sexta-feira, 29 de maio de 2015

Escola do Komsomol


Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Carlos I.S. Azambuja

Depoimentos de jovens que cursaram a Escola do Komsomol acabam com o mito de que o Partido Comunista da União Soviética era contrário ao terrorismo e à guerrilha, e que ministrava aos militantes dos partidos irmãos apenas treinamento político-ideológico. O jornalista Ancelmo Gois, de O Globo, que o diga... pois ele conhece bem a Escola do Komsomol, da qual foi aluno (Fonte: Jornal da ABI, n° 343, julho/2009, pp. 20-25)

Komsomol: Liga da Juventude Comunista Leninista.
Organização soviética responsável por recrutar jovens entre 14 e 28 anos e doutriná-los com a ideologia comunista” (essa definição é um mito, pois o Komsomol também ministra treinamento armado).

A partir de 1953, o Partido Comunista da União Soviética passou a ministrar cursos, em Moscou, a militantes do PCB. Cursos de treinamento militar e condicionamento político-ideológico. O último desses cursos foi em 1990, quatro anos após terem sido implantadas por Gorbachev as políticas de perestroika e glasnost.

Cerca de 700 militantes foram treinados na “Escola de Quadros”, como era mais conhecido o Instituto de Marxismo-Leninismo do PC Soviético, e na Escola do Komsomol (Juventude do PCUS), em cursos cuja duração variavam de 3 meses a 2 anos.

Cerca de 1.300 outros brasileiros concluíram cursos superiores na Universidade de Amizade dos Povos Patrice Lumumba e em outras universidades soviéticas, em cujo currículo sempre constou a matéria marxismo-leninismo. Até mesmo em cursos de balé. As matrículas na UAPPL sempre foram efetuadas através da Seção de Educação do Comitê Central do PCB e também através do Instituto Cultural Brasil-URSS, um apêndice do PCB. Algumas dessas pessoas, no regresso ao Brasil, passaram a trabalhar em empresas estatais e, pelo menos um, formado em Medicina, como Oficial das Forças Armadas, nos anos 80.

Filhos e parentes próximos de dirigentes encastelados nanomenklatura do partido constituíram a maioria desses 1.300 brasileiros, pois sempre foram privilegiados para estudar, gratuitamente, na pátria do socialismo e em países do Leste-Europeu. Inúmeros exemplos podem ser dados, de filhos de dirigentes aquinhoados com bolsas-de-estudo nesses países. (Histórias quase Esquecidas, Carlos Ilich Santos Azambuja; Mídia Sem Máscara, 14 de fevereiro de 2003).

Os depoimentos dos dois jovens abaixo, que cursaram a Escola do Komsomol, põem por água abaixo o mito de que o Partido Comunista da União Soviética era contrário ao terrorismo e à guerrilha e ministrava aos militantes dos partidos irmãos apenas treinamento político-ideológico.

Um desses jovens, no regresso, assim narrou sua experiência naEscola do Komsomol:

“Iniciei meu curso no Komsomol em fins de 1975. Na parte mais interessante do mesmo, denominada Educação Patriótica Militar, foi ensinado o manejo armado de fuzil 22, pistola 22 automática, fuzil-metralhadora de distintos modelos, lança-foguetes anti-tanque, etc. Depois nos levaram a uma Unidade do Exército Soviético, uma Divisão de Tanques, cujo funcionamento nos foi explicado detalhadamente, inclusive com uma exibição de manobras. Também, como parte dessa matéria, visitamos uma fábrica de armas. Finalizando nossa preparação, participamos de uma simulação de ataque aéreo em uma cidade, que começou com o bombardeio da mesma. Depois, em simulação de ofensiva, em grupos de 10 homens, efetuamos a tomada de um povoado, tomando posição nos lugares principais.

Simultaneamente, nos ensinaram conhecimentos militares teóricos mediante diversos filmes didáticos. As películas referiam-se a operações de guerrilha como, por exemplo, desembarque em praias.

Explicaram, mediante audiovisuais, as dificuldades e soluções de problemas concretos, como o caso do desembarque na praia Girón (Cuba), operativos de guerra de guerrilhas na II Guerra Mundial, etc.

Os soviéticos nos resguardavam não carimbando os passaportes na chegada à União Soviética e aplicando outros carimbos falsos. Tinham vários, como por exemplo um que aplicaram em meu passaporte, assinalando meu ingresso na Suíça desde a Itália, que eu jamais realizei.

Ao chegar ao Brasil nos deram instruções sobre o trabalho clandestino, principalmente indicando-nos que ante nenhum companheiro deveríamos exibir os conhecimentos aprendidos na URSS, mas logo fui preso”.

Um outro jovem comunista deu as seguintes informações a respeito de seu treinamento na Escola do Komsomol:

“Jovens comunistas da França, Alemanha Federal, Argentina, Chile, Brasil, Paraguai, Uruguai e vários países da América Central, bem como de outros continentes recebem nessa Escola instrução militar intensiva para atuar em ações de guerrilha e em operações de terrorismo e sabotagem. Viajei em julho de 1973 para a RDA, acompanhado de outros jovens militantes. Nossa primeira missão era a de participar do Encontro da Federação Mundial da Juventude Democrática. Assim o fizemos até o mês de agosto. Depois, um grupo mais reduzido viajou a Moscou, por trem, lá chegando na manhã de 8 de agosto.

Ali tomamos contato com funcionários soviéticos que nos indicaram que iríamos participar de um curso intensivo na Escola Superior do Komsomol. Nessa mesma reunião, os funcionários ficaram com nossos passaportes, entregando-nos um documento provisório, com nomes falsos, que deveria ser utilizado durante nossa permanência em Moscou. Nos explicaram que isso se devia a razões de segurança e, no ano seguinte, quanto terminou a instrução e empreendemos o regresso, nos devolveram os passaportes com sinetes falsos das aduanas da França, Itália e Suíça. Nesse mesmo dia, nos obrigaram a devolver a documentação falsa e todos os textos e apontamentos referentes ao aprendizado, bem como revistaram nossa bagagem, arrancando as etiquetas e marcas soviéticas das roupas. Alguns companheiros, todavia, conseguiram esconder fotos e pequenos objetos, violando as normas de segurança.

O treinamento constou das seguintes matérias, teóricas e práticas: Economia Política, História do PCUS, Movimento Comunista Internacional, História do Komsomol e Educação Patriótica e Militar.

O curso de Educação Patriótica e Militar incluía as técnicas de guerrilha e, concretamente, organização de grupos, disposição de marchas, inspeção de armamento, cercos, saídas dos cercos, técnicas especiais de guerrilha rural e urbana, etc. A insurreição propriamente dita, isto é, sabotagem, ação de franco-atiradores, corte de energia e tomada de pontos estratégicos. Outra parte importante era o ensino do trabalho clandestino, onde se aprendem normas sobre o funcionamento de setores clandestinos do Partido Comunista, problemas de seguimentos, nomes códigos, etc. A Educação Patriótica incluía também audiovisuais – documentários e outros especialmente filmados para o treinamento teórico.

Os cursos militares consistiam em longas horas de treinamento no polígono de tiro com variados tipos de armas, montagem e desmontagem das mesmas. O instrutor era um alto oficial soviético que havia estado no Caribe durante a crise dos mísseis, em 1961.

Em fevereiro, quando terminou o curso, fizemos uma viagem pela URSS e chegamos de volta em abril de 1974.

A Escola do Komsomol, onde ficamos alojados, ocupa um amplo prédio de uns 250 por 300 metros, cujo endereço é E II Moscou Vekacha. A Escola consta de vários edificações. O Bloco G, o maior, de uns nove andares, é ocupado pelos alunos soviéticos e dos países europeus, com instalações confortáveis. O Bloco C, com dois andares, é onde residem os latino-americanos e funcionam os correios e a enfermaria. O Bloco X é o edifício central da Escola, com a direção, salas de administração, salão de atos, sala de projeções, biblioteca e tesouraria (que faz o pagamento mensal aos alunos). Bloco A: no térreo funcionam os serviços de identificação e segurança, e os andares restantes são destinados aos estudantes cubanos que fazem cursos mais prolongados, com três anos de duração. O Bloco B é destinado ao alojamento dos alunos procedentes de países comunistas, árabes e africanos. O Bloco V é o alojamento dos funcionários e do corpo docente. No Bloco E, com três andares, ficam as 15 salas de aula, sala de estudos e cafeteria, e o Bloco H serve de alojamento dos funcionários e guardas da Escola.

As instalações se completam com um polígono de tiro, onde se faz a prática do treinamento militar.

Quando fiz o curso, a população do Komsomol estava composta por uns 120 alunos de países europeus, 80 latino-americanos, 40 asiáticos, 50 africanos e 40 cubanos”.

É importante assinalar que não apenas a União Soviética, mas também a então RDA, China e Cuba capacitaram militarmente militantes comunistas de distintos países para atuar em operações insurrecionais em suas pátrias, guerra de guerrilhas ou ações de terrorismo. No Brasil, os militantes das organizações voltadas para a luta armada, mandados treinar em Cuba, eram selecionados de acordo com as instruções recebidas do Departamento América (órgão de Inteligência do Comitê Central do Partido Comunista Cubano)”.

A propósito, eis o que declarou um dos militantes treinados em Cuba:

Em 1967 chegamos a Cuba, via Praga, com documentação falsa fornecida pela embaixada de Cuba nessa cidade. Ao chegar à Checoslováquia nos instalaram em um hotel. De Praga a Cuba viajamos em duas turmas pela Cubana de Aviación, com escalas na Islândia e Canadá. Em Havana fomos recebidos por uma pessoa que utilizava o codinome de “Fermin” (observação: “Fermin Rodriguez”, nome utilizado pelo então Major Fernando Ravelo Renedo que posteriormente, já como Coronel, foi embaixador de Cuba na Colômbia e depois na Nicarágua). Nos alojaram em uma casa no bairro de Siboney, onde ficamos cerca de um mês e meio. Durante 15 dias percorremos toda a Ilha e depois, nessa mesma casa de Siboney, fizemos diversos testes e exames físicos.

O curso foi iniciado na segunda quinzena de agosto de 1967. Fomos transportados para a Província de Pinar Del Rio e nos alojaram na zona rural em uma barraca de madeira com teto de zinco. Existiam outras duas barracas similares, completando as instalações que, intencionalmente, eram precárias. Uma das barracas servia de alojamento para os instrutores e a outra servia de refeitório e aulas. As aulas eram ministradas por um instrutor com dois ou três auxiliares, todos oficiais do Exército cubano.

A vida ali era muito ativa e tinha início às 5:30 da manhã, com o café e limpeza dos barracões. Às 8 horas tinham início as aulas teóricas: Tática, a cargo do Tenente Serôa, que consumia a maior parte do tempo, incluía marchas, acampamentos, ataque, defesa, etc; Armamento e Tiro, com montagem e desmontagem de diversos tipos de armas, como fuzil Springfield, Mauser, Fal, submetralhadora Thompson, M3, U21, MP40, metralhadoras ponto 30 e 50 e morteiros de 30 mm; Saúde: noção e prática de primeiros socorros; Explosivos, com estudos sobre o TNT soviético e norte-americano e explosivos plásticos norte-americanos C3 e C1, mechas e detonadores; Topografia, com leitura de cartas, curvas de nível, uso de bússolas e orientação no terreno; e Política, que consistia em aulas de marxismo-leninismo e história de Cuba.

A fase prática consistia em manobras nas imediações da Escola, práticas de tiro em polígono e, finalmente, uma marcha de 20 km durante 15 dias, ocasião em que se buscou pôr em prática tudo o que havia sido ensinado.

Terminado o curso de guerrilha rural, nos enviaram a um canavial e nos obrigaram a cortar cana de açúcar durante uma quinzena. Posteriormente também trabalhamos em um cafezal.

A seguir nos ministraram outro curso, este de guerrilha urbana, que consistia em defesa pessoal e karatê, fotografia, táticas de guerrilha urbana, informação e contra-informação, esconderijos, seguimentos, interrogatórios, etc.”.

Os militantes do PCB, para cursos de luta armada na URSS ou RDA, eram selecionados pela Seção de Educação do partido e seus nomes entregues ao “referente” (como era chamado o membro do Departamento de Relações Internacionais do PCUS, responsável pela assistência política ao PCB). E os militantes do Partido Comunista do Brasil e da Ação Popular, que foram mandados, respectivamente, no início de 1964 (ainda no governo Jango) e em meados da década de 60, receberem treinamento armado na Academia Militar de Pequim, os entendimentos ocorreram de partido para partido, ou seja, do PC do B e da AP com o Partido Comunista Chinês.

Um pouco de História não faz mal a ninguém.


Carlos I.S. Azambuja é Historiador.

3 comentários:

Loumari disse...

Assassination of Lumumba "it is never too late to get to the truth"

Belgian justice will investigate the murder in 1961, Patrice Lumumba, the hero of Congolese independence. A procedure which, according to historian Elikia M'Bokolo should help heal an old wound of national history.

Belgian justice it succeed to shed light on the assassination of Patrice Lumumba Congolese January 17, 1961 in Katanga? More than 50 years after the fact, federal prosecutors announced on Wednesday 12 December, in Brussels, the opening of an investigation into the death of this figure of African independence.
This decision follows a complaint filed in 2010 in Brussels by the children of the first prime minister of Congo - Kinshasa (June-September 1960) against former police officials and politicians in Belgium. "It is the murderers. In Belgium they are 12, they are alive and we want them meet these heinous acts to justice," had indicated to the press Guy Lumumba, a son of murdered Congolese leader . With Belgian law known as "universal jurisdiction" courts across the country have the opportunity to try war crimes, crimes against humanity and genocide as long as different parties have a link with the kingdom.
Although in 2001 a commission of inquiry of the Belgian Parliament has concluded that "moral responsibility" of the former colonial power in the case, the circumstances of the murder, for which no charge has yet been appointed, remain unclear. We just know that he was killed by local officials in Katanga mining region of south-eastern Congo - Kinshasa who did time with the support secession of Belgium. For many observers, the CIA would also not foreign to the elimination of this "independence hero", whose extreme nationalism and the approximation assumed in the Cold War with the Soviet Union had the gift of irritate Brussels and Washington.

For the historian of Congolese origin Elikia M'Bokolo, professor at the Ecole des Hautes Etudes en Sciences Sociales (EHESS), the opening of an investigation into the assassination of Lumumba opens the door to the identification of responsible . And may, perhaps, help put an end to one of the most painful chapters in the history of independent Congo. Interview.
FRANCE 24: There is currently no official version of the assassination of Patrice Lumumba. Until the Belgian court lifts the veil on the case, what is the thesis that historians and scholars seem to support?
Elikia M'Bokolo: On the one hand, we know from the declassified papers of the CIA, an assassination plot had been established as early as in July 1960 by U.S. agents then abandoned in September of the same year when Lumumba was removed from power by Joseph-Désiré Mobutu and President Joseph Kasavubu.
On the other hand, is commonly attributed to the assassination of Katanga, where he was told that they had complicity with the Katangan Prime Minister and some Belgians who have never been clearly identified.

Loumari disse...

In fact, the issue is whether the Katangan acted for mining interests and political interests or greater. There is in this case the actors are on stage, as in a puppet show, those who pull the strings and remain invisible. Presumably a state crime like this had the blessing, if we can use that word, the higher authorities of Belgium, perhaps the royal family whose wealth was born in Congo, probably government, but also financial interests, such as Banque Lambert, Societe Generale [Belgium] and other groups whose main investments were made in the Congo and feared that Lumumba makes nationalization.

F24: Children of Patrice Lumumba can they expect from the Belgian justice officials namely it means?

E. M.: They can certainly expect more and better than the work of the Senate Committee, which in 2001 had concluded that the moral responsibility of the Belgian State in the assassination of Lumumba. I believe that this survey we are moving towards identifying responsible. People from the cream of society financial and industrial Belgian people which include the highly successful business leaders have often been cited, and we can now know what their roles were really the case. One of them, Jacques Brassinne the Buissière, has often been questioned because of its links with the Belgian aristocracy as well as financial interests. He always defended his involvement in books but through the investigation we may be able to find out more.
Lumumba's family has suffered greatly and it is never too late to get to the truth. It is quite normal that 50 years after the fact, children who are now adults, and bear the painful weight, finally want to know what happened. We need to come to untangle this knot of vipers to turn the page of history Congolese. Me at the time I was a kid and I'd die having had clarification on this painful mystery that we chase since that time.

Loumari disse...

F24: How is this legal process is important for the Congolese?

E. M.: In Congo, Lumumba's name is visible everywhere. This figure, as well as Laurent-Désiré Kabila [President of DR Congo from 1997 to 2001 and father of the current head of state] in the pantheon of national heroes. It is obvious that founder death in the history of the nation is an injury, even more serious than the complicity, the precise reasons and how the murder took place has never been clarified.
Congolese memory is a memory shattered. In a way, she stopped at the time of the assassination of Lumumba. Before that, people grasped what was happening: colonization, the struggle for independence, and independence itself. Then it no longer includes: Lumumba was assassinated, Mobutu organized a coup, killing and successive assassinations occur, rebellions emerge, some effects continue to this day in the east, a dictatorial system is implemented ... All the violence that led to the birth of the State are only two or three generations of Congolese live in a sort of memorial night. This is catastrophic.
The investigation will perhaps clarify this and release the Congolese weight as happens to individuals who undergo psychoanalysis. To turn the page, I think it is good to put a face and we establish relationships between personalities Belgian Congo and Katanga who participated in the assassination.

F24: Do you think that this investigation may encourage other Africans to the Belgian courts that "universal jurisdiction" for this kind of case?

E. MR: I'm sure it will create a precedent. During the period between 1958 and 1965, a large number of political killings in the context of the Cold War were never really understood. As Belgium has universal jurisdiction, I am convinced that many other procedures involving Kenya, Uganda, Mozambique, Cameroon and Togo, to name a few, will certainly be involved. For an historian I am it is a very good thing that we can finally sew up the threads of a past that is difficult to understand and interpret.