sexta-feira, 21 de novembro de 2014

Conexão Havana - Final

"O canal das Bahamas, por suas proximidades com as costas dos EUA, se converteu na zona preferida pelos narcotraficantes para fazer chegar seus carregamentos de drogas às costas desse país. Os aviões deixam cair suas cargas sobre as águas nas proximidades dessa rota, de onde são recolhidas por lanchas rápidas de três potentes motores que se movem a quase 100 quilômetros por hora. Operações similares se realizam entre embarcações de médio porte e as lanchas rápidas. As mesmas escapam, quase todas... Por isso, nos últimos tempos aumentaram as atividades do narcotráfico internacional nas águas dessa área... Cuba tem mais de 1.200 quilômetros de largura, localizada entre o canal de Yucatán e o estreito mar que a separa do Haiti. Este país é o único ponto de onde se podem controlar realmente as águas internacionais e suas próprias águas ao sul das ilhas das Bahamas que, por sua proximidade com as costas dos EUA, se prestam... à atividade dos narcotraficantes" (Fidel Castro, em discurso pronunciado em 26 de julho de 1999)


Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Carlos I. S. Azambuja

Os poderosos cartéis de Cali e Medellín são coisa do passado. As máfias dos grandes “capos” da droga, de cabelos engomados, caríssimos trajes sob medida e pulseiras de ouro, acabaram. Os “experts” consideram superada a fase em que os narcotraficantes atuavam de forma coordenada e dentro de uma espécie de famiglia, para atuar agora em organizações menores, menos detectáveis e mais difíceis de combater.

Com os grandes clãs desaparecidos, agora quem inunda os EUA e a Europa de cocaína é uma confederação de pequenos cartéis, integrados por narcos de uma segunda geração que têm um perfil muito diferente dos “capos” de toda a vida. Já não têm a intenção de ostentar-se e nem de exibir sua riqueza; são homens e mulheres cujas idades em poucas ocasiões superam os 40 anos, que procuram manter-se no anonimato, sobretudo nas grandes cidades.

Atuam através de pequenos departamentos clandestinos que chamam de butiques, porém fazem parte do grupo significativo de organizações independentes que operam por todo o mundo. Não são cartéis propriamente ditos e sim, um numeroso grupo de pequenas organizações que se unem para realizar grandes operações, e que se caracterizam por suas especializações: um clã controla os precursores; outro, a produção; outro, a distribuição e outro mais, as rotas.

A cocaína negociada em Havana é plantada, com toda a probabilidade, no Peru ou Bolívia, onde a venda e o consumo da coca são legais, para ser, depois, “cozinhada” na Colômbia ou Equador, países que encabeçam a lista de manufatureiros ilegais. Aqueles que conhecem o negócio asseguram que na Colômbia se produz uma cocaína “excelsa”, de alta qualidade e um grau de pureza de até 99%. Ali, o quilo é vendido a 1,5 mil euros. Em Miami, esse mesmo quilo é cotado a 10 mil euros. Em Nova York a 15 mil, e na Europa, a 25 mil. De acordo com esses preços e tendo em conta que os narcotraficantes exportam da Colômbia cerca de mil toneladas por ano, é evidente que o negócio está igual ou melhor do que antes.

Com esses dados, não é estranho que a cada dia mais pessoas entrem no negócio. Para as autoridades, hoje em dia, um cartel é uma rede de departamentos onde trabalham, sem conhecer-se, centenas de pessoas. Isso assegura ao “capo” que sua organização está protegida das delações e traições que tão amiúde ocorriam no mundo da máfia. Em definitivo, uma pessoa que trabalha como “cozinheiro” jamais conhecerá a um que trabalha no escritório de contabilidade.

Somente no processo de produção da droga são utilizados fornecedores de sementes, cultivadores, “raspachines” (camponeses que cultivam a coca ou a papoula), “cozinheiros”, empacotadores, transportadores e vigilantes.
De maneira independente, os especialistas em produtos químicos aprovisionam os centros de produção. Depois estão os colaboradores financeiros e administrativos, que se encarregam de que nada falte aos produtores, de cobrar e pagar as remessas de drogas.

Logo a seguir, estão aqueles que dominam as rotas terrestres, aéreas e marítimas. Hoje em dia se sabe que são mais de 50 estruturas que realizam esse trabalho.
Essa cadeia, ademais, é integrada pelos colaboradores que lavam o dinheiro e manejam os investimentos lícitos, mais conhecidos como testas-de-ferro, contadores, advogados, contrabandistas, pilotos, assessores financeiros e, por último, o grupo de seguranças especializados e assassinos profissionais recrutados da delinqüência comum, que se encarregam de executar os trabalhos de convencimento, controle interno e ajustes de contas.

Porém, o futuro desse negócio, como o de quase todos, está na distribuição. As relações de poder mudaram já que, diferente de anos atrás, agora são eles e não os produtores os que controlam a parte final do negócio que é a mais rentável: a exportação para a Europa e EUA. Os grandes cartéis da máfia são os encarregados de receber a droga e introduzi-la no mercado norte-americano. Nesse crescente mercado, Cuba é um dos pontos estratégicos para qualquer organização que se preze, já que se encontra num local geográfico propício.

Segundo Roberto, um narcotraficante que cumpre pena na Andaluzia, Espanha, “se a opção é transportar a cocaína por mar, Cuba é uma passagem obrigatória. O Caribe está muito vigiado, porém o Atlântico é ideal, é muito mais extenso e não é possível exercer um controle tão estrito. Os cubanos se encarregam de recolher a droga em suas costas e controlar a sua viagem até os EUA e Europa. Por isso os pagamos com 50% do investimento. Isto é, se exportamos 10 toneladas, 5 são nossas e 5 deles”.

Quando Roberto fala de “eles”, se refere à organização denominada “conexión Havana”. O narcotráfico, o segundo negócio mais afortunado do mundo depois do sexo, desordenou a aparentemente estável sociedade cubana. O Cartel de Havana surgiu nos anos 80 graças aos fundos procedentes do Cartel de Medellin.
Apesar de Cuba ter assinado o programa para a Fiscalização Internacional de Drogas, de acordo com um projeto de ajuda contra o narcotráfico, graças ao qual a ONU coopera com 1.275.300 dólares em assessoria técnica ao governo cubano, os escândalos de narcotráfico continuam salpicando a Ilha.

A suspeita de que o Estado facilita o trânsito de narcóticos por suas águas e por seu espaço aéreo está latente desde muito tempo. A DEA tem acompanhado durante anos os supostos negócios de narcotráfico que se realizam na Ilha e suas águas jurisdicionais, circunstância que Fidel Castro negou reiteradamente até o caso da prisão e fuzilamento do general Ochoa. Porém, esse não foi o único caso.

Recorde-se que o general da Força Aérea Rafael del Pino, que desertou de Cuba em 1987, assegurou em uma entrevista concedida naqueles dias que todos os aviões que voam sobre a Ilha, fora dos corredores aéreos aprovados para as aeronaves comerciais e privadas, têm que pedir autorização ao ministério das Forças Armadas Revolucionárias, cujo ministro era, na época, Raúl Castro. Ou seja, Raúl Castro era o comandante das forças que permitem ou não que os narcotraficantes utilizem os aeroportos de Cuba, lhes oferecendo assistência de radar e infra-estrutura.
Ocorreram mais casos em que as autoridades cubanas estiveram envolvidas no tráfico de drogas.

Até que, em janeiro de 2003 o regime cubano declara oficialmente guerra à droga. Um editorial do jornal “Granma” assegura que o narcotráfico havia tecido suas redes na sociedade socialista cubana. Durante 44 anos os cubanos nunca tinham visto tantas operações executadas, quase simultaneamente, na capital e cidades de província, como Holguin, Santiago de Cuba, Camaguey e outras.

Com o nome de “Operação Coraza”, agentes da polícia, da Direção Nacional Antidrogas e da Segurança do Estado entraram em casas usadas para esconder ou vender cocaína, crack e marihuana. O “combate pela morte do narcotráfico” foi classificado como um assunto do interesse da segurança nacional. Os meios de comunicações locais optaram por guardar silêncio sobre essas inéditas operações policiais e por isso se desconhece se as pessoas presas são dezenas ou centenas.

Conforme o já citado editorial do “Granma”, o mercado de venda e consumo de drogas é incipiente, sobretudo se comparado com o de outros países da região. Porém, também reconhece que ultimamente o uso indevido de drogas mostra índices crescentes. Fidel Castro, ao contrário, tem expressado em recentes discursos que Cuba tem a possibilidade de ser um país livre do flagelo da droga e o principal lema para conseguir esse objetivo é que  “não haverá impunidade para ninguém” (essa frase é conhecida...).

Todas as operações policiais são atemorizadoras. Quando os agentes invadem as casas de traficantes ou vendedores de drogas, além de prender o presumível culpado, apreendem equipamentos eletros-domésticos, móveis e tudo aquilo que não tenha sido adquirido com dinheiro obtido legalmente.

Porém, de todas as medidas coercitivas, a que mais estimula o medo, como uma epidemia, é a lei que regulamenta que toda família onde os agentes encontrem provas do delito de drogas, desde a avó até o gato, serão consideradas ocupantes ilegais e desterrados para um albergue. Essa lei radical se aplica também às pessoas que pratiquem atos de corrupção, prostituição, proxenetismo, pornografia e corrupção de menores e, da mesma forma, àqueles que usem suas casas como discotecas, videotecas clandestinas ou para encontro de casais.

Durante o ano de 2003, segundo o “Granma” publicou no início de 2004, as autoridades cubanas apreenderam mais de 5 toneladas e meia de drogas. Em sua edição de 28 de janeiro de 2004, o “Granma” assinalou que “mais de seiscentas causas foram apresentadas ante os tribunais em decorrência da ‘Operação Coraza’, e que 35% das sentenças oscila entre os 10 e 16 anos de cárcere para os acusados de participar de atividades de narcotráfico”.

Entretanto, o governo continua sem reconhecer que em Cuba operam clãs de narcotraficantes organizados.

“Conexión Habana” consegue demonstrar que em um país com uma estrutura governamental como a de Cuba, que não permite a livre movimentação de nada, se movimenta de forma organizada todo o tipo de drogas. Os clãs existentes em Havana são capazes de colocar a “mercadoria”, burlando os controles dos aeroportos mais importantes do mundo. O livro demonstra também que a Revolução, hoje em dia, não é como a de antigamente, e no que diz respeito ao crime funciona como qualquer Estado capitalista do resto do mundo. A única diferença é que em Cuba o governo não é capaz de reconhecer que seu sistema não é perfeito.

Não somente a droga, como também o jogo e a prostituição estão presentes em forma organizada, minando a dignidade de um povo lutador e sem recursos. O governo é o patrão desses “negócios”. Os controla e lucra com eles. Sugestivamente, a União de Bancos Suíços, ao ser investigada, revelou que havia processado 3 bilhões e 900 milhões de dólares procedentes do governo cubano.

A pergunta lógica é a seguinte: de onde saíram esses bilhões de dólares depositados em bancos suíços por funcionários cubanos? Não saíram, com certeza, dos únicos produtos exportáveis que podem gerar divisas: a safra de açúcar, o rum e o tabaco, uma vez que os restantes (biotecnologia, serviços técnicos e profissionais, entre outros) não são pagos com moeda corrente, pois fazem parte de convênios nos quais não há transações monetárias diretas e sim transferências de fundos ou intercâmbios de outros tipos. Resta o turismo, incapaz de gerar todo esse dinheiro, pois os visitantes ao chegarem à Ilha já têm tudo, ou quase tudo, pré-pago, através dos pacotes de turismo e, em Cuba, só lhes resta gastar com souvenires, cigarros ou bebidas. Por tudo isso, é difícil imaginar que o Estado cubano possa juntar essa quantidade enorme de dinheiro por essas vias.

“Definitivamente, não valeu a pena fazer essa Revolução”, concluiram os autores de “Conexión Habana”.

Carlos I. S. Azambuja é Historiador.



Especial produzido pela jornalista Maria Elvira Salazar, em 2012.

5 comentários:

Anônimo disse...

Vocês não leram o livro do ex-guarda-costas de Fidel, Juan Reinaldo Sánchez? Lá, fica claríssimo que Cuba não só faz vistas grossas para o tráfico, como faz parte da maracutaia, na boa. Pra mim, Cuba, além de rota, distribui a droga para outros países, além dos EUA.

Anônimo disse...

Em cuba, se combatem rigorosamente os narcotraficantes privados, porque nenhum governo comunista admite concorrentes.
Simples assim.

Anônimo disse...

Se o Governo cubano tem contas bilionárias em paraísos fiscais, como mencionado no artigo, porque o BNDS Brasileiro (PT), precisa financiar porto em Cuba ?

Anônimo disse...

Pq somos trouxas, e os petralhas receberam muito dinheiro de fidel no passado, e agora o pT tem que devolver, este dinheiro no exterior é pra férias do fidel e familia, povo cubano que se exploda.

Anônimo disse...

Esclarecimento sobre “intervenção militar”.
Dilma empregou as Forças Armadas no combate ao tráfico de drogas nos morros cariocas.
Aí está uma “intervenção militar”.
Militar nenhum quer o poder. Estão calados há vinte anos. Poderiam ter entrado com centenas de ações judiciais contra os ataques covardes, revanchistas e cruéis à instituição mais bem avaliada do Brasil, que conta com 75% de aprovação popular! Nos vinte anos de regime militar, cinco presidentes se sucederam (cada um durou quatro anos) . Nós éramos felizes! O regime militar só não admitia comunismo, praticado por esse pessoal guerrilheiros vencidos, que agora voltou e assumiu o poder.

No Chile, diferente do Brasil, General Pinochet passou dezenas de anos no poder.

Se ocorrer uma crise institucional, a autoridade competente vai empregar as Forças Armadas, constitucionalmente, para “garantir a lei e a ordem”.

Acontece que todas as nossas autoridades competentes estão se borrando de medo! Muitos já envolvidos!

A mídia amestrada, sempre calada sobre o Foro de São Paulo! Está ficando tarde! ?". Nem a mídia nem ninguém quer divulgar a verdade horripilante que está ocorrendo com o Brasil: o Foro de São paulo.

O filósofo Olavo de Carvalho afirma que, sob o comando do Foro de São Paulo, o Brasil, país mais rico, está financiando todos os países da América Latina (implantando o comunismo bolivariano), fazendo portos (em Cuba e outros países) para permitir os movimentos de frotas dos navios de suprimentos (armas, inclusive) e de guerra russos e chineses. O Brasil, gigante, será o último para implantar esse bolivarianismo liberticida! Alerta! Só mesmo o povo. Essa oposição é combinada para fazer de conta que se opõe! A mídia também está amestrada! O povo, que já tem cartazes alusivos ao Foro de São Paulo (a mídia está sempre em silêncio obsequioso sobre isso), está percebendo e agindo, pois expulsou o CQC que entrou na manifestação expontânea para ridicularizá-la. No outro dia, a audiência do CQC caiu a níveis muito baixos em relação às outras emissoras de TV. Estão desesperados. Muita gente está cancelando as assinaturas dos jornais Folha de São Paulo e do Estado de São paulo. Lobão(cantor) e Olavo de Carvalho (filósofo) estão contribuindo para essa tomada de consciência do povo. Vamos virar o jogo enquanto há tempo!