segunda-feira, 22 de julho de 2019

O Xeque-mate se aproxima célere


Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Luiz Antônio P.Vale

Eu já escrevi que o grande jogo mundial foi feito para se jogar. Este é seu propósito e razão de existir. Não é para amadores. Mesmo quem não o compreende, quem não sabe jogar, acaba jogando ainda que de forma inconsciente, conduzido. A omissão é uma ação ou decisão em si, devidamente respaldada pelo livre arbítrio. O mesmo raciocínio se aplica as “famílias”, nações e blocos.

O xadrez é um jogo interessante onde são admitidos apenas dois jogadores, ou se está de um lado ou do outro, num tabuleiro de 64 casas, alternando de forma dual brancas e pretas, onde o objetivo é deixar o “Rei” do adversário sob ameaça de captura, sem alternativa de fuga ou confronto, impondo-lhe a rendição incondicional através do xeque-mate.

O jogo global vem sendo jogado há muitos milênios, mas nos últimos séculos tomou contornos mais específicos, e nos últimos 70 anos vem se definindo. Não existe dois ganhadores na lógica dos protagonistas, existe o xeque-mate. Faz-se necessário quebrar paradigmas para entendê-lo. Aqui em terras tupiniquins se mexe um peão por vez no tabuleiro, lá eles movem o bispo, o cavalo e a rainha simultaneamente. As regras são outras. Não existe paixão, existe o jogo.

As grandes “peças” deste jogo movem-se em função de três variáveis: a economia (controle da distribuição ou acumulo de riqueza), a militar (capacidade de emprego do poder armado para impor sua vontade) e o sistema de crenças (religiões, doutrinas e percepções mentais que constroem a concepção de “mundo”, propiciando a interpretação do “certo e errado”, etc...). A dinâmica do jogo acompanha estes três eixos, em grande parte das vezes nesta ordem, mas não necessariamente.

Nosso foco neste artigo será a economia, por isso será tratada por último. Os dois outros eixos receberão apenas uma apreciação sucinta, tendo sido mais extensamente abordados em outros artigos por mim já escritos.

Vamos começar de trás para a frente. No eixo do sistema de crenças o comportamento humano baseia-se, em última instância, naquilo que ele acredita. A realidade é a ilusão na qual ele deposita fé. Por isso antes da ação deve-se conquistar “corações e mente”. Num mundo em transformação o que era verdade hoje amanhã já não o é. As peças do tabuleiro, antes bem posicionadas e fortemente enraizadas para garantir que a estratégia de um jogador funcione, foram caindo e ficando pelo caminho, conforme o outro participante se fortaleceu e aprendeu o jogo.

Dois exemplos desta situação são a queda do Cardeal George Pell e do bilionário Jeffrey Epstein, ambos envolvidos em escândalos financeiros e casos de abuso sexual. São bem conhecidas nos grupos internos as redes de pedofilia e abuso sexual existentes e operantes há séculos em elevados círculos de poder, mas eram intocáveis até poucos anos atrás. O mesmo acontece com Organizações Criminosas apoiadas em parceiros financeiramente robustos e poderosos.

Em 17 de junho autoridades estadunidenses apreenderam, de um navio (MSC Gayane) no porto de Filadélfia, 15,8 toneladas de cocaína, tornando-se o maior carregamento flagrado na história da Alfândega dos EUA. Eles estimam o valor das drogas em US$ 1,1 bilhão. O navio foi financiado para a MSC pelo grupo JP Morgan. Em fevereiro, agentes alfandegários já tinham apreendido 1,6 tonelada de cocaína em outro navio, o Carlotta, também da MSC, ao entrar no porto de Newark. Este não é um negócio para gente pequena. Imagina “lavar” US$ 1,1 bilhão de um único carregamento? À medida que mais informações forem disponibilizadas ao público sobre várias “verdades” hoje tidas como cláusula pétrea, visões e conceitos estratificados de como o mundo funciona serão forçosamente revistos, deixando as pessoas atônitas.

No eixo militar a movimentação é visível na mídia. O aparato do Complexo Industrial Militar precisa de dinheiro para se financiar e qualquer ameaça ao fluxo de recursos precisa ser imediatamente eliminada. As regiões de conflitos, potenciais e em andamento, que existem hoje no Iêmen, na Ucrânia, no Iraque, no Afeganistão, na Síria, na Coréia do Norte, no mar do sul da China e no Irã consomem, e consumirão, uma enorme quantidade de recursos financeiros.

Algumas peças no tabuleiro, percebendo a dinâmica do jogo, já estão reavaliando o lado em que querem estar, como é o caso da Turquia (2º maior exército da OTAN) que adquiriu recentemente o sistema russo SS-400 de proteção antiaérea, mesmo a custa de sua expulsão do projeto do caça furtivo de quinta geração norte-americano F-35 Joint Strike Fighter. As primeiras partes do sistema foram descarregadas de um avião russo no aeroporto de Murted, conhecido como Base Aérea Akinci, perto de Ancara, na Turquia, em 12 de julho de 2019.

Em 1º de julho o mundo esteve a beira de uma hecatombe quando um submarino nuclear russo de “pesquisa” Vladikavkaz, da classe Losharik (Projeto 10831), que trabalha em águas de até 6 mil metros de profundidade mapeando cabos de comunicação (dentre outras coisas), e que hipoteticamente é transportado e escoltado por outro submarino nuclear maior BS-64 Podmoskovye, teve um incêndio de “causa desconhecida”, vitimando 14 membros de sua tripulação, quando navegava submerso no Mar Báltico.

O episódio deixou a todos em extrema tensão, uma vez que poderia ter sido interpretado como um ataque dos submarinos da OTAN que faziam exercícios navais nas proximidades, provocando reuniões de emergência em Moscou e Washington. Uma falha de comunicação e a 3ª guerra mundial teria começado. Aliás, em março foram divulgadas informações pelo analista David Ochmanek, de que em todas as simulações de guerra feitas pela Rand Corporation, os EUA sempre perdem num confronto direto com a Rússia e China juntas. Isto tem elevado o grau de preocupação.

Com o envio de tropas estadunidenses e seus aliados para as zonas de conflito, seguidas de repetidos exercícios militares, as chances de um mal-entendido gerarem um ataque de qualquer das partes aumentaram exponencialmente, dando a sensação que todos estão se preparando para um conflito que, a cada dia, parece mais provável. A retórica belicista do Presidente Trump não contribui para mitigar a tensão. No eixo militar, bem como nas Atividades de Inteligência Estratégica, o Brasil perdeu significativamente a expressão a nível mundial frente aos grandes predadores militares globais, tendo sua relevância adstrita a América do Sul.

Antes de irmos ao último ponto importa frisar que o tabuleiro, sentindo a elevação da pressão na superfície, também tem apresentado tremores, todavia bastante diferentes dos da Sra. Angela Merkel da Alemanha.

Segundo Michael Snyder, de 07 a 14 de julho nosso planeta experimentou uma média de mais de 677 terremotos de magnitude 1,5 ou maior por dia. Isso denota que o número de terremotos globais agora é mais de três vezes acima do normal. Isto posto, o que tem chamado a atenção é que alguns deles, notadamente os de maior magnitude, quando analisada sua assinatura sismográfica, têm apresentado um padrão anormal que destoa dos terremotos naturais. Investigações em curso levam a vários cenários, sem poder ser descartada a hipótese Akademik Lomonosov, dentre outras.

Por fim no primeiro eixo temos a economia. Obter e usufruir da riqueza sempre foi um desejo humano e uma forma de controle, extremamente movida pelo Ego e aquecida pela vaidade. Nesta área é fundamental, como no xadrez, entender o movimento e antecipar-se a ele.  Aqueles que estudam economia, ou por ela se interessam, sabem que grande parte do valor de certos ativos deve-se a percepções e expectativas, notadamente os ativos especulativos.

O mercado de crédito, sejam títulos da dívida ou mercado imobiliário, tem seu componente especulativo. Neste mister não é novidade que enormes bancos, como o HSBC antes e o Deutsche Bank este mês, tem passado por grandes dificuldades, fora bancos menores. Para não nos alongarmos na análise técnica do espectro maior cabe citar, de forma breve, que o estrategista de câmbio do Deutsche Bank, Robin Winkler, escreveu que “a tensão cíclica nos desequilíbrios financeiros globais atingiu níveis vistos pela última vez na véspera da crise financeira” (referindo-se a histórica quebra pela falta de liquidez em 2008 do Lehman Brother, o que deu início a “grande crise”).

Winkler avisa que um sinal de alerta a ser observado é que a correlação entre as taxas de juros reais e os desequilíbrios em conta corrente é tão alta quanto nos picos anteriores à crise. Fundos de investimento, como o RenTec, de James Simons, principalmente hedge funds, iniciaram uma “corrida bancária” de saques que culminou com cerca de US$ 1 bilhão retirados por dia em meados deste mês.

Para perceber os movimentos no tabuleiro podemos olhar, além dos experts do mercado como Fundos de Investimento com suas “inside information”, para o que as nações bem informadas estão fazendo.

Dispondo de agências de inteligência que coletam, analisam e produzem conhecimento maciçamente, verificamos que as principais nações do planeta estão se movendo rapidamente. O que pudemos constatar é que a China e Rússia já vem a alguns anos adquirindo ouro de forma relevante.

A compra de ouro dos bancos centrais nos primeiros cinco meses deste ano é 73% maior do que um ano antes, com a Turquia e o Cazaquistão também se unindo a China e a Rússia como os quatro maiores compradores. É possível constatar que 2018 foi o ano em que bancos nacionais / centrais adquiriram mais ouro desde 1968 e estes volumes atuais estão ultrapassando o volume do ano passado em 73%, tornando possível, se a tendência continuar, prever que 2019 será o maior ano para aquisições de ouro na história.

Em outro movimento, que acredito sincronizado, lemos que a participação do dólar nas reservas internacionais globais atingiu seu mínimo em 20 anos, como informa o último relatório do Banco Central Europeu (BCE). Segundo a mesma fonte em 2018 a participação do dólar nas reservas dos bancos centrais em todo o mundo foi de apenas 61,7% – um mínimo histórico desde a criação da União Econômica e Monetária da UE em 1999.

Por exemplo, em apenas um ano (de abril de 2018 a abril de 2019), Moscou vendeu cerca de 87% dos seus títulos do Tesouro dos EUA e ficou fora da lista dos 30 maiores detentores de dívida pública estadunidense publicada pelo Departamento do Tesouro dos EUA. As informações do Departamento do Tesouro dos EUA revelaram uma tendência nova e bastante preocupante para os EUA: mesmo os aliados mais próximos dos EUA estão se desfazendo dos títulos da dívida pública deles. Por exemplo, em abril de 2019, o Reino Unido liderou o rol dos maiores vendedores dos títulos estadunidenses, tirando do seu portfolio títulos no valor de US$ 16,3 bilhões. O Japão, o segundo maior credor dos estadunidenses, também vendeu títulos no valor de US$ 11,07 bilhões.

A crise no sistema financeiro internacional, ou algum tipo de mudança radical, não parece ser mais uma questão de “se” vai acontecer, mas de “quando”. Pessoas bem informadas apostam que será ainda no 2º semestre de 2019, ou no máximo, na primeira metade de 2020. E o Brasil, como está se movimentando?

Segundo dados do Bacen em maio de 2019 o Brasil possuía reservas US$ 388,09 bilhões, o que vem se mantendo em patamar semelhante a sete anos consecutivos, uma vez que em maio de 2012 nossas reservas eram de US$ 373,91 bilhões. Esta reserva atual é considerada por muitos economistas como elevada e confortável, uma vez que se considerarmos o PIB brasileiro, dá uma sensação de segurança em função do seu montante. Entretanto, além de quantidade deve ser considerada a qualidade dos ativos, vez que poderíamos vê-la como segura, não fosse pela natureza da sua composição.

Surpreendentemente destes US$ 388,09 bilhões temos US$ 363,32 bilhões em títulos e somente US$ 7,98 bilhões em moedas estrangeiras, ou seja, 93,62% das nossas reservas são títulos, o que é uma exposição muito acima dos demais países! Não bastasse a vulnerabilidade óbvia é um péssimo negócio financeiro, pois em 2018 pagamos, em média, 9,5% a.a. sobre os títulos brasileiros que financiam a dívida pública, emitidos para 5 anos, e recebemos 3% a.a pelos títulos norte-americanos que compramos, emitidos para o mesmo prazo.

Não parece uma troca razoável, tendo alguns economistas que ainda dizem com orgulho que está bom, pois a diferença de spread antes já chegou a 15%. Agora façam as contas deste percentual sobre o montante dos títulos. Um país endividado como o Brasil não pode se dar ao luxo de ignorar isto. Trabalhamos para pagar juros.

Para deixar mais clara a frágil situação, que contrária a estratégia dos demais países que mostrei, a participação do ouro nas reservas brasileiras é de insignificantes US$ 3,05 bilhões, ou seja, 0,79% do total. A valorização do ouro, que foi de 35,40% nos dois últimos anos (cotação até maio), não tem sido algo desprezível se comparado ao que recebemos pelos títulos, mas o mais importante agora é a segurança, como todos os países em tempo instáveis tem buscado. Teríamos rentabilidade e segurança.

Fica absolutamente cristalino que, quando vier a crise, o Brasil terá que rezar muito para a credibilidade e confiança dos emissores dos títulos, principalmente os Estados Unidos, estarem em alta, do contrário nossas reservas lastreadas majoritariamente em títulos serão transformadas em mico. Neste cenário a situação será de caos total. Toda a nossa segurança econômica está calcada numa percepção de confiança que gere credibilidade a aquele que nos deve, e não em ativos reais com liquidez garantida como o ouro! É uma aposta alta e muito arriscada para quem administra ativos e tem nas mãos a segurança econômica de um país.

As pessoas que governam uma nação não podem se comportar como um turista na praia que, por falta de preparo adequado, fica inerte ao ver a água do mar recuar e uma sombra enorme se formar no horizonte. China, Rússia, Índia, União Europeia, EUA, Japão, enfim, todos os países bem informados estão flexionando seus músculos e protegendo seus cofres. Sabem o que vem por aí. Observam e mapeiam o que está no fundo do mar e na órbita baixa, antecipando-se e protegendo seus interesses.

Desde a morte de James Vincent Forrestal em 22 de maio de 1949, quando a fratura e o último capítulo começou, até o dia primeiro de outubro, quando espera-se que o General Mark Milley se tornará presidente do Joint Chiefs of Staff dos EUA, passou-se um longo tempo.

Aqui, já são 33 (trinta e três) anos que vemos o Brasil num processo lento e angustiante de deterioração, como gado sendo levado para o abate.
Estamos num mundo conturbado, em severa mutação, cujas consequências vão remodelar as relações de poder de forma dramática. As decisões, ou falta delas, vão repercutir de forma enfática no futuro da nação, podendo mudar totalmente o país como hoje o conhecemos.

Todo jogo acaba ou muda de fase. O xeque-mate se aproxima.

Luiz Antonio Peixoto Valle é Professor e Administrador de Empresas.

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