segunda-feira, 22 de julho de 2019

Donos da Verdade



Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por H. James Kutscka

Ao longo da história da humanidade, aparecem esporadicamente, seres que se acreditaram iluminados; para colaborar, graças à sua incontinência oratória e irreprimível vontade de se destacar dos reles circunstantes, como detentores únicos da verdade, colaboram dessa forma com o folclore acrescentando pérolas de sabedoria, as quais ficam na história como  exemplo de estultícia,  como as que me permito citar na sequência desse artigo.

Esses indivíduos são conhecidos informalmente no Brasil como “caga regras”.

Em 1895, o matemático irlandês Lord Kelvin, presidente da “Royal Society” da qual foi membro ilustre Sir Isaac Newton, declarou peremptoriamente: “é impossível criar uma máquina mais pesada que o ar e que seja capaz de voar.

Os irmãos Wright e Santos Dumont, aparentemente não ficaram sabendo disso, e graças à sua “ignorância”, todo tipo de aeronaves, desde os pequenos “Teco-Tecos” até os gigantescos Antonovs, hoje cruzam os céus.  

Já em 1946 (os leitores fãs de cinema lembrarão dele) Darril Francis Zanuck, produtor de filmes como “The King and I“, “The  Longest Day “ “ Cleopatra“ e inúmeros outros sucessos, declarou sobre a televisão: As pessoas logo vão  se aborrecer olhando para uma caixa de madeira todas as noites, é uma invenção sem futuro.

A BBC não acreditou nele, e graças a ela, a invenção do escocês John Logie Baird, hoje traz diversão e notícias (falsas ou não) para dentro de bilhões de casas ao redor do mundo. 

Mais perto dos dias atuais, em 1943, o então presidente da IBM, Thomas Watson, teria dito: Não acredito haver mercado para mais do que cinco computadores.

Graças a Bill Gates e Steve Jobs não terem acreditado nele, hoje escrevo este artigo em um Lap Top de menos de 1 quilo que levo comigo por toda parte, não em uma antiquada e pesada máquina de escrever.

Consta que em 1881 na Feira da Eletricidade em Paris, onde pela primeira vez foram acendidas, simultaneamente, 2500 lâmpadas elétricas, iluminando para espanto dos visitantes a noite parisiense, como estrelas capturadas especialmente para a ocasião; um dos afortunados  participantes do evento teria dito: Pouco tempo depois de apagarem-se as luzes desta feira, ninguém mais lembrará dessas lâmpadas.

Ou seja, o “caga regras” não tem nacionalidade, pode ser encontrado em qualquer lugar.

Nosso país não é exceção, e como é gigante em tudo, tem um time inteiro deles no STF.

Aqui faço uma pausa para lembrar de um professor do ginásio, que chamava os alunos para o quadro negro com a seguinte frase: Por favor senhor Silva, (poderia ser qualquer outro sobrenome mas esse me agrada especialmente) venha aqui a frente expor sua mediocridade à execração pública, todos ríamos, pois o tratamento era igual fosse qual fosse a vítima chamada, e tínhamos consciência da nossa ignorância comparada à sabedoria do professor.

Na última semana, um ministro, atualmente o capitão da “armada” no STF, veio sem nenhum pudor dar o “ar da sua graça” sem ser chamado.
Em uma decisão monocrática, (os “caga regras” não precisam consultar ninguém) decretou a suspensão das investigações do COAF sem autorização judicial prévia.

Tal medida paralisará quase 6000 processos, envolvendo lavagem de dinheiro do crime organizado. e negociações heterodoxas.

Sua explicação para um canal de TV foi: Com essa medida, quero fazer com que a lei seja igual para todos, livrando o cidadão comum das garras de uma justiça eventualmente opressora (se não foram essas as palavras, o sentido geral foi esse).  

Como nos casos anteriores, torna-se necessário saber o que leva as pessoas a fazerem tais afirmações.

Lord Kevin foi vítima de sua prepotência, Zannuck  não queria perder o público dos cinemas, Thomas Watson da IBM  teve seu momento Sherlock e não foi “evidente”, o cara que vaticinou o fim a lâmpada elétrica era apenas burro.

Já por trás da decisão do ministro, pode haver alguém que esqueceu o ditado: “a mulher de César não basta ser honesta, tem de parecer honesta” ou no caso “o filho do presidente não basta parecer honesto tem de ser honesto”.

Votamos nesse governo para acabar com a “maracutaia, isso custe o que custar.

Ou talvez uma mesada de 100 mil reais mensais que o “amigo do amigo de meu pai” recebe de sua mulher desde 2015.

Nos Estados Unidos e na União Européia, não é exigida autorização para   esse tipo de investigação e aqui também não, desde uma medida aprovada em 2017, por quatro dos cinco membros da primeira turma do Supremo.

Cito aqui Aristóteles, (como gostam de fazer os ministros do STF em suas delongas para demonstrar erudição): “Nada pode ser e não ser simultaneamente” axioma fundamental da filosofia.

O respeitável público exige explicações.

H. James Kutscka é Escritor e Publicitário.

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