quinta-feira, 23 de abril de 2015

A situação dos bancos europeus


Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Arthur Jorge Costa Pinto

Parece uma ficção, mas é uma realidade que está acontecendo com os bancos europeus -passaram a remunerar os clientes que queiram tomar um empréstimo. Explica-se este fato pela gravidade da situação econômica que atravessam,enfrentando grandes obstáculos para realizar seus empréstimos. Por incrível que pareça, o Banco Central Europeu (BCE) atualmente está cobrando dos bancos que queiram confiar seus recursos a ele.

Neste ambiente de baixas taxas de juros que o continente europeu vem experimentando,com uma inflação situando-se bem abaixo da meta prevista e tendo em vista uma possível deflação como um dos riscos em potencial para o bloco econômico, sem dúvida,um contexto muito delicado, a saúde das instituições financeiras que ali operam fica ainda mais comprometida.

Na Europa, a vida não está fácil para alguns bancos no momento em que vão emprestar dinheiro. A taxa básica de juros exercida pelo BCE encontra-se estagnada em zero e até mesmo abaixo de zero (negativa), desde que ele lançou as medidas na tentativa de impulsionar a economia na Zona do Euro, incluindo um corte em sua própria taxa de juros sobre os depósitos.

Avaliamos que os clientes não são remunerados adequadamente,chegando ao ponto em que têm até que pagar para deixar suas reservas aplicadas nos bancos. Além disso, as instituições bancárias enfrentam constantemente um sério impasse, entre não realizar empréstimos ou fazê-lo, assumindo um elevadíssimo risco de perder dinheiro.

Em todo o continente europeu, os bancos estão sendo levados a redesenhar seus programas informatizados, atualizar documentos legais e reorganizar planilhas que possam contabilizar as oscilações das taxas negativas.

Com a ausência de tomadores, os bancos se vêm forçados a repassar uns aos outros os recursos no mercado interbancário,em diferentes prazos que variam de um dia até um ano.Definem as taxas de juros pelo que cobram em muitos empréstimos, através de um pequeno percentual acima ou abaixo de um valor de referência denominado Euribor (Euro Interbank Offered Rate), adotado a partir de 1999 com a introdução do Euro.

Em algumas ocasiões, a Euribor tem se apresentada negativa. Uma vez nesta situação, milhares de contratos de empréstimos serão impactados e poderão ocasionar uma robusta perda aos bancos credores. Atualmente, está sendo negociada a 0,078% para o prazo de seis meses.

Inicialmente,as instituições bancárias procuraram seus bancos centrais para receber orientações e até mesmo para suavizar seus prejuízos.O Banco Central de Portugal recentemente determinou que os bancos terão que pagar sobre os empréstimos existentes caso a Euriborsitue-se no território negativo, ou melhor, inferior a zero.

Para que se tenha uma pequena ideia, em Portugal existem aproximadamente 2,3 milhões de contratos hipotecários, sendo que mais de 90% estão vinculados à Euribor com juros variáveis. O BCE divulgou que os bancos têm plena liberdade para adotar “medidas de precaução” em contratos futuros.

A situação se agrava ainda mais em países como Grécia, Espanha e Portugal,em função dos seus títulos públicos que se encontram desvalorizados e, consequentemente, sem demanda no mercado. As economias na região do euro encontram-se literalmente enfraquecidas, próximas a uma recessão ou também a uma indesejável deflação, tornando-se ainda mais desfavorável as operações com empréstimos, em função de não se saber para onde direcioná-los, o que deixa os bancos numa situação paradoxal, infelizmente sem ter a quem emprestar.

Segundo alguns analistas, ao menos um banco espanhol, o Bankinter S.A., o sétimo maior do país em valor de mercado, vem remunerando com juros alguns de seus clientes em seus títulos de hipotecas que são descontados do montante principal do devedor.

Para finalizar, uma relevante consideração a ser feita: os bancos europeus devem um valor significativo de suas dívidas soberanas, valores tão elevados que preocupações relativas à solvência do sistema bancário e dos governos estão reforçando negativamente a percepção sobre a possibilidade de não estar próxima, uma solução para a crise que se alastra há algum tempo.


Arthur Jorge Costa Pinto é Administrador, com MBA em Finanças pela UNIFACS (Universidade Salvador).

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