sexta-feira, 16 de agosto de 2019

O Brasil tem futuro? - 10



Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Fábio Chazyn

Capitulo X: “O que é Futuro?” – Parte II

Parece que as pessoas engolem fácil qualquer conceito-de-esquina, como “as pessoas só se mexem quando mexem no bolso delas”.

Como dizem os americanos, ‘bull-shit’! Ou seja, isso é besteira!

É verdade que a gente pensa no nosso próprio interesse, o que é legítimo porque, afinal, todo mundo tem um estoque de sonhos e compromissos a realizar. E o dinheiro certamente pode ajudar.

Mas somos feitos de outras coisas também. Quem nunca vibrou num jogo da nossa seleção ou nunca se indignou presenciando uma criança sendo maltratada? Essas coisas não mexem no nosso bolso, mas mexem muito no nosso espírito.

Nos encantamos vendo que fazemos parte de coisas maiores do que nós mesmos, como indivíduos. Quando planejamos em conjunto e lutamos em conjunto, a vitória tem mais gosto. Quando trazemos o título do time p’ra casa, ou quando nossos queridos realizam feitos, parece que nos alegra tanto ou até mais do que as nossas próprias conquistas.

Quando jovens procuramos promover o que nos traz prazer. Com o tempo vamos aprendendo o prazer de cooperar. Aprendemos que, em grupo, podemos viver melhor. Ao longo dos tempos, os grupos foram evoluindo de clãs e tribos até chegar no Estado. Se, no processo, a realidade física de cada um condicionou os diferentes modos de vida, as regras básicas da convivência no seio de cada um não mudaram. A lealdade sempre foi, e continuará sendo, a premissa básica para a continuidade das sociedades.

De fato, sem a confiança no grupo não teríamos evoluído. A lealdade foi o fio condutor desde os grupos ‘naturais’, sob autoridade informal, passando pelos tempos do ‘Direito Divino’ das dinastias, até chegar nos dias em que o ‘Pacto Social’ constitui o Estado-Nação sob a proteção de governos transitórios.
Enquanto o Pacto Social versa sobre o que temos que fazer, o governo se preocupa com o como fazer as coisas que temos que fazer para realizar o máximo de satisfação na comunidade.

O Pacto Social, ou a Carta Magna ou ainda a Constituição de uma Nação, são os nomes dados às ferramentas que o Estado coloca à disposição dos governos, como a estrutura de  funcionamento da autoridade, mas sobretudo oficializa a obrigação da prevalência do caráter de lealdade nas relações de convivência dos cidadãos, independentemente do poder atribuído ou conquistado de cada um. Daí a necessidade da Constituição de promover a lealdade e o patriotismo.

A importância dessa exaltação fala por si própria nos casos emblemáticos dos grupos de maior coesão, como entre os muçulmanos e sua ‘religião-política’ ou entre os americanos. Se os primeiros professam a leitura do seu pacto social, o Corão, pelo menos 5 vezes por dia, no caso dos Estados Unidos, é um obrigatório cotidiano para TODAS as idades jurar devoção e lealdade para com a nação, “mantendo-a indivisível com liberdade e justiça para todos”, através da veneração de sua bandeira, a representação concreta desses valores.

O projeto dos americanos teve sucesso. A Constituição deles está completando dos 232 anos de idade. Essa longevidade está associada ao fato de ter somente 5 folhas, com 7 artigos sobre a estrutura do Estado e 27 emendas sobre os direitos e obrigações dos cidadãos.

O projeto dos brasileiros não tem tido a mesma sorte. Desde a independência, há 197 anos, já tivemos 7 Constituições. A última, de 1988, mostrou que não conseguiu evitar a deslealdade da usurpação dos poderes da República por maus patriotas. Vamos ter que revisitar nosso Pacto Social para evitar a desintegração da sociedade brasileira, já em processo acelerado.

Já tarda a elaboração de um Projeto Estratégico de Nação que tem que ser a base dos trabalhos dos próximos Constituintes. Sem esse Projeto Estratégico de Nação corre-se o risco de repetir-se a tragédia da nossa Constituição Federal de 1988 que nasceu como a Constituição-Cidadã e está morrendo como a Constituição-Vilã afogada no mar dos seus 250 artigos, mais 100 Disposições Transitórias e outras mais de 100 emendas.

O Projeto Estratégico de Nação tem que dissecar assuntos polêmicos, confrontar as opiniões, ponderá-las e pacificá-las. Com calor, mas sem dor.

Armamento da população, o Estado como provedor da educação, da saúde e da segurança da sociedade, autodeterminação sexual, descriminalização de drogas, modelo eleitoral, modelo federativo, pena de morte, serviço comunitário, o papel social e econômico do idoso, a prioridade da criança, a propriedade da água e da energia, o direito à prosperidade.

Todos esses temas, e outros tantos, com as opiniões dos Constituintes, notórios representantes da sabedoria da sociedade, não podem se confinar nos gabinetes para depois se enfiar goela abaixo dos que são os mais interessados. Têm que ser expostos pelas mídias televisiva e digital à apreciação de todos os cidadãos que, via referendo popular, têm que poder expressar suas preferências.

Para ser longeva, a nova Carta Magna tem que começar com bons conceitos e se concentrar nos princípios. Em vista da tecnologia dos tempos modernos, ela poderá dar luz ao que outrora se pensava ser utopia. Ela poderá promover a democracia-participativa ensejando os meios para os cidadãos tutelarem o seu próprio futuro.

É o enterro do “deixa-comigo-que-eu-quebro-teu-galho” dos “gênios-populistas-mau-caráter” que gostam de repetir que o povo brasileiro só pode ter liberdade quando souber usá-la; uma besteira equivalente a dizer que “um sujeito não pode entrar na água antes de saber nadar” ou que “o brasileiro só se mexe quando mexem no bolso dele”, com a intenção de desqualificar o seu espírito de coletividade, de cidadania.

Chega de manipulação para manter o brasileiro na ignorância e o Brasil no subdesenvolvimento. Isso é coisa de colonialista burro que come galinha dos ovos-de-ouro.

Agora é a hora da virada. A hora de fazer do limão, uma limonada.

A hora de fazer do presente, o começo do futuro!

Fabio Chazyn, empresário, engenheiro, cientista político, mestre em história econômica pela London School of Economics e escultor. Autor do livro: “Consumo Já!” – Por um Novo Itamaraty (2019) - fchazyn@chazyn.com

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