sexta-feira, 17 de janeiro de 2020

Peso, custo da educação e os baixos resultados


Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Ernesto Caruso

Peso, literalmente expresso em quilogramas, que as crianças diariamente levam para as escolas em maletas, mochilas, quer das mais luxuosas, práticas, mais leves, até em sacolas de supermercados.
      
Em tela, um aluno do sexto ano do Ensino Fundamental, com dez apostilas sobre as ciências e linguagens e outros livros inclusos. Da ordem de 13 quilogramas, incluindo os cadernos.  

Peso “pesado” no lombo dos alunos, dos pais/mães que os compram, das mães/pais que aliviam os seus filhos ao levá-los para as escolas, da mãe natureza, que contribui com papel/derrubada de árvores para a confecção de livros, apostilas e cadernos, muitos com capa dura, a significar mais consumo de papel e dinheiro e, recebe em troco o desperdício na forma de poluição por toneladas de papel que não será reciclado e, que a parcela aproveitável não terá a pureza do primitivo; mais o arame da espiral e tinta para colorir em profusão. Um desastre.

Parece que a intenção é encarecer o custo da produção e vender “conjuntos vazios”.

A primeira página da apostila, normalmente é cópia da capa, colorida, com fotografias e ilustrações. Ora, uma folha de papel (25 cm x 20,5 cm) custa um infinitésimo, mas multiplicado por milhões, o valor será expressivo. Mas, não é só essa página inútil.

O sumário consome duas páginas. A primeira, somente com quatro pequenas ilustrações, poucas palavras indicativas das matérias tratadas, como Língua Portuguesa, Matemática... e, os números das páginas onde o assunto é abordado. A segunda refere Geografia, Ciências Sociais... a repetir o mesmo procedimento.  

Nas que separam as matérias, todas coloridas, constam somente o título, como por exemplo, Língua Portuguesa e a citação de dois capítulos e páginas correspondentes. A quantidade de fotografias de páginas inteiras é impressionante, e com pequeno texto explicativo, mais de interesse do professor e, que a criança não vai ler, como objetivos a serem conquistados, bem como a orientação do manuseio da publicação, quem sabe para algum autodidata.

Uma apostila tem 43 páginas praticamente cobertas por única foto e da ordem de 300 imagens menores, sendo que 18 expondo modalidades de atividade física em seis páginas, na matéria Educação Física.

Sem contradizer algo de fundamento na expressão, “uma imagem vale mais do que mil palavras”, não há necessidade de se representar por foto uma pessoa, em duas páginas, com dedo indicador em uma direção, acrescido de pequeno texto explicativo, para demonstrar o modo indicativo do verbo.

Não se põe dúvida sobre o aspecto visual dos livros modernos, com muitas ilustrações e cores, a compará-los com os do passado, mas a que custo? Melhorou o rendimento?

Foi-se o tempo em que os livros serviam a várias crianças da família, de parentes ou encontrados nos sebos para servirem a outros com baixo custo. Neles não se escrevia a não ser o nome do aluno. Ao final de cada capítulo as questões eram formuladas e os alunos respondiam nos cadernos.

Faz tempo, livros e apostilas cada dia mais volumosos, possuem oito, nove páginas de exercícios com espaços vazios para respostas, nem sempre completados.

Bom momento de fim do ano letivo e início de outro e, fazer um balanço, pais e responsáveis, do que foi feito, não pedido pelos mestres e não executados pelos alunos. Como se não houvesse uma compatibilização entre o conteúdo transmitido pelos mestres e o estudo em casa pelos alunos.

Há que se avaliar a quantidade de fotos e ilustrações consumindo muito mais espaço do que os destinados aos textos, neste mundo cada vez mais digital, quando em escolas de níveis elevados, todos os alunos dispõem de telefone celular de boa qualidade e as escolas, de recursos audiovisuais para complementarem as aulas mais áridas.

Simples palavra que se digite nos vários aplicativos de pesquisa e, brotam textos, imagens e vídeos aos borbotões.

Debater é preciso. A mãe de uma aluna do último ano do ensino médio diz que o material escolar neste ano de 2020 chega a dois mil e setecentos reais.

Embora se possa empenhar e, qualquer empresa o faz, em reduzir custos para vender o seu produto em melhores condições de competitividade, o item específico tipo apostila precisa ser apreciado em profundidade e atualizado face aos recursos tecnológicos disponíveis como meio auxiliar de ensino, eliminando o supérfluo e os “conjuntos vazios”.

Quanto aos conteúdos. Como ninguém é professor de tudo, cada professor especialista na matéria cobra do aluno, que é “o aprendiz” de generalista, o pormenor da sua matéria nas questões das apostilas, provas, vestibulares, ENEM. A cultura inútil que sobrecarrega o “HD + memória RAM” dos estudantes, sobrando pouco espaço para o essencial.

Detalhe que pode ser sobre a renda de bilro; os amigurimis; quando surgiu a ginástica aeróbica no Brasil; práticas esportivas tipo rafting, rapel, trekking, slackline; escrever sobre a dança no festival folclórico de Parintins; etc.

Imagine-se exercício proposto como: o que o aluno consome em uma semana, fotografando o que comeu; que brinquedos usou, com que roupa se vestiu, transporte que usou; imprimir as imagens, colar no papel pardo do tamanho do aluno. Exposição do trabalho, debates para chegar à conclusão do que poderia ser feito para diminuir o consumo de produtos que impactam o meio ambiente.

Muito gasto, tempo consumido, mais produção de lixo e sobrecarga sobre os pais ou responsáveis pelos alunos no Ensino Fundamental.

No que se refere aos resultados do Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa) – 2018, no total de 79 países e economias participantes, o Brasil ficou entre 55º e 59º lugar em Leitura, entre 64º e 67º em Ciências e entre 69º e 72º em Matemática, respectivamente com as seguintes médias, 413, 404 e 384. Brasil na rabeira como na aferição anterior.

Em Leitura pior classificado do que Chile, Uruguai e México; em Ciências, do que Argentina, Peru, Colômbia, México, Uruguai e Chile e, Matemática, atrás do Chile, Uruguai, Peru e Colômbia.

Os livros e apostilas não são iguais, a metodologia difere e a iniciativa dos professores por vezes surpreende. Aquela escolinha lá do interior apresenta melhor resultado do que a superdotada.

Mas, o número de alunos impõe racionalização extrema. Em 2018, foram registradas 27,2 milhões de matrículas no ensino fundamental.

Ernesto Caruso é Coronel de Artilharia e Estado-Maior, reformado, do EB.

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