terça-feira, 17 de setembro de 2019

Mocinho é Mocinho. Bandido é Bandido...


Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Fábio Chazyn

Quando a gente vê um gato e um cachorro, tem que chamar o gato de gato e o cachorro de cachorro.

Quando a gente vê um mocinho e um bandido, tem que chamar o mocinho de mocinho e o bandido de bandido. O cidadão é o mocinho e o bandido é quem está organizado contra o cidadão.

O cidadão se sente lesado pelo Estado por que este foi ocupado pelos bandidos.

O contribuinte se sente lesado pelo fisco porque este foi ocupado pelos bandidos. O mocinho se sente ultrajado pela justiça porque esta está mais preocupada em proteger o direito do contraditório (digo) do bandido, do que o do mocinho.

Um sistema que permite recursos sem fim é um ultraje contra o cidadão de bem. O resultado desse sistema de proteção ao bandido é um estoque de 80 milhões de processos pendentes na Justiça brasileira!

Os bandidos têm o poder porque estão organizados. Agora falta organizar o cidadão.

No front externo, a situação é mais ou menos igual. Os bandidos estão organizados. Falta organizar as fileiras dos mocinhos.

As maiores potências mundiais estão em disputa para dominar o mundo. Para o Brasil, sobra lutar pelo menos-mal.

Se conseguirmos nos organizar, vamos conseguir tirar proveito da disputa entre a China e os Estados Unidos.

No passado tínhamos um sistema de industrialização pelo processo de substituição de importações em que as multinacionais tiravam proveito da reserva-de-mercado e as agências multilaterais (FMI, Banco Mundial, BID, OMC) as protegiam contra os perigos dos países que as abrigavam.

Agora, estamos entrando num novo modelo: o modelo da livre movimentação dos capitais supranacionais. Esse novo modelo devolve uma certa dose de soberania aos países que, via tarifação e regulações seletivas, podem escolher os parceiros nas cadeias-produtivas que lhes facilitem posições de mais agregação-de-valor.

A China está promovendo o grande projeto da Nova Rota da Sêda, o BRI – Belt & Road Initiative, investindo na infraestrutura dos países que participarão da cadeia-de-valor a ser integrada pela China, que se debate para conseguir incorporar anualmente mais de 10 milhões de trabalhadores no mercado de trabalho do país. E para alimentá-los nas zonas urbanas!

Por sua vez, os Estados Unidos precisam defender os seus feudos duramente conquistados pelas guerras do século XX. O modelo dos Blocos Econômicos Regionais está cambaleante devido às contradições internas produzidas pelos países favorecidos durante a maturação desses Blocos. A administração Trump pautada nas preferências / personalismos está dando o golpe de misericórdia nos Blocos Econômicos dos países do Mundo Ocidental. E agora está alinhando a cadeia-de-valor que interessa ao seu país.

A simpatia do Trump à nomeação do Eduardo Bolsonaro para a Embaixada do Brasil em Washington faz parte desta estratégia. Ao Brasil sobra tentar tirar vantagem dessa oportunidade. O patrono da diplomacia brasileira, o grande Barão do Rio Branco, nos ensinou que mediar conflitos entre outros países rendia lucros. Rendeu-nos novos territórios maiores do que as áreas da França e da Alemanha reunidas.

Organizados, podemos repetir a dose ajudando o novo Embaixador a mediar os conflitos entre os Estados Unidos e outros países, que não são poucos... Precisamos dessa estratégia para conseguir modernizar a nossa infraestrutura. Precisamos implantar o conceito do “Comércio Exterior Patriótico”.

“Comércio Exterior Patriótico” vem a ser o comércio exterior com um ôlho nos interesses privados dos exportadores e outro ôlho nos interesses públicos para capacitar o Brasil no enfrentamento do futuro.

Precisamos pensar menos nos negócios ‘spot’ e mais nas parcerias de longo-prazo.

Precisamos recapacitar o Itamaraty para promover menos o B2B, ‘business-to-business’, e mais as estratégias que nos coloquem no tôpo das cadeias-de-valor que estão se formando no Mundo.

Precisamos organizar a sociedade para apoiar o esforço de quem está dirigindo o nosso País. Chega dessa burrice de ajudar a tempestade a afundar o navio. Precisamos ajudar a organizar a sociedade a enfrentar os bandidos organizados. Eles estão em todo o lugar e dominam as instituições brasileiras.

A democracia representativa brasileira está em crise. Precisamos da participação popular para enfrentar essa situação.

A sociedade tem que organizar o Canal do Cidadão como meio de expressão permanente. Robôs com Inteligência Artificial, aprendendo as preferências da sociedade, já podem sair da ficção científica para ajudar a “representar” o povo. É a era moderna da Democracia Participativa!

Entretanto, a primeira coisa em se focar é a definição de um Projeto Estratégico de Nação. Precisamos definir que tipo de sociedade queremos ser.

Uma sociedade do vale-tudo, uma sociedade tutelada por semi-deuses de um STF ou uma sociedade da ética do comportamento do cidadão?
Para essa definição, temos que nos sintonizar no Canal do Cidadão e, a partir daí, promover a revisão da nossa Constituição.

Precisamos de uma “Constituição de Princípios”.

O movimento das “Diretas Já!” ficou velho. Precisamos de novos movimentos. “Patriotismo Já!” ou “Empregos Já!” são bandeiras mais atuais.

A consequência maior das “Diretas Já!”, a Constituição Cidadã de 88, ficou superada. Está morrendo afogada nos seus 250 artigos, 100 Disposições Transitórias e mais de uma centena de emendas. Gerou uma constelação de mais de 5 milhões de leis para regulamentar um terço dos artigos. Ainda falta regulamentar os dois terços restantes! Virou um emaranhado regulatório que ninguém consegue dominar e, por isso, o STF, (ar)roubando o monopólio da interpretação, perpetua o seu poder sobre a sociedade e o Estado.

A Constituição-Cidadã morreu como Constituição-Vilã. Está faltando sepultá-la.

Fabio Chazyn, empresário, engenheiro, cientista político, mestre em história econômica pela London School of Economics e escultor. Autor do livro: “Consumo Já!” – Por um Novo Itamaraty (2019)
fchazyn@chazyn.com

3 comentários:

Anônimo disse...

Mas essa especialidade é ensinada a exércitos de outros países.

Anônimo disse...

Precisamos de uma nova constituição já!

Unknown disse...

Interessante o artigo. Sem dúvida precisamos definir a sociedade de princípios. Saber a direção 1ye queremos ir e impedir a continuação da corrupção, das falcatruas e apoiar a renovação dos agentes politicos