sábado, 8 de fevereiro de 2020

Os “toma lá” do Presidente Bolsonaro


Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Sérgio Alves de Oliveira

Eu era ainda uma criança lá pelo anos 50 e ouvi certa vez  do meu: pai : “filho, muito cuidado com aqueles que em todas as oportunidades sentem necessidade de dizer que “são honestos”, porque esses são justamente os “piores”, os maiores” ladrões”.

Não entendi bem o que ele quis dizer. Na época meu  pai militava na política gaúcha, tendo sido Deputado Estadual pelo extinto “Partido Libertador - PL”, e exercido por dois mandatos alternados o cargo de prefeito de Montenegro/RS, tendo conquistado para a cidade, por duas vezes, o título de um dos cinco municípios de ”Maior Progresso do Brasil”, cujos diplomas foram entregues pelo então Presidente Juscelino Kubitchek.

Nessa época, lá pelos anos cinquenta e sessenta, a principal característica da política brasileira era a “honradez”, cultivada pela imensa maioria dos políticos. Cito um exemplo: na Assembléia  Legislativa  do Rio Grande do Sul, os deputados da época não possuíam NENHUM assessor à disposição, e tudo o que precisassem de “mão de obra” relativa ao exercício do mandato teria que ser solicitado à Secretaria Geral da Assembléia. ”Igualzinho” a hoje, não?

Mas voltando ao assunto daqueles que a todo o momento batem no próprio peito, garantindo sobre a sua “honestidade”, hoje compreendo perfeitamente o que o meu pai queria dizer.

O ex-Presidente Lula da Silva, por exemplo, já “gastou” a própria garganta,e   quase  todos  os microfones do “mundo”, sempre  declarando ser  a “alma mais honesta do Brasil”. Mas pelo que apontam as diversas operações da Polícia e do Ministério Público Federais, bem ao contrário do que ele diz, tudo indica que seria o maior ladrão da política brasileira de todos os tempos, tendo sido apontado pelo MPF como “chefe de quadrilha”. Garantem alguns que durante o período (2003 a 2016) em que o partido de Lula, o PT, governou, teriam sido desviados do erário a exorbitante quanta de 10 trilhões de reais.

Agora tudo se repete em perspectiva totalmente diferente. O candidato presidencial Jair Bolsonaro,às eleições de outubro de 2018, e que acabou saindo vitorioso no pleito, sempre levou como principal bandeira da sua campanha eleitoral a guerra que declararia, se eleito, contra o chamado “TOMA LÁ-DÁ-CÁ”, que seria o “troca-troca”de favores, vantagens e benefícios diversos, todos ilícitos, entre os políticos, autoridades públicas e agentes políticos, de todos os  Três Poderes Constitucionais.

Ao que tudo leva a crer, o antigo “contestador” do “toma lá-dá-cá”, parece “puxar a fila” dos praticantes desse perverso “troca-troca” entre políticos e autoridades públicas. Mas ele só pratica o “toma lá”. E os beneficiários desse “toma lá” nunca retornam com a “compensação” do  “..dá cá”, dificultando o que podem a sua governabilidade. Portanto o “toma lá” de Bolsonaro dá no  mesmo que jogar dinheiro fora.

Fiquei pasmo com a “solução” encontrada pelo Presidente Bolsonaro após o “estouro” do escândalo, em que pela tremenda repercussão midiática  que teve, ele acabou sendo “constrangido” a demitir o “vice” da Casa Civil, pelo uso abusivo de um “Legacy” da FAB, que o levara  à Suiça e à Índia.

Ora, o uso abusivo dos aviões da FAB, por políticos e autoridades públicas, para vôos “domésticos” e “internacionais”, não é nenhuma novidade.

Esses vôos absolutamente imorais, propisciados a autoridades “sem noção”, foram “chancelados” por diversos decretos  governamentais, a começar pelo decreto Nº 4.244, de 2002, baixado pelo então Presidente FHC, secundado pelo decretos 6.911/ 2009, 7.961/2013, e 8.432/2015, todos da época do PT (Lula e Dilma), que “aperfeiçoaram” as mordomias dadas pelo FHC.

Toda a “bandalheira” praticada à luz desses “decretos” presidenciais, gerou absurdos inacreditáveis. O Deputado Federal  Rodrigo Maia, o “campeão”, Presidente da Câmara, por exemplo, só em 2019, fez 230 viagens com jatinhos da FAB, 46 delas para a sua casa, no Rio de Janeiro. Isso significa quase vôos  “diários”. Ao exterior, fez 7 viagens.

O Presidente do Supremo, Dias Toffoli, não fica muito atrás. Voou nos jatos da FAB em 95 ocasiões, além de diversos vôos internacionais em aviões de carreira, pagos pelo erário. Onde essa gente arruma tempo para “trabalhar”? Ganhando tanto?

E fiquei pasmo com a “solução” encontrada pelo  Presidente para “acabar” com esses abusos. Ao invés de revogar, liminarmente, esses malditos decretos, podendo ser até  com a sua “bic”,  ele afirmou que não vai mexer na “legislação”(leia-se os 4 decretos) para impedir tais abusos, pedindo aos usuários “conscientização” sobre o problema.

Só que esse “apelo” dá no mesmo que sugerir a assaltantes de banco que se abstenham de fazer isso, e passem a frequentar as “missas dominicais”.

Bolsonaro, portanto, age igual àquela pobre mulher que apanha todos os dias do marido carrasco, mas insiste em ficar ajoelhada na sua frente, submissa  a ele.

Essa é a realidade. Muito triste. Mas é a realidade !!!

Sérgio Alves de Oliveira é Advogado e Sociólogo.

5 comentários:

Vanderlei Lux disse...

Meus parabéns ao Sr. Sérgio Alves, uma das almas mais lúcidas desse blog.
Não desmerecendo os outros, mas Alves é o mais equilibrado e 'pés no chão' por aqui.

Meu pai também dizia algumas coisas sobre a política brasileira, mesmo não tendo militado nem sequer se candidatado à absolutamente nada na vida. Na realidade, ele odiava a política, com razão.

Uma das coisas que ele sempre dizia era o seguinte: "meu filho, um bom presidente nesse país é aquele que dura uns 3 à 4 meses no cargo e depois some. Renuncia ou morre, misteriosamente".

Demorei muito a entender o total significado dessa frase, mas hoje me é claro: nunca tivemos um 'bom' presidente. Se Bolsonaro fosse 'bom', já teria renunciado... ou pior. Tenho consciência da 'facada'que este levou, mas já tenho dúvidas sobre isso. Afinal, que fim levou Adélio Bispo? Porquê Bolsonaro nunca mais voltou a tocar no assunto? Porquê justamente um crime, envolvendo Bolsonaro, justo quem mais pregou pela justiça em sua campanha, está sem solução até hoje?

E porquê Sérgio Moro, 'ministro' da justiça, também nunca toca no assunto? Uma facada em um candidato à presidência da república não é um crime de segurança nacional?

Não sei... são muitos os fatos que acontecem em torno de Bolsonaro que mais estragam sua imagem do que a beneficiam. O "toma lá-dá-cá" é até o menor dos males nesse governo, pois mostrar-se covarde também é uma forma de sobrevivência... Só que Bolsonaro tem sido o mais covarde de todos os tempos...





Edison disse...

Aceite Sr. Filho de deputado federal e duas vezes prefeito, gostou, não? Aceite que você sofre menos...

Edison disse...

Não acha que continuar assim até 2026 é muito sofrimento não?

Chauke Stephan Filho disse...

Eu gostaria, Sérgio, de delatar alguma coisa, mas não sei de porra nenhuma.

Anônimo disse...

Quando se diz aos jovens que a seriedade no trato com a coisa pública era um padrão social, não mitificação dos livros de História, eles olham penalizados para o "ingênuo", pontificando que apenas havia menos informação disponível à época; mas pessoas com o olhar matreiro de Getúlio, Brizola, Juscelino e Jânio seriam tidas antigamente como desclassificada ralé. Excetuados os dirigentes do período militar, todos os presidentes da Nova República mostraram não ter formação à altura do cargo que ocuparam. As novas gerações, habituadas ao teatro e videogames desde a pré-escola, concebem a vida como uma grande encenação manipuladora, mas cobram furiosamente verdade nos outros (vide Greta Thunberg). Porisso, ou não acreditam na seriedade do patriotismo do presidente Bolsonaro, ou o consideram um suburbano chucro.