terça-feira, 27 de agosto de 2019

Favela Bodozal – Bairro Educandos – ZS de Manaus



Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Marco Balbi

Em 17 de dezembro de 2018, 600 casas da Favela do Bodozal em Manaus foram destruídas por um incêndio. O prefeito da cidade decretou estado de calamidade pública para melhor administrar o socorro às famílias.

Eu havia recém retornado de uma viagem à cidade; estivera lá 20 anos atrás. Evidente que tudo estava muito diferente; transformara-se numa metrópole que abriga metade do efetivo do estado do Amazonas e, por isto mesmo, passou a ter todos os problemas mostrados em verdadeira grandeza no incêndio da favela, entre outros: urbanização deficiente com falta de moradia, saneamento básico, problemas de mobilidade urbana, trânsito caótico etc.

Por outro lado, na mesma viagem, estivera na sede do município de São Gabriel da Cachoeira, um dos maiores do país em extensão, lá na região conhecida no mapa do Brasil por todos os brasileiros como a “cabeça do cachorro”, um enorme vazio demográfico habitado por brasileiros indígenas em sua maioria.

Em 1967 foi criada a Zona Franca de Manaus com o objetivo de incluir a enorme região amazônica no mapa econômico e social do Brasil, integrando aquele imenso vazio à nação brasileira. Seria, pois, um programa temporário, que visava garantir a criação de uma indústria local, encarregando-se de criar empregos.

52 anos depois, agraciada com alto volume de subsídios e de renúncias fiscais da ordem de 24 bilhões de reais por ano, a maioria das indústrias que lá operam não passam de montadoras de eletroeletrônicos, produtos de informática, motocicletas e veículos similares ou refrigerantes. Criaram-se 40 mil empregos diretos e indiretos na Grande Manaus, mas o desenvolvimento sustentável não ocorreu.

A liberação de tarifas de importação previstas nos acordos comerciais que o Brasil ora participa, associada às dificuldades logísticas da região tendem a dificultar ainda mais a manutenção da Zona Franca.

Mas, toda a vez que o governo central ameaça a retirada dos subsídios ou rever as renúncias concedidas existe uma grita geral das autoridades locais. Num momento em que se pesam na balança os gastos públicos seria o caso de perguntar e questionar: parte desses recursos não seriam melhor aplicados se destinados a desenvolver de maneira sustentável o interior do Estado do Amazonas, diminuindo a pressão sobre Manaus, evitando a criação de novas Favelas do Bodozal? Que tal um amplo programa de investimentos em infraestrutura e desenvolvimento humano?

O questionamento aqui colocado também vem à luz no momento em que muito se discute, mais uma vez, como preservar, proteger e desenvolver de maneira sustentável a nossa Amazônia, explorando a rica biodiversidade da qual a região é detentora. É muito simplista colocar a culpa nos outros, sejam países de primeiro mundo ou ONGs ou entidades religiosas de diferentes credos que vez por outra se manifestam sobre o que pode ou deve ser ou não feito nesta rica vastidão do nosso território, se nós mesmos, os brasileiros, não decidimos, através de um programa realista, o destino daquela área.

Penso que temos uma oportunidade única para a tomada da decisão.

Marco Antonio Esteves Balbi é Coronel do EB, na reserva. Obs: utilizei no texto observações publicadas recentemente no Estadão em artigo assinado pelo jornalista Celso Ming.

Um comentário:

Anônimo disse...

O destino da área amazônica não diz respeito a nenhuma entidade estrangeira, ainda que os brasileiros demorem a decidir o que fazer dela. Considerar natural que entidades internacionais deem palpite na atuação brasileira na região é mentalmente abrir mão de nossa soberania, ainda mais que se conhece a falácia de a floresta ser "pulmão do planeta".