domingo, 12 de julho de 2020

“Fake News” já assustavam governo em 1890


Edição do Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Jorge Serrão - serrao@alertatotal.net
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O impreciso termo “Fake News” é um neologismo desta Era Digital. \mas o problema é velho no Brasil. Incomoda os poderosos desde o começo da República. O Decreto 295, de 29 de março de 1890, sujeitou ao Decreto 85 A, de 23 de dezembro de 1889, todos aqueles que originaram “falsas notícias e boatos alarmantes dentro ou fora do Brasil”, via imprensa, telegrama ou por qualquer outro modo para pô-los em circulação”.

Alívio? Quer dizer que nosso Supremo Tribunal Federal não está tão assim na vanguarda do atraso? Ironia da História? Será que a prática do passado serviria pára justificar o estranho inquérito cheio de segredos em que o STF opera como denunciante, investigador, processador e julgador? Vale reler, na íntegra e no estilo da língua portuguesa do final do século retrasado, o texto que ficou registrado na Coleção de Leis do Brasil - 1890, Página 499 Vol. 1, fasc III (Publicação Original):

O Generalissimo Manoel Deodoro da Fonseca, Chefe do Governo Provisorio da Republica dos Estados Unidos do Brazil, constituido pelo Exercito e Armada, em nome da Nação, considerando:

Que com prejuizo da ordem e da paz publica teem-se posto em circulação falsas noticias e boatos aterradores, com o intuito manifesto e anti-patriotico de favorecer condemnaveis especulações;

Que taes noticias e boatos prejudicam consideravelmente o credito do paiz no exterior, abalando a confiança na estabilidade das instituições e na responsabilidade dos compromissos contrahidos pela Nação;

Que, além disso, por esse modo tem-se procurado produzir apprehensões e receios no espirito publico e alarmar a opinião, que aliás recebeu e acceitou com perfeita tranquillidade e plena confiança o novo regimen em todo o paiz;

Que ao poder publico corre o dever de prevenir e evitar todas as causas de perturbação social, assegurando e garantindo a ordem indispensavel para a franca e licita expansão de todas as actividades e desenvolvimento do progresso nacional;

Que o regimen da injuria e dos ataques pessoaes tem por fim, antes gerar o desprestigio da autoridade e levantar contra ella a desconfiança para favorecer a execução de planos subversivos, do que esclarecer e dirigir a opinião no exame dos actos governamentaes;

Que o Governo, não pretendendo impedir nem oppor pêas ao exercicio do direito, aliás reconhecido, da livre discussão sobre os seus actos, não póde, entretanto, permanecer indifferente em presença da acção pertinaz e criminosa dos que intentam por todos os meios crear a anarchia e promover a desordem;

Que, finalmente, taes actos, por seus proprios intuitos e em uma situação ainda anormal, como é aquella em que se acha o paiz, reclamam medidas de caracter excepcional para a sua completa e efficaz repressão, a bem da ordem; Decreta:

Art. 1º Ficam sujeitos ao regimen do decreto n. 85 A, de 23 de dezembro de 1889, todos aquelles que derem origem ou concorrerem pela imprensa, por telegramma e por qualquer outro modo para pôr em circulação falsas noticias e boatos alarmantes, dentro ou fóra do paiz, como sejam os que se referirem á disciplina dos corpos militares, á estabilidade das instituições e á ordem publica.

Art. 2º Exclue-se da generalidade desta disposição a analyse ou a discussão oral ou escripta, por mais severa que seja, sobre os actos do Governo, tendo por fim denunciar, corrigir ou evitar os erros da publica administração, comtanto que não contenha injuria pessoal.

Art. 3º Quando qualquer destes delictos for commettido fóra da Capital Federal, o delinquente será para ella conduzido preso e ahi submettido ao julgamento da commissão instituida pelo referido decreto.

Art. 4º Revogam-se as disposições em contrario.
O Ministro e Secretario de Estado dos Negocios da Justiça assim o faça executar.
Sala das sessões do Governo Provisorio, 29 de março de 1890, 2º da Republica.
Manoel Deodoro da Fonseca.
M. Ferraz de Campos Salles.
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É bastante curioso rever um Decreto dos tempos em que uma República proclamada autoritariamente tentava superar a revogação abrupta da Monarquia. Irônico revisar um País que, de tempos em tempos, sofre de surtos ditatoriais, com abusos de autoridade e demonstrações de força do centralizador Poder Executivo. A novidade de agora é que, na Era Digital, quem pega pesado é o Poder Judiciário.

Por isso, fica mais interessante a gente ler, na revista Época, uma entrevista exclusiva na qual o supremo magistrado e Presidente do Tribunal Superior Eleitoral, Luís Roberto Barroso, proclama: “Milícias digitais são terroristas verbais que se utilizam da internet para atacar as pessoas e destruir as instituições”. Barroso se esquiva de comentar sobre os inquéritos que não estão sob sua relatoria. Mas não hesitou em sobre as notícias falsas – tema que o TSE (ops, Justiça Eleitoral) abraçou como mote de propaganda institucional.

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Barroso: “Sobre as fake news e sobre os comportamentos antidemocráticos eu quero falar, porque acho que há uma consideração importante. Nós defendemos a liberdade de expressão. Eu não me preocupo particularmente com críticas ao Supremo. Acho que quem vai para o espaço público tem que estar preparado para ouvir crítica justa, injusta, construtiva ou não. Eu lido com tranquilidade com isso mesmo quando leio barbaridades a meu próprio respeito. Portanto, estar no espaço público é estar sujeito a crítica. E até acho  que a expressão particular de que o Supremo é tão ruim que precisa ser fechado, eu não concordo, mas acho que ela faz parte da liberdade de expressão. Nem todos concordam, mas eu acho. Mas, agora, a articulação efetiva e concreta para fechar uma instituição democrática prevista na Constituição, eu acho que isso, sim, você pode desarticular. E, se um agente público se manifestar nesse sentido, eu acho que é crime de responsabilidade. Há coisas que um particular pode fazer, mas quem jurou respeitar a constituição não pode. As democracias têm que ter o direito e o dever de legítima defesa, não devem ficar inertes quando estão sendo atacadas. O Congresso Nacional revogou medidas do presidente da República, elas foram revogadas e a Constituição foi cumprida. O STF derrubou decisões do governo, houve choros e ranger de dentes, é certo, mas o que o Supremo decidiu valeu e a Constituição foi cumprida. Portanto, embora haja muitas vezes uma retórica criticável, a verdade é que não houve atos concretos de desrespeito, seja ao Congresso, seja ao Supremo, fora essa retórica. No que diz respeito à defesa da democracia e defesa de direitos fundamentais, acho que o Supremo se saiu muito bem. E acho que, na epidemia, o Supremo prestou um belo serviço ao país. Faço uma defesa veemente do Supremo, que fez bem ao país. Não é culpa do Supremo que o real foi a moeda que mais desvalorizou. Não é culpa do Supremo que o mundo hoje olha para o Brasil atônito com a maneira como nós tratamos a pandemia. É preciso ter a compreensão dos fatos como eles são”.

Barroso: “Acho que alguns dos principais anunciantes mundiais estão se recusando a fazer publicidade em mídias sociais justamente por acharem que havia uma certa leniência com comportamentos associados a discursos de ódio, discursos racistas, discursos de supremacia branca. Coisas que são completamente inaceitáveis no mundo contemporâneo, nas sociedades civilizadas. Há uma onda mundial positiva de enfrentamento de notícias fraudulentas e de enfrentamento de campanhas de ódio e de campanhas racistas. As plataformas já agora se deram conta de que tem um problema reputacional em elas serem associadas a essa degeneração da democracia. Sendo assim, todas se mostraram cooperativas e nós pensamos a mesma coisa em relação a evitar a censura, mas coibir os compartimento ilegítimos. E já temos uma estratégia”.

Barroso: “Em primeiro lugar, contar com as plataformas tecnologias e com meios tecnológicos de desabilitar contas criminosas e parar robôs. Em segundo lugar, contamos com a imprensa profissional, que sabe separar fato de opinião, que se move por preceitos éticos e que possa fazer o filtro dessa bobagens que circulam nas redes, ao lado dos checadores de fato. E, por fim, contamos com a conscientização da sociedade.  Temos uma campanha contra fake news já engatilhada e que deve entrar no ar nas próximas semanas”.

Barroso: “Eu tenho a teoria de que a integridade vem antes da ideologia. Portanto, em primeiro lugar, as pessoas têm o dever de serem corretas, honestas. No enfrentamento da corrupção, eu mesmo digo que não tem corrupção de direita ou de esquerda, porque a integridade vem antes dessas escolhas ideológicas. E evidentemente isso vale também para campanhas fraudulentas. Uma das campanhas que o TSE pretende fazer é justamente para pessoas não disseminarem notícias fraudulentas ou notícias sem checar a autenticidade. O Brasil precisa de um choque de Iluminismo e um choque de integridade também. O que eu destacaria como muito importante no combate às fake news é uma preocupação que todos temos de não instituir um sistema de censura, seja uma censura feita pelo TSE, pública, digamos assim, seja feita pelas próprias redes sociais, uma censura privada. Portanto, o uso de perfis falsos, os impulsionamentos artificiais, os robôs, porque este é um controle que tem como fazer com meios tecnológico sem intervir no conteúdo. No conteúdo acho que tem que interferir por exceção e não por regra, quando viole os termos de uso dessas empresas, que impedem manifestações de ódio, incitação ao crime, manifestações racistas. Nós precisamos combater sob pena de degeneração da democracia. Essas milícias digitais são terroristas verbais que se utilizam da internet para atacar as pessoas e para destruir as instituições e não para travar o bom combate de ideias, que é para isso que temos a internet unindo as pessoas nessa ágora eletrônica. É para disputarem o argumento, não para terem comportamentos criminosos e destrutivos”.

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O progressista Barroso coloca para discussão questões relevantes. Isto contribui para a construção de um debate democrático em um País, histórica e culturalmente, assombrado por surtos autoritários. Os segmentos esclarecidos da sociedade brasileira não podem se omitir nessa discussão fundamental para o aprimoramento institucional.






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Jorge Serrão. Edição do Blog Alerta Total de 12 de Julho de 2020.

Absurdos pequenos, médios e grandes



Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Carlos Maurício Mantiqueira

O uso “obrigatório” de máscaras é apenas um experimento psico-social.

O brasileiro finge que obedece. Um rio não discute com o obstáculo; apenas o contorna. Para quê discutir com pessoas mal intencionadas, que se ouvirem VTNC vão pensar que é proposta de acordo ?

Um absurdo médio é ver “otoridades” lutando contra o uso da cloroquina.

Um ex-secretário da saúde do cervídeo estadual, salvou-se porque a tomou a tempo.

Absurdos grandes mesmo há dois.

Após vinte e dois meses do atentado contra a vida do então candidato, hoje Presidente da República, a “pulissa” ainda não sabe quem foram os mandantes do crime.

Podem alegar que o celerado agiu como “lobo solitário” mas só engolirá essa versão quem tem uma solitária dentro do intestino.

Outros dirão que o panaca está “blindado” pelo urubusário, coisa vexatória para todos os brasileiros de bem.

Na verdade o maior absurdo de todos é ver dona Onça apática diante de um quadro tão sinistro.

Estará na menopausa ou o “aparelhamento” das Forças é a verdadeira causa ?

Por enquanto vamos engolindo esses desaforos. No dia da Fúria não se salva nem quem tem privilegiados foros.

Carlos Maurício Mantiqueira é um livre pensador.

Mundo Desmascarado


Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Carlos Henrique Abrão

O mundo literalmente ficou paralisado em razão da debilidade sanitária provocada por um vírus cujos estudos ainda são incipientes. No tempo presente todos devem usar máscaras e manter higiene rígida para que a vida possa paulatinamente, e ninguém sabe quando nem como, voltar ao normal.

O que fica nítido e latente é que caiu a máscara da globalização, da exclusão social e dos Países emergentes, notadamente. Quando diziam que uma economia de trilhões de dólares de fundos estrangeiros jamais seria abalada e os negócios pipocariam com maior velocidade, tudo foi por água abaixo.

A doença ajudou a compreender e desmascarar vários mitos. O primeiro da fragilidade humana. O segundo do distanciamento social e hoje pessoal e o último e talvez o mais importante a crise é generalizada e merece tratamento de choque em especial na pobre América Latina.

Sem o apoio, conforme órgãos internacionais, de dois trilhões e meio de dólares muitas convulsões sociais acontecerão. Já temos o início da Sérvia a demonstrar que o caos do emprego, da fome e da miséria nunca foram vistos mesmo em tempo de guerra.

O que na realidade aconteceu poucos sabem,como um vírus tem tanta força para se espalhar, contaminar e matar, e só se propaga em pessoas, não tem contaminação entre animais ou vegetais, o que é incrivelmente pouco pesquisado e respondido.
Fomos desmascarados. A opinião pública, a mídia, o governo, os políticos e todo o etablisment que não funciona e mostrou-se inoperante. O quadro de mais de 5 mil comunas é péssimo pois há uma certa autonomia que fica destruída pelo poder do governo estadual, e a União pouco ou nada pode fazer, exceto destinar recursos financeiros.

Seria ideal que houvesse um grupo profissional um do Município outro do estado e finalmente do Governo Federal: 3 pessoas que avaliariam a situação local para abertura do comércio e providências multidisciplinares em termos de saúde e compra de materiais.

Houve um enorme sucateamento da máquina,com perdas salariais e corte de emprego, hoje já alcançamos a marca de 30 milhões desempregados numero bastante superior aqueles com carteira assinada. O que fazer daqui para frente? Um programa de choque e uma austeridade sem igual.

O mundo se tornou pequeno, fragilizado e impotente perante o vírus, até Nações ricas não revelaram capacidade de enfrentamento todos sairão perdendo e isso somente comprova que temos muito a pesquisar e decifrar, já que a total destruição do tecido econômico é preocupante e alarmante.

Serão necessários anos para que voltemos a ter crescimento e desenvolvimento. O vírus que trouxe tantos problemas e milhões de mortes representa um sinal de alerta para evidenciar que estamos no caminho errado.

Necessitamos de mais igualdade social e menos falatório dos governantes e mais ação pois que se o remédio ainda não está pronto muitos outros serão precisos para enterrar esta terrível e insana patologia que varreu a humanidade no coração do século XXI.

Carlos Henrique Abrão (ativa) e Laércio Laurelli (aposentado) são Desembargadores do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo.

sábado, 11 de julho de 2020

Até quando Bolsonaro agüenta o novo estilo?


Edição do Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Jorge Serrão - serrao@alertatotal.net
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É leitura obrigatória para ideólogos o prefácio do “Descarbonário” (Ubook, 492 pp), recém lançado livro do pragmático ambientalista Alfredo Sirkis - morto ontem, aos 69 anos, em um acidente de carro, às 13h 30min, no Km 74 do Arco Metropolitano (BR-493), em Nova Iguaçu, no Rio de Janeiro. Sirkis ia encontrar a mãe, de 97 anos, no sítio da família, em Vassouras.

Sua obra derradeira é uma ironia com “crédito de carbono” e uma brincadeira com “Os Carbonários: memórias da guerrilha perdida”, primeiro livro do Alfredo Sirkis, relatando seu passado de combate para tentar implantar o comunismo no Brasil, durante o regime dos Presidentes-Generais (popularizado, malandramente pela esquerda, como “Ditadura”).

Vale pinçar alguns trechos relevantes da leitura que Alfredo Sirkis (fundador do Partido Verde e da Rede Sustentabilidade) faz da realidade no “Descarbonários”: “Politicamente, acredito que a democracia precisa tanto de uma esquerda democrática quanto de uma direita civilizada, e que a alternância entre ambas é necessária, pois as duas servem a circunstâncias históricas dadas. O centro pode se articular com uma ou outra dependendo da situação concreta”.

Sirkis faz uma pergunta que merece muita reflexão: “Não sabemos se o ciclo reacionário que o mundo e o Brasil atravessam é curto ou longo. Um soluço da história ou o novo normal?”. O autor acrescenta, em outro trecho:  “Rejeito cabalmente a esquerda autoritária, leninista ou populista, e a direita reacionária ou fascistoide. Sou crítico das políticas identitárias em sua atual deriva, tanto à esquerda quanto à direita. Sou adepto da geleia geral. Isso talvez faça de mim um personagem do “centro radical”.

Outro comentário importante do Sirkis: “Em matéria de segurança, sou, vejam só, mais à direita. Não tolero “dar mole” para bandido – seja o traficante ou a política de “arreglo”, sejam os milicianos – e critico a leniência do nosso sistema penal com relação ao crime violento. Não acredito no mito do “bandido vítima da sociedade”. Considero um insulto aos pobres. Esquerdistas já me acusaram de ser de direita por causa disso. Tenho horror à desordem urbana. Se ser linha-dura em relação aos criminosos que atormentam nosso cotidiano e ameaçam nossas famílias significa ser de direita, que assim seja, pelo menos nesse departamento. Enfim: ideologia, não preciso de uma para viver – parafraseando (e contrariando) o verso do meu saudoso amigo Cazuza”.

As reflexões do falecido Alfredo Sirkis são muito úteis para uma análise correta do momento político brasileiro. Estamos na transição da “Nova República de 1985 (na qual a social democracia se esgotou na canhotice incompetente e radical) para uma direita que se elegeu de modo radical, mas que caminha a passos largos para um centro-direita, com sotaque mais conservador. No meio desse processo, um Mecanismo (reacionário da mudanças) que se tenta se reinventar, moldando-se à “nova” ordem.

A pergunta mais intrigante do momento de transição é: “Até quando sobreviverá o estilo Jair Bolsonaro?”. A resposta sincera e verdadeira vai desagradar aos bolsonaristas mais fanáticos: Já era o estilo Bolsonaro (que o elegeu de forma surpreendente Presidente). Embora seja difícil acreditar em um novo estilo comedido, tipo “Bolsonaro paz e amor”, o Presidente não tem outra alternativa: Se não baixar a bola, não conseguirá governar e acabará tirado do poder antes do tempo constitucionalmente previsto.

Feliz para alguns, infelizmente para outros, o Bolsonaro que assumiu em 1º de janeiro de 2019, depois de sobreviver a uma facada quase fatal, em plena campanha, no dia 6 de setembro de 2018, não pode mais ser o mesmo Bolsonaro “lobo solitário” de duas décadas e meia como parlamentar. Também não pode ser o “mítico” personagem inventado, o Capitão do Exército pronto para lutar quixotescamente contra inimigos nada imaginários. O “Mito” se reinventa, ou vai “micar”.

O Bolsonaro de a partir de agora precisa ser um político diferente, compulsoriamente menos “radical de direita”. Bolsonaro já constatou que não sobreviverá, se não se aliar e se alinhar a um “Centro Democrático” (royalties da expressão para Roberto Jefferson, que rejeita o depreciativo termo “Centrão”). Bolsonaro foi obrigado a mudar de estilo para recompor sua base aliada no Congresso Nacional. Do contrário, além de não aprovar nada, ainda pode ser defenestrado da cadeira do Palácio do Planalto por algum ”impeachment de ocasião”.

Quem dita as ordens, no governo Bolsonaro, é o chamado “Núcleo de Brasília” – do qual fazem parte o ministro da Justiça, André Mendonça, o ministro-chefe da Secretaria-Geral da Presidência, Jorge de Oliveira Francisco, e o Advogado-Geral da União, José Levi. Este grupo vai escalar os próximos ministros do Supremo Tribunal Federal. Aliás, os três são queridinhos dos 11 ministros do STF. O trio compõe o establishment, o meio de campo tecnoburocrático do governo Bolsonaro.

Não se pode ignorar o “Núcleo Militar”. Mas o grupo formado pelos Generais de quatro estrelas Braga Neto (Casa Civil), Augusto Heleno (Segurança Institucional) e Luiz Ramos (Secretaria de Governo) tem menos força que o “Núcleo de Brasília”. Na realidade, um grupo suporta o outro. Os dois grupos, cada do seu jeito e conforme seus interesses, desejam e trabalham por um Bolsonaro mais moderado, menos polêmico, mais articulado com o “Centro Democrático”, menos conflitante com o Supremo Tribunal Federal e mais próximo do Superior Tribunal de Justiça.

Bolsonaro “moderado” não poderá ficar sem partido. Já percebeu que terá cada vez mais dificuldades para viabilizar o Aliança pelo Brasil. Talvez seja menos complicado aceitar a proposta de filiação ao PTB feita por Roberto Jefferson. O partido do Presidente Getúlio Vargas teve seu programa recalibrado para princípios conservadores.

Já dá para sentir o desespero da esquerdalha radicalóide (que já aposentou  Luia Inácio Lula da Silva) e, também, da cínica social democracia (que ainda aguenta o superado “Jênio da raça” Fernando Henrique Cardoso). A esquerda e a centro-esquerda correm risco alto de não emplacar um candidato viável para 2022. Não será a vez de Ciro Gomes, nem de Luciano Huck. Isto vai depender mais de Bolsonaro do que se sua incompetente “oposição”.

O Centrão (ops, Centro Democrático) não quer só grana, cargo, corrupção, negociata, clientelismo e patrimonialismo. Bolsonaro tem de atender à vaidade dos políticos que desejam ser “parceiros” do Poder Presidencial ou, do contrário, vão derrubar quem senta no trono do Palácio do Planalto. Os “centristas” já ocupam espaços. Vide a nomeação do novo ministro da Educação. O presbítero Milton Ribeiro tem ligações fortes com Gilberto Kassab (uma das eminências pardas do Congresso). È bem relacionado com o STF. A indicação dele teve respaldo do “Núcleo de Brasília”.

Até agora, só quem atrapalhou Bolsonaro foi ele mesmo e a atuação muito próxima dos seus filhos, causando ciúmes e trombadas. Se Bolsonaro conseguir se manter fiel ao novo estilo (milagre nada fácil) tem chance de cumprir o mandato de maneira bem sucedida, podendo até sonhar com um segundo mandato presidencial.

O velho estilo Bolsonaro já era. Até quando e se conseguirá manter o novo? Eis a grande dúvida. O Núcleo de Brasília e o Núcleo Militar farão de tudo para que o casamento com o Centro Democrático dê certo. Se isso ocorrer, dificilmente vingarão as invenções de centro-esquerda para 2022. Os primos Lula e FHC podem chorar na cama de pregos. Os bolsonaristas mais radicais têm duas saídas: abandonam o barco, agüentam calados ou partem para o “exílio”.

Até segunda ordem, a tendência hegemônica é pela centro-direita. O resto é Fla-Flu.






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O que nos livra do tédio são falar do Liédio!



Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Carlos Maurício Mantiqueira

Quá, Quá, Quá... !!! (Não é a risada do petralha de Maricá)

Será que alguma “otoridade” com ouvido mouco, se deu conta de que o cara promete roubar pouco ? ! ? !

Assim é o partido chinfrim ! Onde seus militontos no poder estão, instala-se o Merdostão !

Interessante é a etimologia da palavra vermelho. Tem sua origem no latim vermillus, que significa "pequeno verme" .

Todos os que defendem o uso dessa cor em suas bandeiras, são uma espécie de papel higiênico: ou estão no rolo ou estão na merda !

E ainda a gente aposta no tal Uncerto Bosta ?

Quem vive de incoerências atacando o Mito, não sabe se supupunha ou levava no palmito.

“Melindrósias” com tetos de vidros e não de ardósias, motoqueiros, barrentos e de canos jovens apreciadores, mendazes e rapazes, saibam não mais farão com a Nação as pazes.

Se escaparem do dia da Fúria, levarão uma vida espúria num país lusófono, porque sendo monoglotas, noutras línguas farão de cabras só bolotas.

Pergunto se alguém viu a Onça mandar-nos a PQP !

Estamos orfeões ?!? Maltratamos a língua de Camões ?

Sincericídio mata mais que estar sem cachorro na mata ?

Sem esperança ou sem esperOnça ?

Carlos Maurício Mantiqueira é um livre pensador.

Fake News: A caixa de ferramentas do autoritarismo


Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Percival Puggina

Também acho que fake news são uma praga. Elas promovem uma convergência entre os mal intencionados e os ingênuos para alcançar, muito provavelmente, um efeito político desejado por ambos. Entre nós, a verdade foi de tal modo relativizada e a mentira tão industrializada para ser servida em quantidades multitudinárias, que os velhos censores mentais da razão e da lógica entraram em colapso. Acredite, se quiser, como diria Jack Pallance.
Por outro lado, como já escrevi anteriormente, enquanto a pilantragem das fake news tem meios limitados para iludir a opinião pública, e normalmente produz algo parecido com cédula de três reais, a grande mídia militante, engajada, dispõe de recursos técnicos de manipulação que começam na seleção de matérias e seguem nas manchetes, nas imagens, na produção dos conteúdos, na coleta orientada de opiniões, no vocabulário, nos tons de voz, nas expressões fisionômicas, nas suítes e por aí vai. Destaque especial deve ser dado às análises falsas – as fake analysis – capazes de extrair dos acontecimentos conclusões que neles não cabem. Como o coração, as fake analysis dos fatos têm razões que os fatos mesmo desconhecem.
Acessei o site do Senado Federal para ler o teor do PL 2630/2020 conforme aquele parlamento o aprovou. Não encontrei o que queria, mas vi que o projeto do senador Alessandro Vieira foi apresentado no dia 13 de maio e saiu aprovado do plenário no dia 30 de junho. Ou seja, em apenas um mês e meio e em aborrecidas sessões remotas, sem público nem debates, esse ataque à liberdade de informação, montado na covid19, surfou um plenário vazio e foi em frente para a Câmara dos Deputados.
Isso tudo mostra que o projeto, seu trâmite, o trabalho do relator, a votação e a aprovação foram resultado de minucioso roteiro e cronograma combinados na “cocheira”. Aprovações assim, vapt-vupt, quase sempre envolvem interesse próprio dos parlamentares e ferram os cidadãos. O interesse próprio, sabe-se bem, é a mais intensa das motivações. Quando está em jogo, faz o texto e a estratégia; é o motor e o combustível da rápida tramitação.
A maioria dos senadores se valeu do movimento de opinião criado em torno do fenômeno das fake news para avançarem seus objetivos de autoproteção. Exatamente o mesmo que os ministros do STF, sob o comando de Dias Toffoli e Alexandre de Moraes, estão conduzindo para constranger o antagonismo da sociedade, a liberdade de opinião e o trabalho de jornalistas com foco no Supremo e seus ministros.
Leia o projeto. Vale a pena. São 31 artigos e cerca de 120 preceitos para constranger, complicar e acabar com a liberdade nas redes sociais imobilizando-a num emaranhado de regras que, melhor do que qualquer discurso, caracteriza muito bem a intenção de quem o apoia.
Percival Puggina (75), membro da Academia Rio-Grandense de Letras, é arquiteto, empresário e escritor.

O Direito do Palavrão


Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Pedro Ivo Resende

Os palavrões não nasceram por acaso. São recursos extremamente válidos e criativos para prover nosso vocabulário de expressões que traduzem com a maior fidelidade nossos mais fortes e genuínos sentimentos. É o povo fazendo sua língua. Como o Latim Vulgar, será esse Português vulgar que vingará plenamente um dia. Sem que isso signifique a "vulgarização" do idioma, mas apenas sua maior aproximação com a gente simples das ruas e dos escritórios, seus sentimentos, suas emoções, seu jeito, sua índole.
"Pra caralho", por exemplo. Qual expressão traduz melhor a idéia de muita quantidade do que "Pra caralho"? "Pra caralho" tende ao infinito, é quase uma expressão matemática. A Via-Láctea tem estrelas Pra caralho, o Sol é quente Pra caralho, o universo é antigo Pra caralho, eu gosto de cerveja Pra caralho, entende?

No gênero do "Pra caralho", mas, no caso, expressando a mais absoluta negação, está o famoso "Nem fodendo!". O "Não, não e não!" e tampouco o nada eficaz e já sem nenhuma credibilidade "Não, absolutamente não" o substituem. "Nem fodendo" é irretorquível, e liquida o assunto. Te libera, com a consciência tranqüila, para outras atividades de maior interesse em sua vida. Aquele filho pentelho de 17 anos te atormenta pedindo o carro pra ir surfar no litoral? Não perca tempo nem paciência. Solte logo um definitivo "Marquinhos, presta atenção, filho querido, NEM FODENDO!". O impertinente se manca na hora e vai pro Shopping se encontrar com a turma numa boa e você fecha os olhos e volta a curtir o CD do Lupicínio.

Por sua vez, o "porra nenhuma!" atendeu tão plenamente as situações onde nosso ego exigia não só a definição de uma negação, mas também o justo escárnio contra descarados blefes, que hoje é totalmente impossível imaginar que possamos viver sem ele em nosso cotidiano profissional. Como comentar a gravata daquele chefe idiota senão com um "é PhD porra nenhuma!", ou "ele redigiu aquele relatório sozinho porra nenhuma! . O "porra nenhuma", como vocês podem ver, nos provê sensações de incrível bem estar interior. É como se estivéssemos fazendo a tardia e justa denúncia pública de um canalha. São dessa mesma gênese os clássicos "aspone", "chepne", "repone" e, mais recentemente, o "prepone" - presidente de porra nenhuma.

Há outros palavrões igualmente clássicos. Pense na sonoridade de um "Puta-que-pariu!", ou seu correlato "Puta-que-o- pariu!", falados assim, cadenciadamente, sílaba por sílaba... Diante de uma notícia irritante qualquer um "puta-que-o- pariu!" dito assim te coloca outra vez em seu eixo. Seus neurônios têm o devido tempo e clima para se reorganizar e sacar a atitude que lhe permitirá dar um merecido troco ou o safar de maiores dores de cabeça.

E o que dizer de nosso famoso "vai tomar no cú!"? E sua maravilhosa e reforçadora derivação "vai tomar no olho do seu cú!". Você já imaginou o bem que alguém faz a si próprio e aos seus quando, passado o limite do suportável, se dirige ao canalha de seu interlocutor e solta: "Chega! Vai tomar no olho do seu cú!". Pronto, você retomou as rédeas de sua vida, sua auto-estima. Desabotoa a camisa e saia à rua, vento batendo na face, olhar firme, cabeça erguida, um delicioso sorriso de vitória e renovado amor-íntimo nos lábios.

E seria tremendamente injusto não registrar aqui a expressão de maior poder de definição do Português Vulgar: "Fodeu!". E sua derivação mais avassaladora ainda: "Fodeu de vez!". Você conhece definição mais exata, pungente e arrasadora para uma situação que atingiu o grau máximo imaginável de ameaçadora complicação? Expressão, inclusive, que uma vez proferida insere seu autor em todo um providencial contexto interior de alerta e auto-defesa.

Algo assim como quando você está dirigindo bêbado, sem documentos do carro e sem carteira de habilitação e ouve uma sirene de polícia atrás de você mandando você parar: O que você fala? "Fodeu de vez!". Sem contar que o nível de stress de uma pessoa é inversamente proporcional à quantidade de "foda-se!" que ela fala. Existe algo mais libertário do que o conceito do "foda-se!"? O "foda- se!" aumenta minha auto-estima, me torna uma pessoa melhor. Reorganiza as coisas. Me liberta. "Não quer sair comigo? Então foda-se!". "Vai querer decidir essa merda sozinho(a) mesmo? Então foda-se!". O direito ao "foda-se!" deveria estar assegurado na Constituição Federal. Liberdade, igualdade, fraternidade e foda-se!.

Grosseiro, mas profundo... Pois se a língua é viva, inculta, bela e mal-criada, nem o Prof. Pasquale explicaria melhor. "Nem fodendo..."

Pedro Ivo Resende é um pensador.

Prefácio do Descarbonário


Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Alfredo Sirkis

O título deste livro é um trocadilho infame. 
Em 1979, no último ano de exílio em Portugal, às vésperas da anistia, terminei de escrever Os carbonários, meu livro de memórias da época do movimento estudantil de 1968 e dos posteriores anos de chumbo. Ele foi publicado em 1980, depois de meu regresso ao Brasil. Virou best-seller e ganhou o Prêmio Jabuti no ano seguinte. 
Quatro longas décadas depois, de maneira alguma pretendo voltar aos temas daqueles anos, uma longínqua experiência de vida da qual, conforme defini no prefácio da 14a edição, em 1998, “não me orgulho nem me envergonho”. Aconteceu, pronto. Desde então me tornei ainda mais crítico de qualquer forma de violência política, mas isso não vem ao caso aqui, até porque não há, para além do jogo de palavras, relação entre este livro novo e aquela obra, de lá se vão quarenta anos, cujo título metafórico comparava nós, protagonistas dos anos de chumbo, aos não menos patéticos jovens carbonari, do século 19, revolucionários derrotados da futura Itália inspirados pela Revolução Francesa. 
Aqui a metáfora é outra. Digo que sou um descarbonário porque me dedico, hoje, a um tipo de ação política destinada a reduzir a emissão de dióxido de carbono (CO2 ) e outros gases causadores do efeito estufa na atmosfera terrestre – ou seja, descarbonizá-la para tentar conter a progressão das mudanças climáticas aquém de patamares apocalípticos. No final da década de 1970, tal propósito como ideal de militância política seria certamente considerado algo digno do manicômio, a ser interpelado com a famosa pergunta-título do contemporâneo livro do meu amigo Fernando Gabeira: O que é isso, companheiro? Ele “pirou”, comentar-se-ia nos tempos de então. Ser descarbonário não é, portanto, o oposto de ter sido carbonário há cinquenta anos. Simplesmente pertence a uma outra galáxia, outro universo, não sei muito bem se paralelo ou perpendicular. Trata-se de outro animal. 
O dióxido de carbono (CO2 ) é o principal gás de efeito estufa. Os demais, para efeito de cálculo, podem ser convertidos em CO2 -equivalente. Descarbonizar a economia do planeta é o nome do jogo planetário praticado pelos que se empenham em não perder completamente essa batalha, já muito malparada, e também implica se adaptar às consequências inevitáveis da mudança climática. Mais da metade do carbono lançado na atmosfera pela queima de combustíveis fósseis ocorreu nos últimos trinta anos, quando já havia bastante informação sobre seus efeitos. Nesse aspecto, as más línguas sussurrariam que, afinal, existe, sim, certa semelhança entre ter sido carbonário, nos anos setenta do século passado, e ter me tornado descarbonário: um certo viés quixotesco. 
Confesso que aprecio o personagem do caballero de la triste figurade Miguel de Cervantes. Ganhei, há uns anos, uma estatueta do Dom Quixote, que conservo carinhosamente no meu escritório. Houve uma época até em que me acompanhava um Sancho Panza, o Saulo, meu motorista da Secretaria de Meio Ambiente da Prefeitura do Rio. Eu, alto e magro; ele, baixo e barrigudo. Parecíamos aquela dupla. 
Mas, ao contrário do distinto fidalgo de Cervantes, não faço guerra aos moinhos de vento. Na verdade, luto com afinco a favor deles na sua versão moderna, eólica, que integram o esforço descarbonizador e substituem com sucesso as usinas a carvão na China e em outros países. Quando comecei a escrever este livro, chegava ao fim o ano mais quente da história, 2016, suplantando, assim, os outros dois mais, anteriores, 2015 e 2014. Terminei-o no segundo ano mais quente, 2019. Sete dos dez mais cálidos ocorreram na recém finda década de 2010. O que está acontecendo com o planeta não escaparia nem a Rocinante, a não muito sagaz montaria del caballero. Talvez ainda iluda o Pato Donald… 
Eu havia começado a escrever este livro como uma espécie de “tudo que você precisa saber sobre mudanças climáticas”. Seu título provisório era “O clima que rola”, outro trocadilho infame, este pavoroso. 
Não é nada fácil escrever sobre esse assunto. Desisti do simples ensaio porque os textos – os meus, inclusive – perigam ser herméticos, até chatos, a não ser para um grupo reduzido de leitores muito interessados. Tenho centenas de artigos sobre o tema publicados em jornais, revistas, sites e blogs, e seu universo de leitores ainda é restrito. 
Minha história pessoal, minhas memórias dos anos oitenta para cá, os episódios que vivi na política, minhas opiniões sobre variados campos da atualidade, brasileira e mundial, umas tantas histórias, algumas divertidas, começaram a atazanar minha prosa climática. Percebi que o Descarbonário, afinal, tinha que ter também esse lado de narrativa de causos e de avaliação crítica, passada e prospectiva. Que eu trazia um folclore político a ser relatado. No início de 2017, quando muita coisa ainda era incerta, senti aquela vontade irresistível de voltar a ser um contador de histórias. Foi só começar que elas vieram. 
Decidi me afastar da política eleitoral partidária em 2014, e não quis mais me recandidatar a deputado federal. Passei a acreditar que minha melhor contribuição poderia ser na formação de jovens líderes. Nas minhas palestras para esses “multiplicadores” sobre temas como clima, ecologia urbana, gestão ambiental e urbanística local, costumo sugerir: “Ao expor suas ideias, procure sempre o caminho da narrativa, de uma pequena historinha que ilustre e exemplifique o que você quer transmitir. Apenas o conceito, por mais animadamente explicado que esteja, não consegue chegar afiado nas pessoas nesses tempos tão dispersivos em que o leque de atenção, balizado pelo WhatsApp ou pelo Instagram, é cada dia mais curto.” 
Decidi contar histórias entremeadas de análises e adotar um estilo de narrativa descontínuo, mais parecido com o de dois outros livros meus, Roleta chilena e Corredor polonês, o que é sempre um desafo e um considerável risco literário. Muitas coisas estavam acontecendo no Brasil e no mundo. E essas coisas mereciam ser analisadas sob um olhar independente de ideologias, que acredito hoje ser o meu. É um olhar de escritor, não de político. É mais livre. Não me sinto aprisionado por conveniências, obrigado a recorrer àqueles simplismos. Em política não há muita margem para a sinceridade, a sutileza, os matizes. Tudo tem que ser preto no branco, maniqueísta, nós versus eles. Só que a vida e a própria política, vistas fora de uma perspectiva instrumental, não são bem assim. O fo da meada aqui será a experiência de vida, não a ideologia. 
São muitos causos, alguns cômicos. Reconheci que nunca mais teria histórias com tanto suspense, tão trágicas e divertidas quanto em Os carbonários, mas ainda restam umas tantas para compartilhar. O texto climático, conceitual, didático, do “tudo o que você precisa saber” sobre o clima, é entrelaçado com vivências do meu próprio aprendizado descarbonário e uma análise dos descaminhos da política internacional e da brasileira, que agora parecem um avião em espiral descendente. 
A narrativa se encerra na última semana de 2018, quando deixei nas mãos do então presidente Temer, em fim de mandato, o documento “Mudanças climáticas: riscos e oportunidades para o Brasil”. Eu o fiz na posição (não remunerada) de secretário executivo do Fórum Brasileiro de Mudança do Clima. Destinava-se ao seu sucessor, Jair Bolsonaro, meu ex-colega da Câmara dos Vereadores do Rio de Janeiro e, depois, da Câmara dos Deputados. 
Narro alguns episódios de nossa relação, pessoalmente meio bizarra com choques que eu mantinha no terreno político, sem histerias. Apesar de minha crítica contundente e profunda ao Partido dos Trabalhadores, acabei, depois de considerar fortemente o voto nulo, votando em Fernando Haddad no segundo turno, depois de outro voto “útil”, a contragosto, em Ciro Gomes no primeiro. Bolsonaro, cuja vitória eu antevia há mais de ano, representava para mim a expressão brasileira de um fenômeno mundial de direita populista que evoca – não sei ainda se como nova tragédia ou farsa – os anos trinta do século passado. Consumada a eleição, considerei que, democraticamente, deveríamos todos aceitar o resultado das urnas, que fora inequívoco. Cheguei a acreditar que, uma vez sentado na cadeira presidencial, baixariam sobre Jair os eflúvios da responsabilidade e que, não obstante sua visão fascista e paranoide e das suas idiossincrasias, ele deveria se comportar como presidente de todos os brasileiros. 
Isso certamente não aconteceu. Passado um ano, sabemos que não acontecerá. O poder nitidamente piorou a pessoa. Temos um governante intolerante, desumano, desprovido de decoro, profundamente desinformado que toma conhecimento das questões “de orelhada”, cercado de gente que, como ele, acalenta sonhos golpistas para os quais não dispõe, por enquanto, de massa crítica e tem como grandes obstáculos o Congresso (com todos os seus enormes defeitos) e o Supremo Tribunal Federal. Também não é mais capaz de mobilizar multidões e aqueles que as têm – os chefes pentecostais – a princípio não se interessariam em vê-lo com todo-poderoso. Sabem que, numa ditadura, mais cedo ou mais tarde, sobraria para eles também. 
Não obstante, são preocupantes as frequentes alusões do núcleo do poder familiar a eventuais rupturas do regime democrático; as agressões que, no início, sofreram expoentes da alta hierarquia militar – aparente loucura, mas com método; seu esforço em estabelecer vínculos diretos com a oficialidade média e as polícias militares; uma relação no mínimo preocupante com o mundo das chamadas milícias; e seu afã de armar certos segmentos da população. Seu pior desvario se relaciona à pandemia da COVID 19, a atitude negacionista, a reação à previsão de dezenas de milhares ou mais de vítimas com um cínico “e daí?”. A demissão por pura ciumeira de um ministro da saúde que tentava fazer seu trabalho. 
Quando escrevo este prefácio ele ainda ostenta o apoio de 30% população, mas perde. Outro tanto se identifica mais ou menos com a esquerda hegemonizada pelo PT lulista, incapaz de fazer a menor autocrítica dos imensos erros que cometeu e aferrada a uma posição que considero particularmente repugnante: o apoio à ditadura de Nicolás Maduro, na Venezuela. Aliás, a quem Bolsonaro mais se parece, cores a parte. Uma maioria relativa, uns 40%, não quer, de jeito algum, nenhum desses dois polos. Mas a oferta política de momento não destilou uma alternativa de centro. Poderá surgir? 
Há um recuo da democracia no mundo. É algo inequívoco; não sabemos se reversível. “Democraduras” e ditaduras vêm se espalhando e demonstrando que o capitalismo não precisa, necessariamente, da chamada democracia liberal. No Brasil, Bolsonaro, a princípio, enfrenta maiores dificuldades que Duterte, Orbán, Kaczynski, Putin ou Erdogan para se impor como chefe autoritário. Esses, excetuado o primeiro, levaram tempo para se consolidar enquanto governantes despóticos. 
“Afinal, Sirkis, nessa altura do campeonato, onde você se situa ideologicamente?”, é uma pergunta que me fazem. Tenho realmente dificuldade em me autorrotular. No que pesem minhas agruras com o PV – que, aliás, fundei – sou um verde,1 e me satisfaz o conceito de “nem à esquerda, nem à direita, mas à frente”. 
Para os que considerarem isso mera frase de efeito, vou diferenciar por esferas. Vamos lá: socialmente me considero de esquerda; acredito que a pobreza e a concentração de renda são os maiores problemas. Economicamente, não considero nem a economia clássica nem o neokeynesianismo puros como a “escola correta”. Penso que tudo depende de situações, que variam e demandam instrumentos de ambas, por vezes até simultaneamente, como mostra hoje a experiência de Portugal. Rejeito, sim, o neoliberalismo plutocrático e o estatismo, com gastança descontrolada e corrupção generalizada. Acredito que a humanidade tem contas a ajustar com a financeirização da economia global, mas que isso terá que ser tratado numa luta supranacional. Nenhum governo é capaz de bancar essa parada sozinho. 
A nova grande depressão, ainda em seus estágios preliminares, assinala o fim do atual paradigma neoliberal, de controle obsessivo do déficit e da financeirização globalizada. Há uma nova economia de guerra surgindo com um papel renovado para o Estado e a caixa de ferramentas de Lord John Maynard Keynes na busca de réplicas contemporâneas do New Deal e do Plano Marshall. São impressões ainda preliminares. 
Politicamente, acredito que a democracia precisa tanto de uma esquerda democrática quanto de uma direita civilizada, e que a alternância entre ambas é necessária, pois as duas servem a circunstâncias históricas dadas. O centro pode se articular com uma ou outra dependendo da situação concreta. Os verdes alemães, por exemplo, tinham a tradição de se aliarem à social-democracia. No futuro, tudo indica que formarão um governo com a União Democrata-Cristã, de Angela Merkel. 
Rejeito cabalmente a esquerda autoritária, leninista ou populista, e a direita reacionária ou fascistoide. Sou crítico das políticas identitárias em sua atual deriva, tanto à esquerda quanto à direita. Sou adepto da geleia geral. Isso talvez faça de mim um personagem do “centro radical”. Não digo isso para parecer sofisticado, mas porque essa minha “moderação” comporta também propostas drásticas, minoritárias e altamente polêmicas, como a legalização das drogas, que discutirei mais para o final do livro. 
Em matéria de segurança, sou, vejam só, mais à direita. Não tolero “dar mole” para bandido – seja o traficante ou a política de “arreglo”, sejam os milicianos – e critico a leniência do nosso sistema penal com relação ao crime violento. Não acredito no mito do “bandido vítima da sociedade”. Considero um insulto aos pobres. Esquerdistas já me acusaram de ser de direita por causa disso. Tenho horror à desordem urbana. Se ser linha-dura em relação aos criminosos que atormentam nosso cotidiano e ameaçam nossas famílias significa ser de direita, que assim seja, pelo menos nesse departamento. 
Enfim: ideologia, não preciso de uma para viver – parafraseando (e contrariando) o verso do meu saudoso amigo Cazuza. Quanto a religião, não sigo nenhuma em particular. Genética e culturalmente, sou, obviamente, judeu ashkenazi. Intelectualmente, me assola um certo agnosticismo. Mas tenho Deus no coração. Já rezei em sinagoga, igreja, templo, terreiro e mesquita. Diversos caminhos levam a Ele pelo conduto do amor. Cuidar da natureza e do clima é defender sua Criação, que se deu – percebam, ó criacionistas – na forma da evolução natural explicada pela ciência, que, no entanto, não traz respostas a todos mistérios. 
Estive recentemente no Vaticano com um grupo de governadores da Amazônia: brasileiros, peruanos e ambientalistas a convite de monsenhor Marcelo Sorondo, um argentino, figuraça, que preside a Academia Pontifícia das Ciências. Os governadores levantaram a bandeira do movimento subnacional que estamos criando, os “Governadores pelo Clima”. A encíclica Laudato si’, do papa Francisco, é um dos mais poderosos documentos em defesa da natureza e do clima. Não existe, verdadeiramente, contradição insolúvel entre ciência e fé, desde que haja uma leitura metafórica de todas as Santas Escrituras e entendamos que nós, humanos, carecemos de entendimento do que está acima de nós. Buscamos caminhos. Temos a capacidade de amar. 
Penso, de fato, que a mudança climática é o principal problema da humanidade; sairá de controle rumo a níveis apocalípticos se fracassarmos na estreita janela de oportunidade que nos resta. A situação internacional é, hoje, pior do que em 2015, quando foi assinado o altamente insuficiente Acordo de Paris. Trump e Bolsonaro tornaram-se grandes obstáculos a um avanço urgente, emergencial. São expoentes tristes da indiferença e do retrocesso. 
Uma das piores performances do atual presidente é sua postura em relação ao meio ambiente e à questão climática. Tivemos com todos os governos anteriores embates ambientais em que éramos confrontados com interesses econômicos ou estratégicos variados e poderosos que se impunham politicamente. Isso ocorreu com Sarney, Collor, Itamar, Fernando Henrique, Lula, Dilma e Temer. Todos tiveram falhas, mas também alguns acertos, em maior ou menor quantidade, ao sabor de correlações de força em situações variadas. Desde o final do governo Fernando Henrique, o Ministério do Meio Ambiente mantivera sua integridade, com derrotas e avanços. 
No caso de Bolsonaro, o componente dos interesses econômicos em jogo é praticamente secundário em relação a outro fator: da sanha idiossincrática. Em algum momento, por perceber que uma parte dos ambientalistas era de esquerda, em sua sesquipedal desinformação, passou a catalogar a questão ambiental e climática na “caixinha” do comunismo e a se identificar com todo tipo de atividade devastadora que identifica como progresso: grilagem, garimpo ilegal, invasão de terras indígenas, poluição. Desenvolveu uma antipatia visceral por uma causa cujos pioneiros, ironicamente, foram ilustres militares, como o marechal Cândido Rondon, o major Francisco Archer ou o almirante Ibsen de Gusmão. Preferiu a inspiração de Pato Donald. 
Em palavras – as quais, na boca de um presidente da República, contam muito – e em ações, não só desmantelou trinta anos de construção ambiental da democracia brasileira, como chega a colocar em questão, através de um projeto de lei de seu filho senador, disposições do próprio Código Florestal original de 1965, da época do regime militar, como a Reserva Legal. O Brasil não só ficou extremamente “mal na fita” internacional (situação agravada por seus bate-bocas infantis), como foi (e será) afetado na área econômica em geral e no sacrossanto agronegócio exportador, em particular. 
O Brasil desempenhava um papel muito importante nas negociações climáticas internacionais, pois era o país que fazia a ponte entre o G77 + China, a União Europeia e os Estados Unidos. Neste livro, critico a postura do Itamaraty, que tendia a tratar a questão climática através das lentes da geopolítica. Não obstante, o papel da nossa diplomacia na Rio-92, passando por Quioto, Copenhagen e Paris, foi sempre muito relevante na articulação e no reforço da ambição em momentos decisivos. Na Conferência do Clima mais recente, a COP 25, em Madri, nos alinhamos aos recalcitrantes climáticos: Donald Trump, que prevê a saída dos Estados Unidos do Acordo de Paris, e a Austrália, de Scott Morris, um país em chamas cujo governo insiste no negacionismo climático. Ambos agora se juntaram aos empata-fodas mais antigos do grupo, os chamados like minded(os que pensam parecido): a Arábia Saudita e a Venezuela, além de outros bolivarianos. Sem esquecer o Japão e a Índia, ali atrás do biombo. Por conta de um chanceler, o pré-iluminista Ernesto Araújo, que renega a mudança climática como uma “conspiração marxista” (?) e apresenta como prova insofismável o fato de fazer frio em Roma, viramos alvo da chacota internacional. 
É onde estamos ao terminar este prefácio, que é sempre – graças a Deus – a parte mais perecível de um livro. Os carbonários teve dois; o segundo sujeito a várias revisões. Peço a Deus que sua vida útil seja a mais breve possível e que ele tenha que ser reescrito para introduzir Descarbonário em conjuntura mais feliz. Não sabemos, no entanto, se o ciclo reacionário que o mundo e o Brasil atravessam é curto ou longo. Um soluço da história ou o novo normal? De qualquer forma, haverá sempre argumentos para brandir e causos para contar. Insisto em ser, primordialmente, um contador de histórias. 
Ambientalista, político e escritor Alfredo Sirkis morreu aos 69 anos, em um acidente de automóvel, no dia 10 de julho, uma semana depois de lançar um livro que brincava com o título de suas memórias, Os carbonários.