sábado, 10 de agosto de 2019

O Brasil tem futuro? - 5


Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Fábio Chazyn

Capitulo V: “Comércio Exterior Patriótico”

25% da população economicamente ativa está sem emprego há anos! As famílias estão sobrevivendo na maior precariedade, sem ter certeza se vai comer amanhã. Quanto tempo mais vai dar p’ra viver nessa insegurança? Enquanto isso, os donos do poder vão pedindo confiança em dias melhores. O bom senso grita que isso só pode funcionar se começarmos a construir a estrada para o futuro. Se um dos trilhos é ‘confiança’, o outro tem que ser ‘criação de empregos’

Não há alternativa. A recuperação da economia com criação de empregos tem que ser o leitmotiv obsessivo do governo Bolsonaro. Vai privatizar? Tem que criar empregos. Vai reduzir o déficit fiscal? Tem que criar empregos. Vai aumentar as exportações? Tem que criar empregos.

A venda de um poço de petróleo no Pré-Sal tem que ser um pretexto para obrigar o investidor a comprar o navio-plataforma made-in-Brazil. A venda de grãos pelo agribusiness tem que ser um pretexto para obrigar o comprador a construir uma ferrovia ou um porto. A saída de uma empresa montadora do Brasil que procura a lógica da melhor localização no cenário mundial, tem que ser um pretexto para compensar o País privilegiando a cadeia produtiva nacional. É preciso tomar uma atitude para compensar o nosso combalido mercado local. E fazer do limão, uma limonada!

Nessa hora o critério da política de conteúdo local não pode ser relativizado. Criar empregos no Brasil tem que ser condição ‘sine qua non’ para se concluir negócios no comércio exterior. É preciso entender que privatizar ou exportar não é somente vender ativos ou produtos. É vender mercados! E mercado é “coisa pública”. A monetização de produtos e de mercados tem que ser diferenciada. Quem quer o privilégio de explorar o nosso mercado, seja de venda como de compra, tem que pagar por isso.

Temos muito a aprender com a política de comércio exterior estratégico adotado pelos chineses. Na China, não se consegue produzir nada que não traga vantagem estratégica para o país. As aprovações oficiais não se limitam a critérios quantitativos. Há que passar pelo crivo da qualidade, ou seja, do que não prejudica o “plano estratégico de nação”!

Como na China, no Brasil o governo não pode fingir que a política liberal funciona como nos países já desenvolvidos. Em países que ainda precisam incorporar populações no processo produtivo, é necessário ter uma política deliberada para incentivar setores estratégicos para se proteger de consequências negativas embutidas nos negócios internacionais promovidos indiscriminadamente.

O comércio exterior, a exemplo do disciplinamento que deve ser imposto ao investimento estrangeiro, tem que ser conduzido com solidariedade entre as empresas que o promovem e o interesse da Nação, pois é esta que tudo enseja. Ou seja, não basta que uma negociação internacional gire lucro para o privado, é necessário que ela seja também estratégica para o público.

Se vivemos em condições de independência política, o nosso comércio exterior tem que ser PATRIÓTICO, pois não seria patriótico permitir que nações estrangeiras o utilizem para condicionar o perfil futuro da nossa economia só para beneficiar os seus interesses momentâneos. É claro que não vamos querer que os estrangeiros determinem o que seremos no futuro!

Quando FHC decidiu privatizar o setor energético não houve essa preocupação. Vejamos o que aconteceu com o aço brasileiro: O Brasil, um dos maiores fornecedores de minério de ferro do mundo, atende a 20% da demanda mundial. É a energia elétrica que agrega valor ao minério de ferro para ele virar aço. Quando as empresas estrangeiras compraram as concessões para explorar o setor elétrico brasileiro, o custo de energia na produção do aço representava 15% do preço de venda do aço. 18 anos depois esse custo da energia subiu para 25% do preço do aço.

O capital estrangeiro que vendeu energia se deu bem. Mas o nossa exportação de aço se deu mal.

No final, apesar de atender os 20% da demanda de minério de ferro do mundo, não conseguimos ter preço competitivo para suprir mais do que 2% da demanda de aço! Valeu a pena privatizar o setor elétrico sem regras estratégicas para combinar interesses dos dois lados? Será que não tinha um jeito de combinar investimento estrangeiro com ajuda às nossas cadeias produtivas? Vale a pena exportar matéria-prima e importar produto agregado?

De que adianta mecanizar a agricultura sem propiciar alternativas de emprego e renda no setor industrial? De que adianta privatizar um poço de petróleo ou uma estatal sem o comprador se comprometer na ajuda da criação de empregos no País?

Se vamos privatizar a coisa pública, que seja sem perder de vista o dia de amanhã. Quando se vende empresas ou parte de empresas estatais, é preciso avaliar o impacto que a venda produz sobre a cadeia produtiva e não somente o caixa produzido na venda. Fazer isso é como dar tiro-no-pé!

O avanço do investimento chinês no Brasil é o resultado do trabalho da embaixada da China em Brasília que atua com o critério comercial estratégico dos chineses, enquanto as nossas embaixadas seguem sem pessoal capaz de trabalhar com um critério comercial estratégico para o Brasil.

As embaixadas brasileiras têm que ser um ‘front’ de batalha a serviço do Projeto de Nação. Para o bem do cidadão brasileiro e do futuro do Brasil!
Próximo Capítulo da Série “O Brasil tem Futuro?” – Cap. VI: “Sartre versus Einstein?”

Fabio Chazyn, empresário, engenheiro, cientista político, mestre em história econômica pela London School of Economics e escultor. Autor do livro: “Consumo Já!” – Por um Novo Itamaraty.

2 comentários:

Loumari disse...

O que se pode esperar de um Estado quando vira asilo dos INÚTEIS, dos INCOMPETENTES, REFÚGIO DOS INDISCIPLINADOS, DOS CORRUPTOS, das madrinhas da guerra...?

Já dizia Samora Moisés Machel: "Quando os grandes estão corrompidos, os pequenos seguem o exemplo."

LIÇÃO DA VIDA

Bendito aquele que admira mas não inveja,
Segue mas não imita,
Elogia mas não bajula,
Lidera mas não Manipula.

Anônimo disse...

Ao Loumari disse...9:00 AM
Será que o "loumari" tá falando do lula ou do FHC ?
"Mi lembrei" de um adorador do FHC, que adorava CENCURAR comentários.
Augusto Nunes (o velho marinheiro), quando era questionado por um de seus "enganados" por ter seu comentário CENSURADO, respondia: "Aqui não chegou nada, tenta mandar de novo" (vai tentando). Augusto Nunes o Velho Marinheiro.
https://www.youtube.com/watch?v=fMqJZZeZxmM