sexta-feira, 24 de abril de 2015

O nascimento da Frente Patriótica Manoel Rodriguez


Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Carlos I.S. Azambuja

Num dia de junho de 1974, apenas 9 meses após a deposição do presidente Salvador Allende, chegou a Havana o dirigente do Partido Comunista Chileno no exílio Volodia Teitelboim, que estava radicado em Moscou e liderava o partido em substituição ao Secretário Geral Luis Corvalan, preso na ilha de Dawson, no Chile.

Teitelboim foi recebido no aeroporto por Rodrigo Rojas, Orel Viciani e Julieta Campusano, membros do Comitê Central que viviam em Cuba. Enquanto a Junta Militar removia o entulho comunista que por cerca de 3 anos havia se assentado no Chile, a esquerda buscava recompor-se, tanto no exterior como dentro do país.

A principal atividade de Teitelboim em Cuba foi uma reunião no Palácio da Revolução, acompanhado por Rodrigo Rojas, com Fidel Castro, que os recebeu acompanhado de seu irmão Raul Castro, segundo homem do regime, Manuel Piñero Losada, chefe da Inteligência cubana e maior implicado em exportar a revolução para toda a América Latina, e o vice-Primeiro Ministro Carlos Rafael Rodriguez. Com exceção de Raul Castro, todos haviam estado no Chile durante o governo de Salvador Allende.

Os interlocutores chilenos, por seu lado, estavam marcados por uma derrota que o mundo socialista lhes cobrava diariamente, pois não haviam sido capazes de fazer a revolução chilena e de resistir ao golpe militar. Essa culpa era mais forte no caso do Partido Comunista, o único grupo de esquerda que havia apostado todas as fichas na revolução através da "
via legal"implementada por Allende. Esse caminho havia provocado fortes rusgas com seus anfitriões cubanos.

Fidel Castro, frente a seus perplexos interlocutores, apresentou sua proposta para reverter a derrota: iniciar, em Cuba, um ambicioso processo de formação de jovens comunistas chilenos, que seriam admitidos em escolas de formação do exército cubano, com a finalidade de graduar-se como oficiais de carreira. "
Esses rapazes serão formados para que não volte a ocorrer a derrota de 1973", argumentou Castro, assegurando que os objetivos dos novos militares seriam "defender o futuro governo democrático ... Serão militantes seus, porém eu serei o responsável por dar-lhes a formação militar que estime conveniente".

Até então, Havana havia instruído em suas escolas de guerrilha centenas de militantes chilenos do Movimiento de Izquierda Revolucionária (MIR), porém pela primeira vez oferecia uma formação militar completa, cem por cento profissional. O exército cubano contava com centenas de assessores soviéticos, altamente qualificados. "
Todos os nossos oficiais pensam em russo", disse, orgulhoso, Raul Castro.

Teitelboim e Rodrigo Rojas aceitaram e agradeceram a inesperada oferta. Fidel, antes de abandonar a sala, assinalou: "
Este acordo será guardado em minha caixa forte, porque é a data de nascimento de um novo exército democrático no Chile".

A matéria acima faz parte de uma série de capítulos publicados no início dos anos 90 pelo jornal chileno "
La Tercera", abordando as atividades do MIR e da Frente Patriótica Manuel Rodriguez durante as décadas de 70 e 80, no Chile e no exterior, onde os grupos armados chilenos receberam decisivo apoio em treinamento militar em Cuba, Bulgária, Alemanha Oriental e União Soviética.

Nas escolas militares chilenas foram formados cerca de 200 "
oficiais" chilenos. Maurício Hernandez Norambuena, que aparentemente foi o chefe dos seqüestradores de Washington Olivetto (libertado pela Polícia em São Paulo, em 2 de fevereiro de 2002, após 53 dias de confinamento) é um desses "oficiais". Cerca de 70 deles lutaram, e alguns morreram, na Nicarágua, integrados à Frente Sandinista de Libertação Nacional. Muitos voltaram clandestinamente ao Chile e foram presos ou mortos, ou tiveram de exilar-se novamente.

Antes disso, no entanto, levaram a cabo numerosas ações, como a tentativa de assassinato do general Pinochet em 1987, o seqüestro do coronel do exército chileno Carlos Carreño, libertado em São Paulo, o assassinato do senador Jaime Guzman, o seqüestro do filho do proprietário do jornal chileno "El Mercúrio" e, já como "
mão de obra ociosa", no exterior, cerca de 10 outros seqüestros no México, Panamá, Espanha e Brasil. O Serviço de Inteligência Cubano sempre esteve por trás de todas essas atividades, fazendo o planejamento das ações e fornecendo o armamento utilizado, despachado para os diversos países através da mala diplomática, em troca da divisão do dinheiro obtido.

Foi, portanto, Fidel Castro, o responsável maior pelo surgimento, em 1983, da Frente Patriótica Manuel Rodriguez, como braço armado do Partido Comunista Chileno, do qual se desligou em 1987, passando a agir por conta própria, e depois, derrotada a luta armada no Chile, como braço operacional do Serviço de Inteligência Cubano em toda a América Latina.

Carlos I.S. Azambuja é Historiador.

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