sábado, 15 de novembro de 2014

Cuba - Estrutura do Departamento América


Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Carlos I. S. Azambuja

“Entre agosto e setembro de 2002, o comitê eleitoral de Lula recebeu 3 milhões de dólares vindos de Cuba. Ao chegar a Brasília, por meios que VEJA não conseguiu identificar, o dinheiro ficou sob os cuidados de Sérgio Cervantes, um cubano que já serviu como diplomata de seu país no Rio de Janeiro e em Brasília”.(“Os Dólares de Cuba para a Campanha do Lula”, revista Veja)

O Departamento América (DA) é o órgão de Inteligência do Comitê Central do Partido Comunista Cubano. Subordinado à Comissão Executiva (ou Politburo) do partido, é encarregado de executar a política exterior do partido e do Estado cubano nas Américas. Foi constituído em 1974 em substituição ao Departamento de Relações Exteriores do CC. Os demais países do mundo passaram aos encargos de um novo organismo: o Departamento Geral de Relações Exteriores.

Tal política, formulada no I Congresso do Partido Comunista Cubano, em novembro de 1975 (15 anos após a revolução), foi reafirmada pelo II Congresso, em dezembro de 1980, e tem como objetivo não apenas tentar superar a influência dos EUA na América Latina e no Caribe, mas também proporcionar apoio, sempre que possível, a movimentos viáveis de libertação nacional contra governos não-marxistas da região. Para atingir esses dois objetivos, o Departamento América desenvolve operações ostensivas e clandestinas.

A função clandestina do DA é manipular e exercer controle sobre organizações, grupos ou pessoas estrangeiras que estejam em condições ou tenham acesso a dados que possam servir ao Partido Comunista Cubano, auxiliando-o na tarefa de alcançar seus objetivos no campo da política externa.

Os meios utilizados pelo DA para obter esse controle são operações através de agentes de influência, de propaganda clandestina, da criação de grupos de fachada, e, também, da provisão clandestina de treinamento, abastecimento e fornecimento de armas e fundos financeiros para grupos combatentes e pessoas aliadas.
Essas atividades são desenvolvidas com a cumplicidade de diversos órgãos do Estado, como a Prensa Latina, tanto para identificar possíveis recursos dentro dos meios de informação estrangeiros como para difundir propaganda clandestinamente na imprensa local através de colaboradores e agentes do DA.

O DA também utiliza a Prensa Latina como cobertura em países onde não exista representação oficial, bem como para missões de serviço temporárias; o Instituto de Amizade com os Povos (ICAP), é o órgão encarregado de lidar com os convidados oficiais a Cuba. O ICAP é utilizado como mecanismo de identificação, avaliação e recrutamento para o DA e proporciona cobertura aos oficiais do Departamento. Oficiais do DA já foram identificados utilizando o ICAP como cobertura e como meio operacional; a Cubatur e a Havanatur desempenham papéis semelhantes aos do ICAP e também são utilizadas pelo DA como cobertura para seus oficiais, bem como outras empresas do Estado.

O DA recolhe e processa informes de caráter político, econômico e operativo, seja por meio de agentes de influência com acesso a esses informes, ou mediante a acurada análise de publicações ostensivas.

O Departamento América também opera abertamente, estabelecendo ligações oficiais de partido para partido, ou movimentos políticos estrangeiros dispostos a aceitar tais relações.

Essas ligações, a partir de 1990, foram em muito facilitadas com a constituição do Foro de São Paulo do qual fazem parte, além de partidos políticos legalmente constituídos, como o Partido dos Trabalhadores, as principais organizações de esquerda e movimentos guerrilheiros do continente. Um exemplo desse relacionamento de partido para partido é o estabelecimento de uma das condições exigidas para matrícula de brasileiros na Faculdade Internacional de Medicina, em Cuba: ser militante do Partido dos Trabalhadores (segundo o site do PT). Outro detalhe desse “estreito relacionamento”: a triagem dos candidatos é feita, no Brasil, por cubanos que, como é evidente, são membros do DA.

O Departamento América está dividido em cinco regiões geográficas: Caribe, EUA, Canadá, América Central (México, Panamá e Costa Rica) e América do Sul; esta, dividida em Seções Regionais das quais o Cone Sul é uma delas.

Desde que foi criado, em 1974 e, pelo menos até 1992, o Departamento América foi dirigido por Manuel Piñero Losada que antes, no Ministério do Interior, chefiara o Departamento Geral de Inteligência (DGI), embora fosse apenas membro do Comitê Central e não do Politburo. Como chefe do DA sempre prestou conta de suas atividades diretamente a Fidel Castro.

De 1974 a 1992 – ou seja, até à queda do Muro de Berlim, do desaparecimento dos países ditos socialistas na Europa Oriental e do fim da União Soviética – Manuel Piñero Losada foi o coordenador de todos os movimentos guerrilheiros existentes na América Latina. Após sua saída da chefia do DA passou a dirigir o Departamento de Relações Exteriores do Comitê Central. E, finalmente, em outubro de 1997, no 5º Congresso do PC, não foi reeleito para o Comitê Central.

Em substituição a Manuel Piñero Losada, José Antonio Arbesu Fraga, oficial do Ministério das Relações Exteriores desde 1979, assumiu a chefia do Departamento América, onde permaneceria até hoje.

O DA possui em sua estrutura três Centros de Estudos: o Centro de Estudos da Europa Ocidental, Centro de Estudos Africano e Centro de Estudos Americanos (CEA). Em 1982 o diretor do CEA era Santiago Eduardo Diaz Paez, codinome “Terry”. Quando do seqüestro do empresário Abílio Diniz, em 1989, em São Paulo, os nomes de Santiago Eduardo Diaz Paez, então embaixador na Argentina, bem como o de sua esposa, figuravam nas agendas apreendidas com os seqüestradores presos.

Após a derrubada do governo Allende, no Chile, o centro de operações da “rede de resistência chilena”, foi então estabelecido na embaixada de Cuba em Buenos Aires, da qual os guerrilheiros chilenos recebiam dinheiro e armamento. Além disso, contavam ali com uma infra-estrutura para tirar ou fazer retornar seus militantes ao Chile. Piñero sempre teve membros do DA na embaixada em Buenos Aires. Na década de 80, até início dos anos 90, além do próprio embaixador, o Conselheiro Político da embaixada, Daniel Enrique Herrera Perez, também pertencia ao Departamento América e era o subchefe do DA para o Cone Sul.

Outro exemplo é o de Fernando Ravelo Renedo, coronel, que no início dos anos 80, quando embaixador na Colômbia, teve que deixar o cargo por terem sido descobertas suas ligações com as organizações guerrilheiras daquele país e com o tráfico de drogas, sendo removido para a embaixada na Nicarágua. Fernando Ravelo Renedo, quando no Ministério do Interior, no final dos anos 60 e início dos anos 70, era o responsável pelo treinamento armado, em Cuba, dos grupos guerrilheiros de brasileiros e de outros países. Era, então, conhecido pelo codinome de “Major Fermin Rodriguez”.

É a essa estrutura que pertence Sergio Julio Cervantes Padilla, citado pela reportagem da Veja como o homem que teria passado 3 milhões de dólares para o PT em 2002. Cervantes passou a circular pelo Brasil desde o início dos anos 80 sob várias coberturas e, em 1985, tão logo as relações diplomáticas Brasil-Cuba foram reatadas passou a desempenhar o cargo diplomático de Conselheiro Político, cargo que já havia desempenhado por duas vezes, substituindo quem o substituiu Esteve presente no 11º Congresso do Partido Comunista do Brasil, realizado em Brasília em 20/23 de outubro de 2005. Anteriormente, em 1991, esteve também presente no 11º Congresso do PCB, realizado em maio/junho de 1991, na Universidade Federal do Rio de Janeiro.

Finalmente, vejam as declarações do senador Eduardo Suplicy (Jornal do Brasil. 30 de outubro de 2005): “Sei da ligação institucional porque Cervantes era representante do PC cubano. Se havia outra ligação, desconheço. Ele participou de várias reuniões, até do Diretório Nacional do PT”.


Carlos I. S. Azambuja é Historiador.

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