chinês, que compreende plano de saúde, habitação e aposentadoria, no valor de 35% a 45% da remuneração mensal do operário.

Ou você se achata ou a China vai achatar você, segundo um executivo da empresa norte-americana ASIMCO que tem um offshoring na China. Não há de faltar quem ache assustadora essa perspectiva, mas será um acontecimento inegavelmente positivo para o mundo como um todo. Segundo um jornalista mexicano que entrevistou um alto funcionário do Banco Central chinês, esse funcionário lhe disse uma coisa realmente perturbadora sobre o relacionamento da China com os EUA: “Primeiro tínhamos medo do lobo, depois começamos a querer dançar com o lobo, e agora queremos ser o lobo”.

Outro fator que contribui para tornar o mundo cada vez mais plano, segundo Friedman, são os mecanismos de busca na Internet. Na sede do Google, em Mountain View, Califórnia, há um globo girando num canto e emitindo raios luminosos com base no número de pessoas que fazem busca no Google a cada momento. A maioria das luzes pisca na América do Norte, Europa, Coréia, Japão e litoral da China. 

O Oriente Médio e a África permanecem mais escuros. Noutro canto, uma tela mostra exemplos dos tipos de informações que as pessoas estão buscando em todo o mundo. Nas palavras do co-fundador do Google, o russo naturalizado americano Sergey Brin, quem possuir conexão por banda larga ou discada ou tiver acesso a um cibercafé, seja um garoto do Camboja ou um professor universitário, terá o mesmo acesso básico a dados gerais de pesquisa. É esse o objetivo do Google: facilitar o acesso a todo o conhecimento do mundo, em todos os idiomas. “Tudo” e “todos” são palavras-chave, ouvidas na empresa o tempo inteiro.

A história oficial do Google, encontrada em sua página inicial, explica que seu nome vem de um trocadilho com a palavra “googol”, o número representado pelo dígito 1 seguido de cem zeros. A escolha dessa nomenclatura refere-se à missão da empresa de organizar o imenso - aparentemente infinito - volume de informações disponível na web só para você.

Não há maior força de achatamento e nivelamento que a idéia de que todo o conhecimento do mundo, ou pelo menos uma grande parte dele, está disponível para todos e qualquer um, a qualquer momento, em qualquer lugar, uma vez que buscar algo por conta própria é um ato tão pessoal que não há nada que confira maior autonomia ao ser humano. É a antítese de nos dizerem ou ensinarem alguma coisa. É uma questão de obtenção de poder por cada indivíduo, o poder de cada um fazer das informações desejadas aquilo que lhe parecer melhor. A utilização dos mecanismos de busca é a expressão máxima do poder do indivíduo que, usando um computador, olha para o mundo e encontra exatamente o que quer. Nesse sentido, não há duas pessoas iguais.

Michael J. Sandel, renomado teórico político da Universidade de Harvard, comentou que o processo de achatamento que agora se verifica fora identificado, pela primeira vez, por Karl Marx e Friedrich Engels em seu Manifesto Comunista, publicado em 1848. O Manifestodescreve o capitalismo como uma força fadada a dissolver todas as identidades feudais, nacionais e religiosas e dar origem a uma civilização universal, regida por imperativos do mercado. A seu ver, era inevitável que o capital atingisse suas metas e não só inevitável como também desejável, pois, uma vez destruídos todos os vínculos de cunho nacional e religioso, o violento combate entre capital e trabalho ficaria exposto e às claras.

Obrigados a competir numa corrida global rumo ao fundo do poço, acreditava Marx, os trabalhadores do mundo acabariam se unindo numa revolução global para pôr fim à opressão. Naquele que é, provavelmente, o principal parágrafo do Manifesto Comunista, Marx e Engels escreveram:

“Todas as relações fixas, seguras, cristalizadas, com sua comitiva de antigos e veneráveis preconceitos e opiniões, são varridas, e aquelas recém-constituídas tornam-se obsoletas antes mesmo de se ossificarem. Tudo o que é sólido se desmancha no ar, tudo aquilo que é sagrado é profanado, e o homem finalmente se vê compelido a encarar, com sobriedade, suas verdadeiras condições de vida e suas relações com seus pares (...). Em vez dos antigos desejos, atendidos pela produção do país, deparamo-nos com novos anseios, para cuja satisfação se fazem necessários produtos de terras e climas distantes. Em vez do velho isolamento e auto-suficiência nacionais, temos o intercurso em todos os sentidos, a interdependência universal das nações (...) A burguesia, mediante o rápido aprimoramento de todos os instrumentos de produção, mediante meios de comunicação imensamente facilitados, arrasta todas as nações, mesmo as mais bárbaras, para a civilização. Os baixos preços dos bens compõem a artilharia pesada com que ela derruba todas as Muralhas da China (...). Numa palavra, a burguesia cria um mundo à sua imagem e semelhança”.

A conclusão do autor é que, com a Globalização, o mundo deixou de ser redondo, se achatou e ficou plano. E com o achatamento do mundo, os pequenos começaram a poder pensar grande. Isto é, as pequenas empresas adquiriram uma visão global. E isso não tem volta. E se os norte-americanos e europeus quiserem tirar proveito do achatamento do mundo e da interconexão de todos os mercados e pólos de conhecimento, vão precisar correr pelo menos tão rápido quanto o mais rápido dos leões.

Segundo a Folha de São Paulo noticiou dia 28 de junho de 2006, “a entrada de maquinário importado, sobretudo chinês, tem preocupado a Abimaq (Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos). Dados da entidade mostram que, em alguns segmentos, a taxa de crescimento das exportações de máquinas chinesas para o Brasil é muito maior que a media das exportações da China para o mundo. Enquanto as vendas de fornos industriais chineses, por exemplo, cresceram 89% na média mundial, para o Brasil a alta foi de 11.271% entre 2004 e 2005. Isso significa que os exportadores chineses estão sendo bastante agressivos, diz Patrícia Marrone em estudo da Abimaq sobre a China”.

Ler o livro de Thomas Friedman é um bom ponto de partida para os empresários da Abimaqentenderem o que está acontecendo com o mundo, que não é mais redondo. Ele se achatou e está ficando plano... e eles podem começar a correr.

Fonte:Livro “O Mundo é Plano – Uma Breve História do Século XXI”, Thomas L. Friedman, editora Objetiva, 2005
Carlos I. S. Azambuja é Historiador.

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