quinta-feira, 30 de janeiro de 2020

Qual o destino do financiamento público de campanhas eleitorais



Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por João Miras

O Brasil é um país sui generis.

Um país com altíssimas taxas de desemprego, mas que os trabalhadores preferem ter direitos trabalhistas ao próprio emprego — porque, afinal, cada vez menos empreendedores conseguem gerar empregos com tantos encargos.

O Brasil também é um país sui generis porque aqui relegamos o ensino básico ao sucateamento, mas investimos dinheiro público para formar graduados superiores em faculdades estatais.

Sui generis porque a Corte Suprema se vê obrigada a legislar e o parlamento, mesmo num país presidencialista, governa.

Sui generis porque as estradas, os carros e o combustível são piores que nos EUA, mas custam bem mais caro devido aos tributos.

Sui generis porque aqui não permitimos que um empresário, que sequer tenha contrato com o poder público, possa apoiar financeiramente uma campanha eleitoral, mas que o erário (dinheiro do povo) banque 3 bilhões de reais para os chefes de partidos distribuírem ao seu bel-prazer, criando as estatais partidárias.

Transformamos os partidos em empresas e, pior... públicas! Agora, no Brasil, os partidos políticos são empresas públicas com seus “CEOs” políticos gerindo polpudos orçamentos e investindo em fábricas de laranjas e sabe-se lá em que outras frutas e hortifrútis. Nada impede que um partido invista sua “receita” na bolsa de valores, por exemplo. Ainda terão dividendos.

Quando o Congresso assim legislou, estava legislando pelos caciques políticos, não pelos políticos dos rincões, dos distritos, das áreas urbanas das pequenas cidades, legítimos representantes-raiz do cidadão na ponta da necessidade real.

Candidatos a prefeito e vereador de cidades médias e pequenas agora percebem que não haverá irrigação até os fundamentos das raízes destas grandes árvores partidárias, e eles serão presas fáceis de financiadores interessados em tirar vantagem do erário.

Tenho dito nas minhas palestras para os políticos do interior que não cedam e pensem mais em sua carreira política do que na próxima eleição, porque é como está no meu 2º livro: “Há políticos que têm um comportamento de página, não de livro”.

Trabalho com comunicação de prefeituras e campanhas eleitorais no interior há mais de 30 anos, pasmem, desde quando o caixa 2 das empresas jogados nas campanhas não tinha qualquer correlação com obras públicas. Empresários ajudavam para serem bajulados pelos poderosos de turno e se contentavam com convites para jantares e eventos oficiais, comendas, zumbaias e babaréus.

Depois, vieram os tempos da institucionalização do “financiamento interessado” e todos os políticos se enlamearam. Com o PT, tudo foi ficando mais organizado (no modo sindical) e começou a escandalizar muitos entre os comunicólogos da velha guarda. Tenho amigos que, como eu, se afastaram da nossa nobre profissão de consultoria política — atividade reconhecida mundialmente —, tamanho o banho de promiscuidade que se entornou sobre a política brasileira.

Não há dúvida de que algo precisava ter mudado. Mas fazer lei sob a fervura de escândalos nunca foi prudente. A solução encontrada para a farra das empreiteiras e dos políticos foi tão radical que piorou o processo.

De há muito advogo que bastaria manter o financiamento das empresas em campanhas, “desde que essa empresa não pudesse ser contratada por qualquer entidade pública ou de economia mista”. Simples! Muito simples!

Mas, não nos esqueçamos, o Brasil é um país sui generis demais para ser simples e, então, agora todos teremos de conviver com a aberração dos 3 bilhões de verba pública que sequer chegam aos candidatos na ponta. E, vejam, aqui não se trata de uma jaboticaba (fruto que, diz-se, tem origem no Brasil). Trata-se, verdadeiramente, de um tatu no alto de um poste. E, sim, alguém botou esse tatu lá!

Lamentável! Já estamos começando muito mal as eleições de 2020.

João Miras é publicitário ítalo-brasileiro e estrategista de marketing político eleitoral de governos e partidos.

3 comentários:

Anônimo disse...

Se o articulista está verdadeiramente escandalizado com o banho de promiscuidade na política brasileira, pode se engajar na campanha para não votar em candidato que usa o fundo partidário, mesmo para os cargos mais altos.

Vanderlei Lux disse...

Vejo tantos reclamando da carga tributária brasileira (com certa razão, depois explico), mas parecem se esquecer que o dito "1º mundo" não deixa de ter cargas tributárias semelhantes.

Talvez, a questão não seja a carga tributária em si (no Brasil), mas sua destinação. Pronto, expliquei!

O Brasil é sui generis, na minha opinião, pois o país inteiro é um imenso monopólio público-privado.

É hilário constatar que nenhum país do mundo sobrevive sem um governo. E esse governo precisa investir. No Brasil, por causa de uma emenda constitucional (a 95), podaram a capacidade de investimento do governo. Mas se o Estado não pode investir, quem pode socorrer?

Surge a iniciativa privada, toda nas mãos de 6 pessoas, filhas da mesma mãe.

Só que para que esta iniciativa provada possa investir, exigências são feitas.

A 1º exigência é a reforma trabalhista. Após esta, o Estado pergunta: "vocês podem investir agora?". "NÃO!", é a resposta, pois tem agora a 2º exigência.

A 2º exigência é a reforma da previdência. Após esta, o Estado pergunta: "vocês podem investir agora?". "NÃO!", é a resposta, pois tem agora a 3º exigência.

A 3º exigência é a reforma tributária. Após esta, o Estado pergunta: "vocês podem investir agora?". "NÃO!", é a resposta, pois tem agora a 4º exigência.

A 4º exigência é a reforma administrativa. Após esta, o Estado pergunta: "vocês podem investir agora?". "NÃO!", é a resposta, pois quem tem de investir É O ESTADO!

E assim se remove o dispositivo que capava a capacidade de investimento do Estado, e o próprio vai investir em TUDO AQUILO que aquela iniciativa privada NÃO investiu.

Entretanto, quem ganhou?

Óbvio que a iniciativa privada, visto que, pela reforma trabalhista, barateou a mão de obra, pela reforma da previdência, vai pagar menos encargos trabalhistas, pela reforma tributária vai pagar menos encargos e pela reforma administrativa, vai ter menos burocracia para poder sujar rios, desmatar florestas, enfim... tudo isso, de fato, sem gerar mais empregos e riquezas para o país.

A solução? Nada a ver com mais mercado ou mais Estado, como gostam os polarizados.

A solução é uma linha tênue entre livre-mercado e Estado, com muita ética e moral.

Entretanto o brasileiro é, naturalmente, um canalha anti-ético e amoral.

Anônimo disse...

Seus pais são canalhas, anti-éticos e amorais? Porque os meus, não.