terça-feira, 28 de abril de 2015

Incertezas quanto ao futuro da Petrobras


Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Arthur Jorge Costa Pinto

Após um longo e tenebroso inverno de expectativas negativas representou certamente um pouco de alívio para o mercado financeiro a publicação do balanço da Petrobras e os planos destinados para este exercício que,a meu ver, trouxeram aos investidores mais dúvidas do que respostas sobre o futuro da petroleira.

Inicialmente, durante uma conferência, seu Presidente não explicou dois pontos fundamentais:como diminuir sua expressiva dívida bruta (R$ 351 bilhões, um aumento de 31% em relação a 2013), que só tende a aumentar com a desvalorização do real, já que em boa parte do seu passivo predomina a moeda estrangeira e, sobretudo,como restabelecer sua credibilidade completamente aniquilada a partir do inconsequente primeiro desgoverno da economista Dilma.

Resgatar a confiança perdida demanda um tempo razoável e envolve ações concretas. A Petrobras no passado se comprometeu com decisões políticas que hoje impedem a sua confiabilidade, como no ano passado, ao retardar o repasse na alta dos custos do petróleo para atender ao compromisso eleitoreiro da seita petista, visando exclusivamente não prejudicar a reeleição de Dilma e impedir a ultrapassagem da inflação do limite superior da sua meta, hoje plenamente evidenciada e ascendente.

Há alguns meses, o preço do petróleo oscila em um patamar de valor baixo e a empresa não pode transferir essa redução, porque se encontra acorrentada a um compromisso para recuperar, o mais rápido possível, a incontestável decomposição do seu caixa. O prejuízo bilionário apurado pela empresa foi bem superior ao que os investidores esperavam, fortalecendo ainda mais a insegurança em torno deles.

A sensação deixada pelas entrevistas direcionadas ao mercado após a divulgação do balanço está parcialmente associada às novas diretrizes da estatal que não surpreenderam,por evidenciar poucos fatos definidos que possam vir a abrandar os problemas e apresentarem pouco tempo uma consistente estratégia na regressão da sua alavancagem em consonância com outras métricas do plano.

Insinua sutilmente não ser ela uma das prioridades neste momento, mesmo diante da forte turbulência que estamos atravessando com a estagnação em nossa economia. As atuais orientações da companhia não foram muito diferentes dos discursos enganosos praticados nos últimos quatro anos.

Alguns pontos são relevantes e devem ser percebidos: a Petrobras deixou nas entrelinhas que não divulgará uma nova política de reajuste de preços dos combustíveis que seria imprescindível para compatibilizara similaridade entre os preços do mercado interno com o externo. A desaceleração no crescimento da produção está projetada em 4,5% para 2015 e 2,8% no próximo ano.Situação preocupante.

Com relação aos investimentos, os atuais gestores da empresa julgam ser difícil a sua redução, mantendo-os em US$ 29 bilhões para este exercício e US$ 25 bilhões para 2016. A amortização das dívidas através da venda de ativos ficou aparentemente escamoteada como uma das possíveis alternativas. Da meta estabelecida em US$ 14 bilhões somente US$ 3 bilhões deverão ocorrer ainda este ano e o restante, após uma avaliação,quando projetará o montante a ser perseguido para o ano subsequente.


Outra questão para destacar, que já está praticamente confirmada,é que não serão pagos os dividendos referentes ao exercício de 2014, mesmo que a empresa fique coagida pelos riscos legais implicados através de uma determinação judicial caso os acionistas procurem este legítimo caminho. Pretende-se remunerar os acionistas através de dividendos e juros sobre o capital próprio referente a 2015, se houver resultados positivos ao final deste ano, como sempre fez.

A Fitch Ratings (agência de classificação de risco) imediatamentese pronunciou na semana passada após a divulgação do balanço,mantendo a nota para os títulos de dívida da Petrobras em “BBB-“, o nível mais baixo de investimentos que podem ser considerados seguros.

Embora conservando sua nota, a agência ainda retirou da nota daestatal brasileira uma observação que advertia sobre a possível queda da qualificação pelos problemas financeiros que a companhia petrolífera enfrenta, por já não considerá-lo iminente. Entretanto, manteve como negativa sua perspectiva relacionada às notas de crédito da Petrobras, o que significa que a qualificação poderá ser rebaixada em um período entre 12 e 24 meses.

Após cinco meses de vários adiamentos na publicação dos últimos demonstrativos contábeis referentes aos últimos trimestres e o anual do exercício 2014,em virtude da necessidade de encontrar uma metodologia crível recomendada pela PwC-PricewaterhouseCoopers,empresa contratada que auditou demonstrações financeiras da estatal,foi encontrada uma solução para proceder uma baixa contábil proveniente da corrupção comprovada nos últimos anos através de frequentes assaltos aos cofres da petrolífera.

A empresa terminou apresentando o seu maior prejuízo desde 1991,quando a estatal registrou perda de R$ 1,2 bilhão, segundo dados ajustados pela inflação. Foi considerado também pela consultoria Economática o pior resultado desde 1986 entre todas as empresas com ações negociadas na Bolsa.


Surpreendem algumas inconsistências apresentadas, a começar pela incompatibilidade entre o nível elevado dos investimentos para 2015 (US$ 29 bilhões) e a desprezível meta de desinvestimento da companhia. Outro equívoco está relacionado com a produção declinante, que torna o processo de desalavancagem uma incógnita a ser comentada pelos analistas econômicos.

Alguns deles defendem para este momento, uma oferta pública de ações como o único caminho definitivo para fortalecer a estrutura de capital, com a troca parcial de recursos de terceiros por dinheiro de acionistas, que já foram amplamente lesados na última subscrição anunciada pela petroleira em agosto de 2009, visando especialmente, à exploração do pré-sal.

Infelizmente o que se viu foi a situação ser corroída rapidamente pelas mãos enlameadas de corrupção dos que manuseiam os recursos públicos da nossa Nação.

É compreensível a iniciativa, mas não sei se este é o momento adequado para sugerir tal procedimento, principalmente em função dos ajustes fiscais, uma prioridade em andamento que se torna indispensável para o nosso equilíbrio econômico.

A imagem da organização encontra-se completamente deteriorada entre os investidores de dentro e fora do Brasil e ainda pairam grandes dúvidas sobre a capacidade de gestão desta nova diretoria em demonstrar a comprovada competência que impõe uma gestão exemplar para geração de caixa. Neste ambiente, ainda circula com desenvoltura o danoso Lava Jato que até então, não teve o seu efeito devastador completamente clarificado.

Como vimos, temos pontos suficientes para delimitar a fraqueza da Petrobras no curto e médio prazo, embora a divulgação do balanço tenha sido uma iniciativa atrasada, porém positiva, mas isso jamais afastará as eventuais e possíveis adversidades.

Portanto, fica aqui uma humilde sugestão aos que investem em ações, relembrando o inesquecível cronista social carioca Ibrahim Sued com uma de suas frases de impacto que sempre utilizava nas suas crônicas mundanas - “olho vivo, cavalo não desce escada”.


Arthur Jorge Costa Pinto é Administrador, com MBA em Finanças pela UNIFACS (Universidade Salvador).

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