quarta-feira, 27 de maio de 2015

Cortar o Mal pela Raiz


Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Carlos I.S. Azambuja

(Vale a pena ler de novo, apesar da crítica negativa de Janer Cristaldo, falecido em 2014, “expulso do Mídia Sem Máscara a pedido de leitores judeus, por ser mais anti-semita do que poderia justificar mediante a exibição de um mero atestado de insanidade mental”,  segundo Olavo Carvalho)
Uma resenha do livro "Cortar o Mal pela Raiz!", obra que amplia o conteúdo de "O Livro Negro do Comunismo".

O Livro Negro do Comunismo, escrito por seis autores: Stéphane Courtois, Nicolas Werth, Jean-Louis Panné, Andrzej Paczkowski, Karel Bartosek e Jean-Louis Margolin, foi editado em Paris em 1997 e em 1999 no Brasil. Tem 917 folhas. Teve 26 traduções e um milhão de exemplares vendidos.
Por falta de espaço, teve de limitar seus propósitos aos fenômenos mais intensos da criminalidade comunista - URSS, China e Camboja -, deixando apenas uma parte mesquinha para o Leste Europeu, o Komintern, a África, a América Latina e o Afeganistão. Assim, seguindo a lógica e os princípios de historiador, era indispensável retomar o trabalho e aprofundar os fenômenos algo abandonados e mesmo subestimados.

Essa lacuna está sendo agora preenchida com o livro Cortar o Mal pela Raiz! - História e Memória do Comunismo na Europa, escrito por 16 autores sob a direção de Stéphane Courtois. Editado em Paris em 2002 e no Brasil em 2006.

Por que Cortar o Mal pela Raiz? [*] O título original do livro - Du Passé Faisons Table Rase! (Façamos Tabula Rasa do Passado!) foi retirado de um dos versos da Internacional, hino mundial dos comunistas e socialistas, cuja letra foi composta pelo francês Eugène Pottier. A idéia é a de que chegava a hora de os oprimidos em geral se levantarem contra toda forma de exploração advinda do Estado capitalista e começarem a implantar as bases de um mundo novo, difundindo o socialismo pelo planeta, fazendo assim tabula rasa do passado. O verso original francês foi vertido para o nosso idioma por Neno Vasco (1878-1920) - anarquista português radicado no Brasil - como Cortai o mal bem pelo fundo (o tradutor preocupava-se também com a exigência prosódica da rima com a palavra mundo).

A editora Bertrand do Brasil optou por preservar o espírito do verso, que é o de cortar o mal pela raiz, imagem que não deixa de ter relação com o terror assassino posto em prática pelos regimes comunistas em geral.
De um
 putsch vitorioso no país mais atrasado da Europa, promovido por uma seita dirigida por um chefe audacioso, a conjuntura fez um evento modelo destinado a orientar a História de muitos países e multidões durante 74 anos. Esse foi o comunismo. Ele já morreu, mas ainda não foi sepultado.

Segundo o intelectual francês Edgar Morin, que abandonou o comunismo, "O stalinismo não constituía apenas um erro, um desvio, um engodo político. Era algo ainda pior: uma mutilação e uma mutação do homem que punha em causa os próprios fundamentos da existência".
Em 23 de agosto de 1991 os telespectadores soviéticos, e depois os do mundo inteiro, assistiram, horrorizados, a um espetáculo inimaginável: o todo-poderoso Secretário-Geral do todo-poderoso Partido Comunista da União Soviética, Mikhail Gorbachev, recém-liberado das férias forçadas determinadas por uma tentativa de
putsch tramada pela KGB e por dirigentes do partido, que durou dois dias, se vê publicamente intimado a calar-se por Boris Yeltsin, ex-membro do Politburo, que um ano antes havia se demitido do partido, tendo sido eleito, depois, por sufrágio universal, presidente da Rússia.

Humilhado, no dia seguinte Gorbachev pediu demissão do cargo de Secretário-Geral e do partido, mas, antes disso, proibiu a existência do PCUS no Exército e nos organismos do Estado. Em 25 de dezembro, às 19:30 horas, a bandeira vermelha com a foice e o martelo que desde 1917 flutuava sobre o Kremlin, foi substituída pela bandeira tricolor da Rússia. Assim desapareceu o primeiro regime comunista após 74 anos de poder absoluto sobre as coisas e as pessoas, derrubando consigo o Sistema Comunista Mundial.

Antes disso, no entanto, Gorbachev ainda teve tempo de responder a uma pergunta do repórter Ted Koppel, da rede de televisão norte-americana ABC: "O que se passa na alma do senhor agora?"Resposta de Gorbachev: "Respondo com a parábola de um rei que encarregou os sábios de descobrirem qual é o segredo da sabedoria. Depois de passarem a vida viajando e de redigirem 40 volumes, os sábios finalmente trouxeram a resposta para o rei. Mas o rei estava morrendo. Para não perder tempo eles resumiram tudo em uma frase: O homem nasce, sofre e morre" (Andrei Gratchev, assessor e porta-voz de Gorbachev, livro L´Histoire Vraie de La Fin de L´URSS - A História Real do Fim da União Soviética).

O Sistema Comunista Mundial, assim denominado em 1984 por Annie Kriegel, era composto por vários círculos concêntricos. No centro - na origem e desde a origem - reinavam o Partido-Estado soviético e seu regime totalitário: o partido único, a ideologia obrigatória, o controle absoluto da mídia e do ensino, o monopólio dos meios de produção e de distribuição, o terror ou a sua ameaça permanente, o duplo fechamento do país tanto para os estrangeiros que desejassem entrar, quanto para os nacionais que aspirassem sair.

Na primeira periferia do Partido-Estado fundador, situava-se aquilo que Brejnev denominava de Comunidade de Estados Socialistas. Ao final do período socialista, a partir de 1991 - dos dezessete países do Leste e do Centro da Europa, apenas um está integrado a um Estado democrático: a ex-RDA. Claramente orientados para o modelo democrático e para a economia de mercado, nove outros aspiram fazer parte da Comunidade Econômica Européia: Polônia, República Checa, Hungria, Eslováquia, Croácia, Eslovênia, Letônia, Estônia e Lituânia. Dois países estão em fase de aclimatação a esse modelo: Romênia e Bulgária.

A Albânia vive uma relativa anarquia, ao passo que a Sérvia viu cair o último ditador comunista, Slobodan Milosevic, sucessor direto de Tito e inventor de um tipo de nacional-comunismo, ultranacionalista do ponto de vista ideológico e comunista na sua forma de funcionamento e no de seus responsáveis. O Kosovo, a Bósnia e a Macedônia estão numa situação difícil, mas sob o amplo controle da OTAN. Também nesse caso, entrou em colapso todo o dispositivo político, militar e econômico com o qual a URSS assegurava seu poder comunista na Europa Central e Oriental.

A velocidade com que a maior parte das sociedades está recuperando suas raízes e suas características no cenário europeu mostra, como se necessário fosse, o caráter artificial da presença comunista que, em última instância, repousava apenas na ameaça do Exército Vermelho.
Na África e na América, os poucos regimes comunistas ainda existentes em 1991 sofreram bastante com o colapso do sistema soviético. Apenas Cuba mantém, em condições bastante paradoxais de ser em parte financiada pelo turismo "
capitalista", um semblante de regime comunista cujo futuro torna-se uma incógnita depois que Fidel Castro e seu irmão tiverem desaparecido.

No panorama asiático, o comunismo mantém-se. A Coréia do Norte permanece sendo o regime mais totalitário do planeta. Vietnã e Laos ainda estão bastante fechados, enquanto que o colapso definitivo doKhmer Vermelho, marcado pela morte de Pol Pot e pela decisão do governo cambojano de intentar contra os principais dirigentes khmer vermelhos um processo por crimes contra a humanidade, produziu um golpe no prestígio do comunismo no Sudeste Asiático.

Um fato decisivo, no entanto, é a evolução da China. O regime de partido único ainda persiste naquele país, embora a ideologia maoísta seja diariamente confrontada com transtornos econômicos e sociais que abalam o país desde que uma economia parcialmente orientada para a concorrência - o "socialismo de mercado" - foi autorizada. O regime está estremecido em seu fundamento ideológico pela penetração significativa do capitalismo em todas as esferas da sociedade, inclusive no coração do Partido Comunista, e também pelo colapso consecutivo de amplos segmentos da antiga indústria pesada. Nesse sentido, os chineses parecem ter tirado lições da catástrofe gorbacheviana: afrouxam as rédeas no plano econômico, mas ainda as mantêm fechadas nos domínios político e ideológico, como demonstrou a repressão contra os estudantes na praça Tian´anmen, em maio e junho de 1989. 

Essa solução evita uma implosão ao estilo soviético, mas não poderá ser mantida por muito tempo, pois a economia de mercado acomoda-se mal, num longo prazo, com a persistência de um enorme setor estatizado, amplamente obsoleto e com a ausência de um mínimo de democracia.
Depois dos
 Partidos-Estados, a segunda periferia do sistema comunista mundial compunha-se dos partidos comunistas que não se tinham apoderado de um Estado e que foram, de 1919 a 1943, organizados no coração da Internacional Comunista (Komintern), sendo depois integrados a um dispositivo de relações bilaterais com o "partido irmão" soviético bastante coercitivo até 1953, quando morreu Stalin.

A partir de 1992, a abertura dos arquivos doKomintern, em Moscou, mostra cada vez mais claramente até que ponto Stalin havia estabelecido um estreito controle sobre cada partido comunista, uma vez que os partidos mais importantes a seus olhos eram os mais submissos ao PCUS: o partido alemão até 1953, o partido francês a partir de 1934-1935, o partido espanhol de 1936 a 1939, o partido italiano depois da guerra, e ainda o partido comunista norte-americano, bastante subvencionado.

Para todos esses partidos, Moscou foi um modelo político, ideológico e organizacional, além de promover um suporte financeiro decisivo. O colapso brutal do Estado soviético, em dezembro de 1991, no Dia do Natal, foi um verdadeiro terremoto. Alguns desses partidos praticamente desapareceram: na Bélgica, na Noruega e na Grã-Bretanha. Outros aceleraram o abandono público do comunismo, como o Partido Comunista Italiano, que tornou-se Partido da Esquerda Democrática, ou o partido sueco, que passou a ser Partido da Esquerda.

A maior parte dos demais partidos comunistas da Comunidade Européia se divide, desde então, em fiéis ao comunismo tradicional - Portugal, Grécia, Refundação Comunista na Itália, Espanha -, sustentados pela clientela de operários e camponeses tradicionais e por uma ideologia anticapitalista e revolucionária, e aqueles que tentam "transmutar", como o Partido Comunista Francês. 

Tanto num caso como no outro, esses partidos se dirigem a passos largos para a marginalização, pois a baixa militância é ampla e contínua tanto no quesito quantitativo, quanto em intensidade. Além disso, o fim dos subsídios de Moscou - a famosa ajuda fraternal - foi acompanhado pelo fim das comissões financeiras das empresas de importação-exportação com os países do Leste, impossibilitando muitas vezes a manutenção dos comunistas profissionais que conformam o aparelho do partido e daqueles que recebem remuneração para as tarefas de agit-prop (isso também aconteceu no Partido Comunista Brasileiro).

Após dez anos da derrocada do desaparecimento da União Soviética ficou comprovado - se é que fosse necessário - que a vitalidade desses partidos devia-se apenas à tal ajuda fraternal e política que sempre receberam da pátria do socialismo.

Resta abordar a terceira periferia assinalada por Anne Kriegel: o sistema de alianças orquestrado em nível mundial por Moscou. A primeira havia sido a aliança sindical, inaugurada em 1920 pelaInternacional Sindical Vermelha (ou Profintern), que agrupava em todo o mundo os comunistas que trabalhavam aberta ou clandestinamente no campo operário ou sindical.

A partir de 1945, ela foi encampada pela Federação Sindical Mundial (FSM) - que existe até hoje - fortalecida pela adesão de dezenas de milhões de operários sindicalizados obrigatoriamente nos países comunistas e à qual se uniram as centrais italiana (CGIL) e francesa (CGT), controladas por comunistas. Após 1991 esse dispositivo ruiu e o quase desaparecimento da FSM e acompanha a dissolução do grande mito proletário e operário.

O segundo dispositivo do sistema de alianças repousava sobre o tema da Paz, agregando, em torno das posições pseudo-pacifistas dos bolcheviques, depois as do Komintern e, finalmente, as da URSS e do "Campo Socialista", as boas - ou "menos boas" - almas vindas de horizontes políticos e culturais bastante diversos. Essa aliança, dentro da qual o Movimento pela Paz era o carro-chefe durante a Guerra Fria e principalmente durante a chamada crise dos euro-mísseis, em 1984. Nesse caso, mais uma vez, a ruína soviética acarretou um quase desaparecimento do dispositivo.

E isso foi possível constatar quando os comunistas tentaram, em vão, mobilizar a opinião pública contra a Guerra do Golfo e, depois, contra a intervenção da OTAN no Kosovo ou dos norte-americanos no Afeganistão, embora seja verdade que a agressão da URSS contra esse mesmo Afeganistão, em 1979, tenha maculado consideravelmente a imagem pacifista acalentada pelos comunistas soviéticos.

Também o anti-fascismo - uma brilhante encenação dos comunistas - foi apresentado durante décadas como um amplo movimento mundial, espontâneo, grandioso, maravilhoso! Anti-fascismo tornou-se um mito cativante da esquerda. Esse mito possibilitou aos comunistas "se reintegrarem à ordem democrática e se apropriarem da própria idéia democrática, tendo êxito em separar o liberalismo da democracia" (O Passado de uma Ilusão, François Furet, editora Siciliano, 1995). Observe-se que o antifascismo permanece até hoje como uma das principais bandeiras políticas da esquerda e da extrema-esquerda.

Enfim, a partir da década de 20 até os anos 80, a URSS e o movimento comunista apoiaram, com maior ou menor ardor, segundo o momento, os movimentos de libertação nacional que perderam uma grande parte do seu vigor depois da liquidação definitiva de todos os grande impérios coloniais, passando a não encontrar mais vantagens numa aliança com uma potência russa já muito enfraquecida.

Paradoxalmente, os últimos movimentos ainda ativos são aqueles que dizem respeito à descolonização do Império Soviético na Ásia Central. A tentativa dos bolcheviques desde o famoso Congresso dos Povos do Oriente, em Baku, em 1920, de reivindicar a ideologia da libertação nacional para melhor captar a energia desse movimento e controlá-lo, fracassou.

Em menos de 10 anos, a paisagem do comunismo internacional sofreu enorme transtorno e com uma rapidez que espantou os observadores. Se Andropov ou Tchernenko, os dois predecessores de Gorbachev à frente do PCUS, viessem revisitar nosso mundo, ficariam perdidos e, ao mesmo tempo, aterrorizados ao verem esse terremoto político que modificou radicalmente as condições a partir das quais os especialistas e a opinião pública percebiam aquele sistema absurdo, considerado irreformável, imutável, irreversível e indestrutível: o comunismo.


Bibliografia:

"Cortar o Mal pela Raiz! História e Memória do Comunismo na Europa", diversos autores sob a direção de Stéphane Courtois, editora Bertrand do Brasil, 2006.

Carlos I.S. Azambuja é Historiador.

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