sexta-feira, 14 de novembro de 2014

"Pátria ou Morte"


Che santificado: na foto de Marc Hutten, da AFP 

Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Carlos I. S. Azambuja

A Revolução Cubana, um poder de Estado fundado num partido único e num grande caudilho, se um dia chegou a existir, está, há muito tempo, morta. E mortos, com ela, muitos de seus primeiros heróis e sonhadores.
“Morir por la patria es vivir”, diz o Hino Nacional de Cuba.

Parece que algumas personalidades cubanas encaram como verdade verdadeira essa frase e quando não conseguem morrer pela pátria, simplesmente cometem o suicídio. É difícil entender a Revolução Cubana, se não se considera como um de seus elementos integrantes, quase essencial, o suicídio.

Em Cuba sempre se falou de revolução. O Partido Independentista, fundado em seu exílio nos EUA, por José Martí, chamou-se Partido Revolucionário Cubano. Depois disso, cada rebelião, revolta ou motim, era uma revolução. Ramon Grau San Martin também chamou o partido que fundou de Partido Revolucionário Cubano. Durante o mandato de Grau San Martin e de seu sucessor, Carlos Prio Socarrás (1944-1952), os bandos de gangsteres zanzavam pelas ruas escuras de Havana Velha, matando-se entre si por ideologias obscuras. 

Seus nomes eram Movimento Social Revolucionário e União Insurrecional Revolucionária. Desta última fazia parte o imberbe Fidel Castro, na época bem distante do barbudo Marx, entre os seus pistoleiros mais audazes. Essas gangues haviam surgido da desintegração violenta do regime de Batista (1933-1944), de uma associação clandestina, a Ação Revolucionária Guiteras, que era ao mesmo tempo uma homenagem e pretexto político para vingar a morte de Tony Guiteras.

Como se observa, o adjetivo revolucionário não é novo em Cuba.
Pode ser dito que a Revolução Cubana teve início não com o assalto ao Quartel Moncada, mas no dia 5 de agosto de 1951, quando, no estúdio de uma rádio, Eduardo Chibas, mas conhecido como Eddy Chibas, então o político mais popular de Havana, cometeu o suicídio durante um programa político que transmitia semanalmente. 

Desiludido com o governo de Grau San Martin, que considerava um presidente venal, Chibas dizia-se o único herdeiro do Partido Revolucionário Cubano, fundado por Martí, pois em Cuba ninguém, jamais, deixou de se considerar revolucionário. Ninguém podia fazer isso em Cuba.

Carlos Prio Socarrás, ex-presidente exilado, após ser apeado do poder por Fulgêncio Batista, em 10 de março de 1952, cometeu o suicídio, 20 anos depois, com um tiro no peito.

Outros cubanos escolheram o suicídio como ato político: Wilfredo Fernandez, que foi prefeito de Havana e diretor do jornal La Discusión, o mais importante de seu tempo, preso por Fulgêncio Batista na Fortaleza de La Cabana, quando de seu primeiro governo, na década de 30, matou-se com um tiro na cabeça. Nunca se soube como conseguiu a arma com que se suicidou dentro da cela. Outro prefeito de Havana, Manuel Fernandes Supervielle, suicidou-se em 1947, depois de ter sido eleito praticamente por aclamação popular, acusado de prevaricação, pela imprensa, por não cumprir sua promessa eleitoral de dar água a toda cidade (ah, se a moda pega...).

Um dos suicídios mais estranhos e inexplicáveis ocorridos em Cuba após a Revolução, foi o de Raul Chirino, um revolucionário, da noite para o dia, transformado em contra-revolucionário, que se suicidou em 1959 dentro de um Pronto-Socorro, em Havana, quando era interrogado por ... Fidel Castro. Nunca ninguém duvidou que tivesse sido um suicídio...

Augusto Martinez Sanchez, advogado, foi, como Raúl Castro, um confuso e absurdocomandante, daqueles que viam a guerrilha através do espelho. Martinez subiu a Sierra Maestra em meados de 1958, junto a outro profissional da frustração e do ressentimento anti-ianque que viveu alguns anos nos EUA, Manuel Piñero Losada. Logo depois, ambos desceram a Sierra como quem atravessa uma parede mágica: agora eram comandantes barbudos, prepotentes, em seu comunismo à la Raul. 

Não haviam disparado um só tiro, mas eram certeiros em suas ordens vermelhas. Piñero foi nomeado, por Raul Castro, chefe do Serviço de Contra-Espionagem, especialista em espionar e delatar amigos, atividade que recebeu o nome de vigilância revolucionária. Apelidado de Barba Ruiva, sua verdadeira alcunha era James Bongo, o contra-espião que veio da fria Nova York. A partir daí, ele continuou na espionagem sem inteligência e não se matou porque a palavra fracasso não existia em seu vocabulário, de tão curto que ele era. 

Já Martinez Sanchez, em condições obscuras nomeado Ministro do Trabalho, condições em que sempre operou Raul Castro, no poder por procuração, não se manteve no cargo. Os comunistas não só o deixaram cair como bosta quente, como pediram sua renúncia. Quando Sanchez soube que o forçariam a se demitir, fechou-se em seu escritório, sacou sua pistola e deu um tiro no peito. Não morreu. Com sua imperícia habitual salvara a vida, mas não a honra. Todavia, a partir daí, não mais conseguiu escamotear sua situação histórica, pois um suicida cubano frustrado era como um samurai com uma espada de pau.

Javier de Verona pertencia à alta burguesia de Havana, aquela que havia sido decisiva para a ascensão de Fidel Castro ao poder. Javier tornou-se de extrema-esquerda e, em algum momento, colaborou com a Segurança do Estado como informante. Num determinado dia de 1970 – depois do fiasco da fabulosa colheita de 10 milhões de toneladas de açúcar, sonhada como um impossível possível por Fidel Castro – redigiu um documento analisando minuciosamente as causas que levaram a esse desastre econômico, agrícola e humano, chegando à conclusão - conhecida por todos sem necessidade de qualquer análise – que o grande responsável pelo fracasso máximo havia sido o Máximo Líder, Fidel Castro. Dois dias depois, Javier de Verona estava detido, incomunicável. Uma semana depois cometeu o suicídio, dentro de sua cela, com um tiro. Nunca se soube, novamente, como havia conseguido a arma.

Um caso mais estranho que o de Javier de Verona foi o de Nilsa Espin, irmã de Vilma Espin (mulher de Raul Castro), membro do Comitê Central do Partido Comunista Cubano e presidente da Federação de Mulheres Cubanas. Vilma Espin tornou-se revolucionária pelo mais puro acaso, pois servira de mensageira entre Frank País, em Santiago, e Raul Castro, na montanha, serviço postal que para uma linda mocinha rica, de bom nome, era um passeio pela sombra. 

Com a vitória da Revolução, Nilsa também se casou, mas escolheu um obscuro rebelde que era uma espécie de Trotsky cubano e trabalhava na reforma agrária em Pinar del Río. Num belo dia de 1969, para assombro de todos, menos de Raul Castro, deu um tiro na têmpora. Quando Nilsa soube, em Havana, no escritório de Raul Castro, fechou-se no banheiro, sacou da pistola e se suicidou. O governo revolucionário, com o controle total da imprensa, do rádio e da televisão, não divulgou a notícia. Vilma Espin nunca explicou nada a ninguém e continua revolucionária.

Alberto Mora era filho de Menelao Mora, um dos chefes do assalto ao Palácio Presidencial de Fulgêncio Batista, realizado após o assalto ao Quartel Moncada, em 1953, que morreu na ocasião. Nominalmente comandante rebelde, Alberto, após a Revolução, protegido por Che Guevara, foi nomeado Ministro do Comércio Exterior. Após a morte de Che, em 1967, Mora caiu em desgraça. Foi destituído e transformado em um burocrata. Por fim, em desgraça total, foi convidado a trabalhar numa granja como “voluntário”. Não suportando a suprema humilhação, suicidou-se com um tiro com a sua velha pistola militar.

Miguel Angel Quevedo herdou de seu pai uma revista literária de escassa circulação chamadaBohemia, revista que existe até hoje. Miguel Angel transformou a revista num semanário popular, cru e sensacionalista, de oposição a Batista, em 1940. Em seguida, Quevedo apoiou Fidel Castro, quando ainda na Sierra Maestra, antes de sua chegada ao poder. Em 1959, logo após a vitória da Revolução, Quevedo imprimiu em sua revista um desenho (colorido, de página inteira) de Fidel Castro, em que Castro se parecia, com suas barbas, não com um Marx possível, mas com outro judeu impossível: Jesus. Anos depois, exilado e arruinado, na Venezuela, matou-se com um tiro na têmpora, deixando uma carta editorial que terminava assim: “Me mato porque Fidel me enganou”. É óbvio que Miguel Angel não se suicidou por ter sido enganado por Fidel, mas por ter participado desse engano, e por seu próprio desengano.

A chilena Beatriz Allende, filha e confidente do presidente Allende, casou-se com um indefinido Adido cubano, Luis Fernández de Oña, bem-apessoado e modesto, que durante o governo Allende esteve no Chile.  Com pouco tempo de casada, Beatriz descobriu o segredo de seu marido: era Capitão da Segurança de Estado em Cuba e estava no Chile com a missão de proteger o presidente Allende. Quando Allende foi deposto, o casal, amparado pela imunidade diplomática, viajou para Cuba. Em pouco tempo se separaram. Beatriz passou a viver sozinha, sem poder sair de Cuba, atrás do sinistro mas aparentemente agradável QG dos Serviços do G2, no elegante bairro de Miramar, em Havana. Algum tempo depois, Beatriz Allende deu um tiro na têmpora. O informe oficial do governo cubano falou em depressão e neurose.

Tempos depois, Laura Allende, tia de Beatriz, que também vivia em Havana, se atirou do 16º andar de um edifício. Desta vez, o Granma explicou que a suicida “estava doente de um mal incurável” O “mal incurável” era a tirania de Castro. A nota do Granma não disse que Laura tentava sair de Cuba havia meses, para curar o “mal incurável”.

O escândalo, sem precedentes diplomáticos, do asilo em massa na embaixada do Peru em Havana, em 1980, provocou o súbito exílio de escritores que se encontravam em turnê oficial pelo exterior. Alguns deles trabalhavam na Casa de las Américas, sob a chefia de Haydée Santamaría, a única mulher a participar do assalto ao Quartel Moncada, ocasião em que morreram seu irmão, Abel Santamaría e seu namorado Boris Santa Coloma. Haydée era uma das mulheres mais sólidas no apoio incondicional a Fidel Castro e sua confidente em perigosas intimidades políticas, considerada heroína do regime por várias vezes. Haydée, subitamente, em seu escritório, pegou seu Colt 45, levou-o tranqüilamente à boca, como se fosse uma xícara de chá e estourou seus miolos no dia 26 de julho de 1980, aniversário do ataque ao Quartel Moncada.

Haydée, uma enfermeira, cuja falta de inteligência andava lado a lado com uma enorme ignorância, fundou, dirigiu e controlou, durante 20 anos, a Casa de las Américas, organização que infiltrava sutilmente agentes em diversos países da América do Sul e do Norte, bem como oferecia refúgio a não poucos amigos de Cuba. Além da confiança pessoal e política de Fidel Castro, Haydée era casada com Armando Hart Dávalos, Ministro da Cultura, homem com o qual podia se entender perfeitamente através do abismo de suas respectivas culturas. Parecia, então, não haver motivos para o suicídio, pois é impossível que um tedium vitae a atacasse. Mas seria possível que sofresse de um tedium do Poder, pois, afinal, o Poder absoluto desilude por completo.

Há outros suicídios menos conhecidos, como o do comandante Pena, que também recorreu à pistola, ao gatilho e à bala na têmpora. Ou o comandante Eddy Suñol, herói da guerrilha emSierra Maestra que chegou a ser vice-ministro do Interior.
Essas mortes são, além de possíveis, inevitáveis numa Revolução cuja única contribuição contundente à literatura revolucionária foi o lema “Pátria ou Morte”, uma derivação grosseira de velhos lemas cubanos e do anúncio, ainda visível em 1959, em moedas de prata, de “Patria y Libertad”. 

Mas parece que tudo deve retornar a Martí se falamos de Cuba e de morte. Foi ele quem terminou sua famosa chamada à luta, no Manifesto de Montecristi, com uma frase lúgubre: “La Victoria u el Sepulcro”. E Fidel Castro sempre salienta, ao fim de seus intermináveis discursos, se não a idéia, pelo menos a fúria fatal “Pátria ou Morte” e, outras vezes, “Socialismo ou Morte”, com sua voz aguda e agourenta.

Dados bibliográficos

Livro “Mea Cuba”, Gullermo Cabrera Infante, editora Companhia de Letras, 1992.


Carlos I. S. Azambuja é Historiador.

3 comentários:

Ronald disse...

Sem novidade, Cuba é um lixo supremo e seu povo não pode ser diferente disso !

Loumari disse...

Só um verdadeiro sábio brasileiro para julgar o país do outro de lixo. E o Brasil o que é? UM VERDADEIRO ABISMO.
Cuba é tão lixo que o gigante Brasil com mais de 200 milhões de indivíduos estão humilhados e prostrados aos pés da minúscula Cuba.
É este o orgulho de ser brasileiro? Não há aqui algo de muito vergonhoso?

Ultra 8 disse...

Onde tem judeu no poder,só pobreza viceja! banqueiros são judeus, revolucionários são judeus...estamos sem saída!