domingo, 14 de julho de 2019

Falsa Citação de Voltaire


Voltaire

Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Ivan Bilheiro

O pensamento filosófico - rico que é - já cunhou uma série de expressões que, bem empregadas ou não, tornaram-se largamente conhecidas. É o caso, para ficar em um só exemplo, da famosa máxima de Maquiavel: "os fins justificam os meios" (a qual figura no capítulo XVIII de sua magnum opus O príncipe). Nesta linha, no entanto, aparecem frases que, ainda tomadas como emblemáticas, não podem ser verdadeiramente creditadas aos supostos autores. É possível que existam diversas situações não esclarecidas em que isso ocorre - o que, diga-se de passagem, macula o estudo de Filosofia mais do que os próprios supostos autores. Mas há um caso ícone, o de François- Marie Arouet, mais conhecido pelo cognome Voltaire (1694-1778).

Apesar de ser frequentemente citada, inclusive em livros didáticos, como síntese de uma fi- losofia, a frase "Posso não concordar com o que você diz, mas defenderei até a morte o seu direito de dizê-lo" (que pode aparecer escrita com algumas pequenas variações) não é fruto da sagaz pena de Voltaire. Todo um retrato do pensamento voltairiano foi construído em torno a essa citação, tomando o filósofo, a partir daí, como um iluminista plena e irresolutamente comprometido com a liberdade de expressão, cuja bandeira de luta seria a tal frase, assimilada como um lema. Uma busca pelos escritos de Voltaire, entretanto, planta a dúvida: onde está a afamada afirmação? A investigação por esse caminho é, contudo, vã, pois não há, em nenhum texto do filósofo, a preciosa frase. Algo tomado quase pacificamente como o resumo do pensamento voltairiano revelando-se apócrifo é mesmo o germe de uma pesquisa, e a investigação revela-se frutífera.

Nota-se, portanto, que a expressão "Posso não concordar com o que você diz, mas defenderei até a morte o seu direito de dizê-lo" é uma daquelas frases que muitos leram, alguns citaram e quase ninguém pesquisou de onde verdadeiramente veio (e de quem é!). Há um grande risco na falta de precisão em casos assim, porque uma falsa atribuição nem sempre enobrece um autor.

Na verdade, como pode-se verificar, a tão citada frase foi elaborada por uma biógrafa de Voltaire, em uma obra do início do século 20 - portanto, bem distante do período de vida e produção do filósofo francês. Em um livro de 1906 chamado Th e friends of Voltaire ("Os amigos de Voltaire" - tradução livre), publicado em Londres pela Smith, Elder & Co., a escritora Evelyn Beatrice Hall (1868-c. 1939) - que durante um tempo usou o pseudônimo S. G. Tallentyre - trata de dez figuras notáveis com quem seu biografado, de alguma forma, se relacionou. São eles: D'Alembert, Diderot, Galiani, Vauvenargues, D'Holbach, Grimm, Turgot, Beaumarchais, Condorcet e Helvétius. É na parte dedicada a este último que a biógrafa apresenta a frase "I disapprove of what you say, but I will defend to the death your right to say it" ("Eu discordo do que você diz, mas vou defender até a morte seu direito de o continuar dizendo", em tradução livre).

Talvez por uma questão de estilo, Evelyn Hall colocou a frase entre aspas e a construiu em primeira pessoa, o que acabou gerando a confusão e a falsa atribuição. Mas, de fato, a intenção da escritora era resumir o posicionamento que Voltaire teria adotado com relação ao banimento de um livro de Claude-Adrien Helvétius (1715-1771), outro filósofo francês com quem ele teve certo desacordo. Em 1758, Helvétius publicou o livro De l'espirit, o qual foi condenado pela Sorbonne, pelo Parlamento de Paris e até pelo Papa, chegando a ser queimado. Apesar do desacordo explícito com relação ao pensamento de Helvétius, Voltaire não acreditava que o banimento daquele livro fosse um ato correto. Foi a atitude de Voltaire frente a esta situação que Evelyn Hall tentou resumir com sua frase, inadvertidamente escrita entre aspas e em primeira pessoa.

Em outro livro da mesma autora, chamado Voltaire in his letters ("Cartas de Voltaire" - tradução livre aproximada), publicado em 1919, aparece a mesma ideia, ora apresentado como um "princípio voltairiano" (embora ainda grafado entre aspas e em primeira pessoa), com uma mínima alteração de redação que não resulta em conteúdo diferente. Ainda ali, Hall encerra o "princípio" em um posicionamento de Voltaire para com Helvétius.

UMA CONSTRUÇÃO TARDIA

Nota-se, portanto, é que a famosa afirmação nem é de Voltaire nem configura um resumo de sua filosofia como um todo. Ela é, precisamente, uma construção tardia de uma biógrafa, e não faz mais do que retratar uma determinada posição adotada por Voltaire em uma situação muito específica com outro filósofo - e faz com que seu poder de frase-lema da liberdade de expressão seja consideravelmente reduzido.

Essa confusão involuntária chegou a ser reconhecida pela biógrafa de Voltaire. Na revista Modern Language Notes, publicada pela The Johns Hopkins University Press, em sua edição de novembro de 1943, há um texto de Burdette Kinne sobre o assunto, intitulado Voltaire never said it! ("Voltaire nunca disse isso!", tradução livre), em que consta a reprodução de uma carta de Evelyn Hall, datada de 9 de maio de 1939, em que ela afirma ser de sua própria autoria a tal frase erroneamente atribuída ao filósofo francês do século 18, chegando a apresentar desculpas por seu texto permitir a interpretação de que a fala era de Voltaire, mesmo não sendo esta sua intenção.

Ainda houve quem considerasse que Evelyn Hall teria, seja por acaso ou não, feito uma paráfrase de uma fala - esta sim - de Voltaire, menos conhecida, que se encontraria em uma carta endereçada a um certo Monsieur Le Riche, datada de 6 de fevereiro de 1770. Esse foi o caso de Norbert Guterman, editor do livro A book of french quotations ("Um livro de citações francesas", tradução livre), publicado na década de 1960. Segundo ele e os demais defensores desta linha, haveria na referida carta a frase "Monsieur l'abbé, je déteste ce que vous écrivez, mais je donnerai ma vie pour que vous puissiez continuer à écrire" ("Senhor abade, eu detesto o que escreves, mas eu daria minha vida para que pudesses continuar a escrever", tradução livre), uma espécie de variação daquela mais famosa.

Outra vez, porém, criou-se uma equivocada atribuição a Voltaire. Em suas obras completas, publicadas em Paris já entre os anos de 1817 e 1819, sob o selo Chez Th. Desoer, há a coleção de correspondências do filósofo, em que figura a tal carta endereçada a Monsieur Le Riche, mas não é possível encontrar nada sequer parecido com a famigerada frase. Até grandes pensadores como Noam Chomsky se deixaram levar por essa "nova" falsa atribuição, como é possível observar em seu artigo do jornal The Nation, intitulado His right to say it, em 28 de fevereiro de 1981.

Nota-se, portanto, que a expressão "Posso não concordar com o que você diz, mas defenderei até a morte o seu direito de dizê-lo" é uma daquelas frases que muitos leram, alguns citaram e quase ninguém pesquisou de onde verdadeiramente veio (e de quem é!). Há um grande risco na falta de precisão em casos assim, porque uma falsa atribuição nem sempre enobrece um autor. Nesse caso, Voltaire passou a ser tomado como ícone da luta pela liberdade de expressão. Mas e quando a frase acaba por denegrir um pensador? É preciso rigor na investigação. Daqui por diante, fica como sugestão o princípio: "Eu posso não concordar com o que citas, e por isso requisitarei sempre suas fontes para poder checá-las".

REFERÊNCIAS

Autores franceses: Helvétius. Disponível em: <http://www.iscsp.utl.pt/~cepp/autores/franceses/1715._ helvetius.htm>. Acesso em 24 maio 2013.

CHOMSKY, Noam. His right to say it. Disponível em: <http://www.chomsky.info/articles/19810228.htm>. Acesso em: 20 mar. 2013.

GUTERMAN, Norbert. A book of french quotations: whith English translations. Garden City, N. Y.: Doubleday, 1963.

KINNE, Burdette. Voltaire never said it!. Modern language notes, v. 58, n. 7, nov. 1943.

TALLENTYRE, S. G. [HALL, Evelyn Beatrice]. The friends of Voltaire. London: Smith, Elder & Co., 1906.

______. Voltaire in his letters: being a selection of his correspondence. New York/London: G.P. Putnam's Sons/The Knickerbocker Press, 1919.

VOLTAIRE. Oeuvres complètes de Voltaire: correspondance générale. v. 11. Paris: Chez Th. Desoer, 1817.

Ivan Bilheiro Dias Silva - Professor de Filosofia do Ensino Médio e Coordenador de Área - Ciências Humanas no Colégio dos Jesuítas.

2 comentários:

Loumari disse...

A terrível tragédia do Brasil é deste criar homens incapazes de criar perspectivas para o futuro. A sua visão está sempre volteada para o passado e sempre a procura de ídolos.
Se pergunta a este senhor Ivan Bilheiro Dias Silva, qual é a sua visão concernente ao futuro do Brasil? O que você propõe como perspectiva para o desenvolvimento e progresso da nação?
Está a espera que Voltaire ressuscite e lhe dite a você o que se deve fazer para que também o seu nome entre nos anais da história?
Na mensagem de Nosso Senhor Jesus Cristo, profetiza: "Brasil sofre, devem orar, a enfermidade causa estragos."
Nos basta observar como a mentalidade de brasileiros virou a pior peste destruidora sobre a terra. Gentes com em seus corações cheios de maldade, gentes violentamente agressivas quando se exprimem, e da palavra violenta ao acto, que totalizam 65 mil homicídios a brincar num período de 365 dias. Quase todo brasileiro ferve nas suas entranhas as ganas de matar. Querem possuir armas com licença de matar. E são estes que se dizem católicos? O que é da lei não matarás?
Brasileiros já estão mentalmente gravemente enfermos. A crueldade que se desenvolveu nos corações dos brasileiros até o mesmíssimo Diabo deve ter medo desta raça de gente. São ferozes mesmo.

Loumari disse...

A peste espiritual que vai tornando os homens malucos que em seus corações só desejam destruir. E como a Palavra de Deus claramente nos deixa notório, a sentença dos que recorrem a violência: MATEUS 26:52 Então Jesus disse-lhe: Mete no seu lugar a tua espada; porque todos os que lançarem mão da espada à espada morrerão.


ISAÍAS 2:4 Ele exercerá o seu juízo sobre as gentes, e repreenderá a muitos povos; e estes converterão as suas espadas em enxadões, e as suas lanças em foices: não levantará espada nação contra nação, nem aprenderão mais a guerrear.
5 Vinde, ó casa de Jacob: e andemos na luz do Senhor.
6 Mas tu desamparaste o teu povo, a casa de Jacob; porque se encheram dos costumes do oriente, e são agoureiros (adivinhos; bruxos; feiticeiros) como os filisteus; e se, associaram com os filhos dos estranhos.
7 E a sua terra está cheia de prata e ouro, e não têm fim os seus tesouros: também está cheia a sua terra de cavalos, e os seus carros não têm fim.
8 TAMBÉM ESTÁ CHEIA A SUA TERRA DE ÍDOLOS: inclinaram-se perante a obra das suas mãos, diante daquilo que fabricaram os seus dedos.
9 Ali o povo se abate, e os nobres se humilham: PORTANTO, NÃO LHES PERDOARÁS.
10 Vai, entra nas rochas, e esconde-te no pó, da presença espantosa do Senhor e da Glória da sua Majestade.
11 OS OLHOS ALTIVOS DOS HOMENS SERÃO ABATIDOS, E A ALTIVEZ DOS VARÕES SERÁ HUMILHADA: e só o Senhor será exaltado naquele dia.
12 Porque o dia do SENHOR DOS EXÉRCITOS será contra todo o soberbo e altivo, e contra todo o que se exalta, para que seja abatido;
13 E contra todos os cedros do Líbano, altos e sublimes; e contra todos os carvalhos de Basan;
14 E contra todos os montes altos, e contra todos os outeiros elevados;
15 E contra toda a torre alta, e contra todo o muro firme.
16 E contra todos navios de Társis, e contra todas as pinturas desejáveis.
17 E A ALTIVEZ DO HOMEM SERÁ HUMILHADA, E A ALTIVEZ DOS VARÕES SE ABATERÁ, E SÓ O SENHOR SERÁ EXALTADO NAQUELE DIA.
18 E todos os ídolos totalmente desaparecerão.
19 Então os homens se meterão nas concavidades das rochas, e nas cavernas da terra, por causa da presença espantosa do Senhor, e por causa da Glória da sua Majestade, quando ELE se levantar para assombrar a terra.
20 Naquele dia, o homem lançará às toupeiras e aos morcegos os seus ídolos de prata, e os seus ídolos de ouro, que fizeram para ante eles se prostrarem.
21 E meter-se-á pelas fendas das rochas e pelas cavernas das penhas, por causa da presença espantosa do Senhor, e por causa da Glória da Sua Majestade, quando ELE se levantar para assombrar a terra.
22 Deixai-vos, pois, do homem, cujo fôlego está no seu nariz; porque em que deve ele ser estimado?