segunda-feira, 1 de junho de 2015

Primeira Conferência da OLAS


Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Carlos I.S. Azambuja

Quem se alia a Fidel Castro não pode alegar que quer democracia, a não ser que seja um imbecil e que desconheça a história recente da América Latina.

A I Conferência da Organização de Solidariedade aos Povos da América Latina (OLAS), um coelho que Fidel Castro tirou da cartola, foi realizada em Havana no período de 31 de julho a 10 de agosto de 1967. Sua realização foi anunciada quando da criação da OLAS, um ano antes, em janeiro de 1966, na Conferência Tricontinental, também em Havana.

A sugestão para a criação da OLAS, como já foi escrito anteriormente em outro artigo, partiu do então deputado socialista chileno Salvador Allende, na época já um funcionário remunerado da KGB (Os que tiverem dúvidas cliquem emhttp://translate.google.com/translate?hl=pt-BR&sl=en&u=http://en.wikipedia.org/wiki/Salvador_Allende&sa=X&oi=translate&resnum=4&ct=result&prev=/search%3Fq%3Dallende%252Bkgb%26hl%3Dpt-BR%26lr%3D).

Para sua realização foi criado um Comitê de Organização de cuja composição participaram Haydée Santamaría, membro do Comitê Central do Partido Comunista Cubano (que cometeu o suicídio em 26 de julho de 1980, dia do aniversário do assalto ao Quartel Moncada, no qual tomou parte) e Miguel Brugueras Del Valle, então diretor da agência cubana de notícias Prensa Latina e posteriormente, em 1988, Vice-Chanceler de Cuba, em 1989/1990 embaixador na Argentina, e em 1998 Vice-Ministro do Turismo.

Além desses dois cubanos também participaram do Comitê de Organização, como “representantes temporários”, delegados do Brasil, Colômbia, Guatemala, Guiana, México, Peru, Uruguai e Venezuela. O “representante temporário” do Brasil foi Aluisio Palhano Pedreira Ferreira, um dirigente sindical bancário que, mais tarde, se tornaria militante da Vanguarda Popular Revolucionária.

Carlos Marighela, representando a si próprio, pois em carta à Comissão Executiva já havia se desligado do PCB, também participou, bem como Herbert José de Souza (“Betinho”), representando a Ação Popular.

O temário da Conferência foi o seguinte:

- A luta revolucionária antiimperialista na América Latina;

- Posição e ação comum face à intervenção político-militar e à penetração econômica e ideológica do imperialismo na América Latina;

- A solidariedade dos povos latino-americanos com as lutas de libertação nacional;

- Estatutos da Organização Latino-Americana de Solidariedade (OLAS).

Inúmeras entidades componentes do Movimento Comunista Internacional foram convidadas e participaram da Conferência: Federação Sindical Mundial, Federação Mundial da Juventude Democrática, União Internacional de Estudantes, Organização de Solidariedade aos Povos da África, Ásia e América Latina, Federação Internacional de Mulheres Democráticas, Organização Continental Latino-Americana de Estudantes, Comitê Tricontinental de Apoio ao Vietnã, Conselho Mundial da Paz e Organização Internacional de Jornalistas.

Como resultado do intensivo trabalho preparatório realizado foram elaborados 14 livros apresentando a situação nos diferentes países da América Latina e 3 mil cópias de cada um desses livros foram distribuídas durante a Conferência, aos delegados, observadores e convidados. Alguns títulos dos livros editados: “A População Latino-Americana, Problemas e Perspectivas”, “A Economia de Cuba”, “Aliança para o Progresso e Gorilismo”, “O Indígena na América Latina”, “Penetração e Espoliação do Imperialismo na Cultura Latino-Americana” e “América Latina e a Educação”.

A Conferência foi inaugurada na noite de 31 de julho no hotel “Habana Libre”, sob a presidência de Haydée Santamaría, com um discurso do então presidente de Cuba, Osvaldo Dorticós Torrado. Che Guevara, nessa época já na Bolívia, foi eleito, por aclamação, “presidente de honra da Conferência”. Também foi aclamado o “delegado de honra” à Conferência, o líder negro Stokley Carmichael, dirigente da “luta pelos direitos dos negros nos EUA”, conduzida pelo grupo pró-luta armada “Panteras Negras”.

No dia 9 de agosto, durante a reunião da Comissão de Trabalho nº 3, a política soviética de ajuda aos governos latino-americanos foi violentamente atacada. Por 15 votos contra 3 foi aprovada uma Resolução criticando tal ajuda, que “afeta o prestígio da causa revolucionária e cria confusão no espírito popular”. Todavia, foram asseguradas medidas para que tal Resolução não fosse levada a público no plenário da Conferência.

A Comissão de Trabalho nº 2 aprovou, nesse mesmo dia, uma Resolução em que ressaltava “a natureza servil da OEA” e recomendava a “todos os revolucionários que se oponham às manobras da referida organização, instrumento a serviço dos interesses do imperialismo”.

No dia seguinte, 10 de agosto, foi realizada a sessão de encerramento da Conferência, no teatro Chaplin, com a presença de 165 delegados oriundos de 27 países da América Latina, representando 53 partidos comunistas e organizações revolucionárias. Sentaram-se à mesa que conduziu os trabalhos, Haydée Santamaría, o presidente Dorticós Torrado, Fidel Castro e Raúl Castro. Nessa sessão foi aprovada por aclamação a concessão do título de “Cidadão da América Latina” a Che Guevara, morto dois meses depois, na Bolívia.

Haydée Santamaría divulgou a relação dos países que iriam integrar o Comitê Executivo da OLAS: Bolívia, Brasil, Colômbia, Cuba, Guatemala, Peru, Trinidad-Tobago, Uruguai e Venezuela. Pelo Brasil, Herbert José de Souza (“Betinho”) passou, então, o integrar a referido Comitê Executivo, permanecendo em Cuba. Foi decidido, também, que a sede da OLAS seria mantida em Cuba. Esse Comitê Executivo praticamente se dissolveu após a morte de Che Guevara, em 8 de outubro de 1967.

Finalmente, na Resolução Final, foi confirmada, com veemência, “a necessidade do estabelecimento de um comando unificado político e militar, para a condução da luta armada, na estratégia de libertação nacional contra o imperialismo ianque”. Tal comando político e militar, na verdade, nunca saiu das mãos de Manuel Piñero Losada, chefe da Inteligência cubana.

Essa Resolução constava de vinte itens, apresentados por uma breve introdução: “Nós, representantes dos povos da nossa América, conscientes das condições que existem no continente, sabedores da existência de uma estratégia comum contra-revolucionária dirigida pelo imperialismo ianque, proclamamos”. E seguiam-se os vinte itens, que transcrevemos em versão resumida:

1. Constitui um direito e um dever dos povos da América Latina fazer a revolução;

2. A revolução na América Latina tem suas mais profundas raízes históricas no movimento de libertação contra o colonialismo europeu do século XIX e contra o imperialismo deste século;

3. O conteúdo essencial da revolução na América Latina é dado por sua oposição ao imperialismo e às oligarquias de burgueses. Conseqüentemente, o caráter da revolução é a luta pela independência nacional e o caminho socialista para o seu pleno desenvolvimento econômico e social;

4. Os princípios do marxismo-leninismo orientam o movimento revolucionário na América Latina;

5. A luta revolucionária armada constitui a linha fundamental da revolução na América Latina;

6. Todas as demais formas de luta devem servir e não impedir o desenvolvimento da linha fundamental, que é a luta armada;

7. Para a maioria dos países do continente, o problema de organizar, iniciar, desenvolver e provocar a luta armada constitui hoje a tarefa imediata e fundamental do movimento revolucionário;

8. Aqueles países em que esta tarefa não está fixada de modo imediato, de todas as formas devem considerá-la como uma perspectiva inevitável;

9. Aos povos de cada país e às suas vanguardas revolucionárias corresponderá a responsabilidade histórica de levar adiante a revolução;

10. A guerrilha, como embrião dos exércitos de libertação, constitui o método mais eficaz para iniciar e desenvolver a luta revolucionária;

11. A direção da revolução exige, como princípio organizador, a existência de um comando unificado político-militar como garantia para seu êxito;

12. A solidariedade mais efetiva que podem prestar-se os movimentos revolucionários entre si são o desenvolvimento e a culminação da própria luta no seio de cada país;

13. A solidariedade com Cuba e a colaboração com o movimento revolucionário em armas constituem um dever internacional de todas as organizações antiimperialistas do continente;

14. A revolução cubana, como símbolo do triunfo do movimento revolucionário armado, constitui a vanguarda do movimento antiimperialista latino-americano;

15. Os povos diretamente colonizados pelas metrópoles européias ou sujeitos à dominação colonial aos EUA, em seu caminho para a libertação têm como objetivo imediato e fundamental, lutar pela independência;

16. A Segunda Declaração de Havana, recolhendo a famosa e gloriosa tradição revolucionária dos últimos 150 anos da história da América, constitui um documento programático da revolução latino-americana;

17. Os povos da América Latina não têm antagonismos com nenhum outro povo do mundo e estendem sua mão fraterna ao povo norte-americano, exortando-o a lutar contra a política repressiva dos monopólios imperialistas;

18. A luta na América Latina fortalece seus vínculos de solidariedade com os povos da Ásia e África, com os países socialistas, com os trabalhadores dos países capitalistas, especialmente com a população negra dos EUA, que sofre a exploração de classe, miséria, desemprego, discriminação racial e a negação dos mais elementares direitos humanos e constitui uma importante força a considerar no contexto revolucionário;

19. A luta heróica do povo do Vietnã presta a todos os povos revolucionários que combatem o imperialismo, uma inestimável ajuda e constitui um exemplo inspirador para os povos da América Latina;

20. Aprovamos o Estatuto e criamos o Comitê Permanente, com sede em Havana, da Organização Latino-Americana de Solidariedade, que constitui a genuína representação dos povos da América Latina.

E, encerrando: “Nós, revolucionários da nossa América, da América ao Sul do Rio Bravo, sucessores dos homens que nos deram a primeira independência, armados de uma vontade inquebrantável de lutar e de uma orientação revolucionária e científica e sem outra coisa a perder além das cadeias que nos oprimem, afirmamos que nossa luta constitui uma contribuição decisiva à luta histórica da humanidade para livrar-se da escravidão e da exploração. O dever de todo revolucionário é fazer a revolução”.

Muito embora a subversão continental liderada por Cuba tenha sido iniciada desde o primeiro momento em que Fidel Castro chegou ao poder, em 1959, essa Resolução, redigida pelas lideranças do Partido Comunista Cubano e aprovada pelos 165 delegados oriundos de 27 países do continente, representando 53 partidos comunistas e organizações revolucionárias, pode ser apontada como a responsável pelos cerca de 500 mil mortos em toda a América Latina durante a luta armada dos anos 60, 70 e 80 e não os militares que, constitucionalmente, cumpriram seu dever defendendo seus países.

Fidel Castro, todavia, insiste em subverter a América Latina, hoje através do Foro de São Paulo, fundado em 1990 pelo Partido dos Trabalhadores, por “sugestão” cubana. Agora, 25 anos depois, Lula mente quando afirma que a fundação do Foro de São Paulo tinha como objetivo encontrar "uma saída democrática para a esquerda na América Latina". Quem se alia a Fidel Castro não pode alegar que quer democracia, a não ser que seja um imbecil e que desconheça a história recente da América Latina.

Mais: Lula declarou que sempre foi "militante" do Foro de São Paulo, uma entidade cuja existência nunca foi reconhecida pelas esquerdas e que determinada mídia, descaradamente, sempre disse que era uma alucinação de Olavo de Carvalho, que há anos denuncia esse novo Komintern para a América Latina.

Mas essa é outra história.

Carlos I.S. Azambuja é Historiador.

Um comentário:

Anônimo disse...

Azambuja neles


Chico trevas