terça-feira, 24 de março de 2020

Nessun Dorma



Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por H. James Kutscka

Estávamos filmando um documentário em Manaus.

- O perigo vem da China, dizia meu amigo Xavier Oliveira nos idos anos setenta, enquanto falávamos sobre a vida e amores por longas horas à bordo de um iate emprestado, no qual navegávamos, em busca de locações pelo rio Amazonas e Negro.

Quase cinquenta anos depois, sua previsão torna-se realidade, com frequência alarmante.

Praticamente a cada dois anos, a China brinda o mundo com um novo vírus e todo o mundo perde o sono. 

O atual, está castigando principalmente a Itália, e promete não acabar por lá.
Então, como uma coisa leva a outra e todas levam à quarentena, ( seja ela  de quarenta dias ou de maneira informal , qualquer espaço de tempo  em isolamento  angustiante), onde todos nos sentimos como crianças,  de volta à sala de aula esperando ansiosos pela  sirene,  anunciando o recreio libertador, aproveitei  para nesse final de semana, revisitar Giacomo Puccini, que na ópera “Turandot”, se utiliza de temas chineses.

Nela, a princesa” Turandot” que odeia todos os homens, por haver assistido o estupro e assassinato da princesa Lo-u-Ling pelos Tártaros, se vê obrigada por seu pai, a se casar para manter a dinastia.

Turandot concorda, mas impõe que somente se casará com o pretendente que decifrar três charadas propostas por ela.

Se não as responderem corretamente, serão executados ao despontar da Lua.

Então, após assistir à  execução pública de um príncipe Persa, e conhecer a beleza e crueldade da princesa, que ignora os pedidos de clemência da população, um príncipe, até então desconhecido, (filho do derrotado rei Tártaro) tomado de paixão, ignora os pedidos de seu velho pai  e Liu  (que é apaixonada por ele), decide arriscar a vida enfrentando as charadas.

"Qual é o fantasma que nasce todas as noites, apenas para morrer quando chega a manhã?" "A esperança," responde.

"O que é vermelho e quente como a chama, mas não é chama?" "O sangue,"

"Qual é o gelo que te faz pegar fogo?" "Turandot." responde o príncipe sem titubear.

"Turandot! Turandot!" exclamam os sábios, resposta correta!
Assim vence o desafio proposto (até porque ele era o único a entender o sadismo e crueldade da princesa).

Ela desesperada, em vão, apela ao pai para escapar do compromisso.

O príncipe então, embora apaixonado, propõe um enigma: ela teria de descobrir seu nome até a madrugada, se o fizesse, ele mesmo se entregaria ao machado do carrasco.

É o terceiro ato, onde a emoção explode em todo seu encanto na maravilhosa ária “Nessun dorma”.

A princesa ordena que ninguém durma naquela noite, e que descubram o nome do príncipe. 

Seus emissários descobrem que na noite anterior, o príncipe estava acompanhado de uma jovem (Liu), que é presa, torturada e morre sem entregar seu nome.

Ao amanhecer, o príncipe, ele mesmo, diz a Turandot seu nome: Calaf.

Os guardas chegam para prendê-lo; ela agora pode dizer seu nome e livrar-se do compromisso, mas erra de propósito, dizendo que seu nome é Amor.

Deixando de lado o romantismo.

“Non lasciare che nessuno dorma, più di tutt gli scienziati dedicati ala patologia.”

Não deixem que ninguém durma, mais que todos os cientistas dedicados à patologia.

Aqui Covid19 também é cultura.

“All´alba vinceremo!”

Ao amanhecer venceremos!

H. James Kutscka é Escritor e Publicitário.

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