quarta-feira, 20 de maio de 2015

Educação para a transgressão


Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Percival Puggina

Embora permanentemente desmentida, é muito inerente à nossa formação cultural a idéia de que as leis geram uma força própria suficiente para superar as dificuldades de que tratam. Há um problema? Faça-se lei para resolvê-lo. Feita a lei, lavam-se as mãos e dá-se tudo por resolvido. Essa mesma fé nos leva a crer, por outro lado, que as relações sociais devam estar regidas por estatutos legais, o que acaba inibindo os espaços próprios aos ajustes interpessoais, aos contratos e à liberdade, enfim.

Se verdadeira tal crença no poder corretivo das leis, nosso país deveria ser um modelo de virtudes coletivamente atingidas e a vida fluiria doce e suavemente, conforme a concebem os que redatores dos códigos. No entanto, observo uma realidade diferente e sou induzido a uma convicção diferente. Quanto mais educação dermos às pessoas, quanto melhores forem os valores a elas transmitidos, quanto mais elas se deixarem conduzir por princípios, menor será o número de leis de que necessitaremos e maior será o espaço da liberdade vivida como bem moral determinante de condutas corretas. Em palavras que melhor resumam o que pretendo dizer: estamos fazendo leis em excesso e educando de modo escasso.

Pergunte a qualquer professor na faixa etária dos 50 anos qual a avaliação que faz entre a qualidade da educação que era ministrada ao tempo de sua infância e a que é fornecida hoje. Não estou me referindo a meros conteúdos didáticos. Estou falando em muito mais do que isso, estou aludindo à verdadeira educação, àquela que prepara as novas gerações para a vida social e para o exercício da liberdade. E sublinho: não estou limitando essa tarefa educativa apenas à sala de aula. Estou falando na educação que deve ser proporcionada em casa, nas Igrejas, nos vários ambientes de convívio social e mediante os meios de comunicação.

Faça mais, pergunte a você mesmo sobre a insistência com que a responsabilidade, a solidariedade, e o respeito à verdade, ao patrimônio alheio, à dignidade do outro, às autoridades e instituições, aos idosos, eram passados a você. E compare com o que vê a seu redor. Poste-se diante de um monitor de TV e faça uma sinopse dos valores e desvalores exibidos.

Compre uma revista, dessas que são destinadas ao público adolescente, e veja se encontra ali algum conteúdo que contribua de modo positivo para o adequado uso da liberdade.

De nada nos valerão tantas leis enquanto a sociedade, a partir da infância, for educada para a transgressão.


Percival Puggina (70), membro da Academia Rio-Grandense de Letras, é arquiteto, empresário e escritor e titular do site www.puggina.org, colunista de Zero Hora e de dezenas de jornais e sites no país, autor de Crônicas contra o totalitarismo; Cuba, a tragédia da utopia e Pombas e Gaviões, integrante do grupo Pensar.

4 comentários:

Loumari disse...

Um Autêntico Sonho de Amor

Orgulho, vaidade, despeito, rancor, tudo passa, se verdadeiramente o homem tem dentro de si um autêntico sonho de amor. Essas pequenas misérias são fatais apenas no começo, na puberdade, quando se olha uma janela e se desflora quem está lá dentro. Depois, não. Depois, sofre-se é pelo homem, é pela estupidez colectiva, é por não se poder continuar alegremente num mundo povoado, e se desejar um deserto de asceta. O ascetismo é a desumanização, é o adeus à vida, e é duro ser uma espécie de fantasma da cultura cercado de areias.

"Miguel Torga, in "Diário (1948)"

Anônimo disse...

A transgressão tem que ser combatidas nas instituições onde formam verdadeiras máfias tudo de errado tem que ser combatido na raiz do problema se não houver o corrupto nem o sabotador a coisa anda .

Sérgio Alves de Oliveira disse...

Dr.Puggina: Parece que VªSª nunca foi um operador do direito (profissional). A "coisa" é muito pior.Se o advogado quiser se inteirar de todas as leis e outras normas que emitem todos os dias ,o dia teria que ter 48 horas e ele passaria todo tempo só se "inteirando",sem tempo p/ trabalhar. Qto mais esculhambado é o país ,mais leis ele precisa. É tanta coisa que no final ninguém mais se entende,nem mesmo os que fabricam e operam leis.Tudo começa pela própria constituição,que é recente é já tem "mil" emendas,leis complementares,etc. O que se dirá da restante legislação infraconstitucional e mais os Atos Administrativos (decretos,etc.) ? Toda essa parafernália ficaria muito bem. Lá no inferno.

Jorge J Pinha Costa disse...

Perfeito o conceito transmitido no artigo pelo brilhante Percival Puggina!
A deseducação está infiltrada na nossa sociedade, é praticada diuturnamente por essa desgoverno que controla nosso país, ao mentir e enganar descaradamente as pessoas.
Mentem para se eleger, praticam extorsão diariamente nos impostos que nos cobram sem nenhum retorno.
Pessoas que por ventura não tenham maior envergadura moral não conseguem deixar de transgredir para resolver suas agruras, sem levar em consideração os direitos dos próximos.
O que interessa é resolver seu problema, sem se importar com as consequências dos nossos atos!
Dá-se muito valor à democracia e a liberdade, mas a nossa liberdade só pode ser exercida até ela interferir na liberdade do outro. Isso se chama liberdade com responsabilidade.
Enquanto nossos líderes não derem o exemplo, será muito difícil que os simples mortais tenham consciência no convívio social.