segunda-feira, 24 de fevereiro de 2020

Carneval


Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por H. James Kutscka

Se toda essa gente que ocupa as ruas no Carnaval se dispusesse a ocupá-las, também para exigir seus direitos, tenho certeza de que teríamos um país melhor, livre do STF e do atual Congresso.

Não teríamos um jagunço moderno, tentando impor sua vontade com uma retro escavadeira, contra um grupo de policiais, nem uma greve por motivos absolutamente justificáveis, mas ilegal de acordo com a constituição.

O tiro que tomou pode ser interpretado como auto defesa dos grevistas. 

Não teríamos as três instituições anteriormente citadas, conspirando enquanto o povo se “diverte” para mudar nosso sistema de governo para um parlamentarismo, onde todos eles se safariam da justiça que aparenta estar chegando a galope.

Como durante o reinado de Momo nada funciona mesmo nesse país, resolvi dar uma folga da política até a semana próxima, quando eventualmente virá à tona o que os ratos andaram fazendo nas sombras enquanto o povo literalmente “dançava” nas ruas. Então, para não deixar meu espaço em branco e esperando que o Serrão, editor do Alerta Total não se importe, dedico aos meus leitores o conto a seguir, que leva como nome o título deste artigo.

oi escrito em 1998, mas continua atual.  Espero que se divirtam.

- Te acalma Zé, é assim mesmo, toda mulher é o que mostra nos quatro dias de carnaval, o resto é enganação pra cima da gente. Quando chega fevereiro, parece que todos os demônios precisam ser exorcizados, todos os ouvir e calar, todas trepadas sem vontade, todo futebol na tevê, e elas saem em uma escola de samba mostrando ao mundo como são gostosas e desejáveis.

Máquinas sexuais despudoradas, tudo que um homem já ousou sonhar a respeito da fêmea da espécie, em um tipo de orgia coletiva dos sentidos.

Quanta gente nesse momento, não estaria “lascando uma bronha” enquanto uma câmera japonesa centrada como um falo em uma “perereca” suada, levava ao mundo a imagem de uma bunda - inimaginável na sua mulher-rebolando alucinadamente em torno de seu eixo, em uma promessa de delírio para a parte masculina da humanidade.

É como se dissessem: - ó como tu é babaca os outros trezentos e sessenta dias do ano.

- Mas e a Marta, Léo? ela até filha de Maria é.

- A Marta também, “podis crê mermão”. Tu já passou um carnaval com ela?

- Nunca, esse ano como sempre, ela foi com umas amigas para um retiro espiritual e eu não me sinto nada bem de cair na gandaia enquanto ela reza.

- É, aí é barra parceiro, mulher que vai pra retiro na época do carnaval é foda. Sem querer ofender Zé, como é que ela é na cama?

- Normal, eu acho!

- Ela faz de tudo?

- Qual é Léo, tas a fim da Marta?

- Desculpa meu, só tô querendo ajudar, e de mais a mais, foi você quem começou com esse papo encucado.

- Desculpa cara, é que a Marta é muito bonita, e eu sei que se me descuido, não vai faltar gavião no pedaço. Tenho consciência de minhas limitações.

- Tu não respondeu minha pergunta: ela faz ou não faz de tudo?

- Ce sabe como é a Marta, cheia dos “trique triques” com limpeza e isso e aquilo...

- Já sei, nunca te fez um “boquete”.

- Ó a baixaria meu...

- Fez ou não fez?

- Não, disse Zé baixinho meio sem jeito.

- Com aquela boca, que desperdício! deixou escapar Léo com uma ponta de sofrimento dispensável na voz.

- Quer dizer que liberar a “rosquinha” nem pensar, asseverou.

- Ela diz que isso é coisa de gay que não tem “xaninha” ( a execrável palavra com B havia sido suprimida de seu vocabulário desde que conhecera Marta, e essa o tivesse censurado com marcação homem a homem até fazê-lo praticamente esquecer sua existência). Eu respeito ela.

- Meu Deus e com toda aquela bunda!

- Pois é, com toda aquela bunda, concordou Zé derrotado.

Era sábado de carnaval, Marta havia saído para o retiro há menos de vinte e quatro horas atrás e ele - graças ao Léo que lhe abrira os olhos - já havia arranjado uma série de bons motivos para traí-la.           

- Veja bem Zé, se você tivesse com a Marta todas essas coisas, e ainda assim se aproveitasse do carnaval pra “cair na gandaia”, eu diria que você era um canalha, mas tratando-se do quadro “papai e mamãe” que acabas de descrever, posso garantir que o “Papai do Céu” irá perdoar esse seu pequeno deslize anual.

- Como te disse no princípio: - Uma mulher é de verdade o que é nos quatro dias de carnaval, o resto do tempo ela finge.

- É acho que uma farrinha anual, com camisinha, pode ser perdoada, afinal de contas, arroz com feijão todo santo dia acaba enjoando, não é mesmo?

- Com toda certeza amigo velho, com toda certeza. Uma mulher gostosa como a Marta tinha que ter algum defeito, agora Léo sabia, era fria a desgraçada.

- Passo te pegar às onze?

- E se a Marta ligar?

- Desliga aquela porra de tomadinha na bundinha do telefone, depois põe a culpa na Telerj.

- Grande ideia Léo, as onze então me liga do celular que eu te espero lá embaixo.

- Para onde iremos?

- Falando em liberar a “rosquinha”, tenho dois convites para o Gala Gay, dizem que além da viadagem habitual fica cheio de gostosas taradas e é claro, lá teremos pouca concorrência.

- Léo, que seria de mim sem você?

Às quatro horas da manhã de domingo, Zé voltava para seu apartamento. Havia bebido, fumado maconha, transado com alguém no banco de trás do Audi do Léo, uma mancha teimosa mais escura no estofamento de couro, surgida de um pingo de sêmen perdido ao retirar a camisinha, guardaria para sempre em segredo, a lembrança daquele momento. Na verdade, era mais uma sensação que uma lembrança.

Não lembrava por exemplo, se era homem ou mulher que havia “traçado”, lembrava apenas que era bonita, parecia perigosamente Marilyn Monroe para ser mulher de verdade e estava disposta a deixá-lo entrar pela “porta dos fundos”, o que também não deixava de ser estranho. De qualquer maneira, havia sido muito bom, era como a sensação de estar apaixonado pela primeira vez na vida, embora nem mesmo soubesse o nome da garota.

O medo que sentira no princípio da noite de que algo pudesse dar errado, agora havia se transformado em alívio. Estava de volta ao ninho, nada mais ameaçava sua morna felicidade.

Deitou-se na cama e ligou a televisão para ver a transmissão dos bailes de fim de noite onde apareciam todas aquelas “vagabundas” mostrando seus corpos suados em movimentos de cópula, para os sócios da “Confraria da Mão Peluda” acrescentarem mais pelos em suas hiperquinéticas mãozinhas.

Não precisou procurar muito, ali estavam elas.

Sobre uma mesa meia dúzia de bundas se “encouchavam” em um sensual vai e vem procurando chamar atenção do operador de câmera. O único que alcançaram foi chamar atenção para uma sétima, que estava em uma mesa um pouco atrás.  Sua beleza incomum e olhar altivo chamaram a atenção do diretor de tv que pôs no ar a câmera que enquadrava seus pezinhos maravilhosos, em uma sandália de salto agulha que deixava à mostra toda a beleza de suas delicadas curvas no esforço de manter sambando todo aquele monumento de carne e desejo que ia surgindo conforme ordenava ao  operador de subir  a câmera por seu corpo. Imediatamente uma segunda câmera aproximou-se em “close-up” de sua virilha, que parecia estar chamando com seus movimentos hipnóticos, o espectador para dentro dela.

- Descubram quem é ela, gritou o diretor de tv para a assistente - eu tenho de traçar esse “pitéuzinho”. 

A assistente, acostumada com o linguajar de seu chefe, fez que não ouviu a segunda parte e imediatamente pediu por rádio a um dos repórteres de plantão no baile que satisfizesse o pedido do diretor.

Alheio a tudo isso, Zé que acompanhava a câmera subindo dos pés “tesudos” ao centro mesmo do prazer, instintivamente levou a mão para entre as pernas e já encontrou seu “instrumento” duro, depois da noitada que tivera, sentia-se especialmente macho, era como se houvesse remoçado pelo menos uns dez anos.

Enquanto na tela de cinquenta e nove polegadas da tv de seu quarto, o movimento da câmera mostrava duas nádegas opulentas que pareciam implorar por uma exploração íntima em braile, (quase sem perceber) Zé principiava um movimento ritmado de massagem em seu membro. Há muito tempo que não fazia aquilo, mas era como andar de bicicleta, uma vez que se aprende jamais se esquece.

Dois seios magníficos enchiam agora a tela, balançando ao ritmo de “Mamãe eu quero mamar”, Zé podia sentir crescer aquela eletricidade que prenuncia o gozo, o momento sem retorno, quando a câmera mostrou o rosto cheio de tesão de Marta.

-MARTA! O susto e o gozo aconteceram simultaneamente.

Era uma loucura, não podia ser ela, mas era. Enquanto Zé tratava de se limpar, o operador de câmera não se cansava de explorar aquele corpo divino que prometia ao mundo as maiores loucuras. Um repórter se aproximou e tentou falar com ela, que o ignorou olimpicamente.

Parecia castigo, ele havia pecado e Deus o estava punindo, mas como podia ser? Ela saíra de para ir a um retiro espiritual e isso não fora muito antes de ele decidir-se a sair o com Léo.

Então Marta era tudo aquilo, onde ela estaria?

Era um “flash” de reportagem de algum baile da cidade, ou de qualquer parte do Brasil, Zé levantou o volume e ficou atento, mas ninguém mais voltou a referir-se ao local, embora os comentaristas estivessem ainda babando comentários elogiosos e especulações sobre quem seria aquela morena gostosa que havia se recusado a dar entrevista.

- Era Marta seus idiotas, minha Marta, minha recatada e pura Marta. Minha Marta “papai com mamãe” seus putos.

Zé desligou a televisão e não mais a ligou até Marta voltar para casa na quarta-feira de cinzas.

Havia pensado muito sobre o assunto, o qual nunca comentaram.
Hoje, Marta realmente vai para um retiro espiritual durante o carnaval, acompanhada por Zé, é claro, que durante o resto do ano pintou e bordou com a vagabunda que tem em casa.

No final das contas Léo estava certo. Na vida como na política, tudo é uma questão de eleger bem e atender às prioridades.

H. James Kutscka é Escritor e Publicitário. 

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